Uma tecnologia com potencial disruptivo, desenvolvida na Nova Zelândia, tem sido olhada com especial atenção por alguns gigantes do agro brasileiro.

Nomes como o Grupo Scheffer e as companhias GDM e TMG iniciaram recentemente os testes, no País, para o uso de feixes de luz ultravioleta para o melhoramento de sementes de milho – e, se eles tiverem resultados positivos, posteriormente de soja e algodão.

O sistema está em fase piloto, trazido ao Brasil pela agtech BioLumic, criada em 2013 pelo cientista Jason Wargent, especializado em fotobiologia. A proposta da companhia é transformar o País em um de seus hubs globais para a comercialização de uma tecnologia que utiliza a luz para “programar” a expressão genética em plantas.

Scheffer, GDM e TMG vão avaliar o modelo e seus resultados nos próximos dois anos e, no que depender da companhia neozelandesa, devem se transformar em parceiros relevantes quando a ideia deixar os campos de testes para entrar em fase comercial.

“Trabalhar com parceiros estabelecidos é realmente fundamental para nossa estratégia”, afirma Alex Fotsch, head de Produtos da BioLumic ao AgFeed.

“Se conseguirmos desenvolver essa confiança e avançar nos pontos de prova com esses parceiros, vemos uma grande capacidade de escalar para cerca de 50 milhões de acres (em torno de 20 milhões de hectares) de milho no Brasil”.

Os planos são ambiciosos, mas proporcionais à grandeza dos parceiros escolhidos. O Grupo Scheffer, fundado por Eliseu Maggi Scheffer, é um dos maiores operadores agrícolas do Brasil, com mais de 200 mil hectares cultivados. Nos últimos anos, sob a liderança de Guilherme Scheffer, tem se posicionado como um dos principais incentivadores da agricultura regenerativa e de novas tecnologias para a produção sustentável.

Já o grupo argentino GDM é um dos maiores do mundo em genética de sementes para soja, com presença hoje em cerca de 80% das lavouras brasileiras da cultura. Nos últimos anos, tem investido para replicar no milho o mesmo sucesso, sobretudo após a aquisição da KWS, em 2024.

A paranaense TMG segue o mesmo trilho, depois de se estabelecer como uma força na genética de sementes se soja e algodão. Seus primeiros híbridos de milho foram lançados na safra 2024/2025.

Faz sentido, portanto, que eles tenham buscado uma inovação capaz de transformar e acelerar o processo de desenvolvimento de novas variedades de sementes.

Segundo Fotsch, a tecnologia da BioLumic permite encurtar de forma significativa esses processos. “Se pensarmos em características tradicionais de biotecnologia, elas podem levar de cinco a dez anos para serem lançadas no mercado”, explica. “Podemos reduzir isso para dois a três anos”.

O executivo acredita que isso pode ser ainda mais expressivo no Brasil, pelo fato de o País conseguir plantar duas safras, ou “estações de crescimento”, como diz por ano.

“Isso acelera ainda mais nossa capacidade”, aposta. “Então, a principal vantagem é que permitimos que as empresas de sementes inovem mais rápido e levem essas características ao mercado em uma fração do tempo, usando a mesma genética que seus produtores já conhecem e confiam”.

Esse é outro ponto destacado por Fotsch como um diferencial trazido pela tecnologia da BioLumic. Se os processos tradicionais da biotecnologia atuam no nível da mudança genética das sementes, a agtech promete ser possível apenas ativar, com “banhos de luz”, características já presentes no seu DNA, mas que não se expressavam da maneira desejada.

Fotsch recorre a uma analogia para explicar a tecnologia da empresa. “Tratamos a genética vegetal como um livro de receitas, em que se tem todas as instruções para todos os diferentes desenvolvimentos e crescimento que a planta precisa”, diz.

“Somos simplesmente como um bilhete que fica em um Post-it, em que dizemos para talvez adicionar um pouco mais desse ingrediente ou mudar esse processo. Não estamos mudando a genética em si, apenas aprimorando a expressão genética de processos que são inatos na planta”.

Isso é feito, segundo explica, com uma aplicação única. As sementes passam, em uma esteira, sob um equipamento que emite luzes UV, controladas pelos softwares desenvolvidos pela empresa. Para cada efeito desejado, essas luzes têm uma intensidade específica.

“Existem bilhões de receitas de luz”, prossegue Fotsch. “Ao modular um sinal específico, com uma fórmula específica de duração, miramos fotorreceptores UV na semente que trazem esse benefício”.

A tecnologia de desenvolvimento vegetal mediado pela luz, conhecida como fotomorfogênese, já era conhecida quando o fotobiólogo Wargent, pesquisador de renome mundial, fundou a BioLumic - hoje ele é o cientista-chefe da empresa.

O foco inicial dele estava em como fazer as plantas responderem naturalmente aos sinais de luzes UV. Durante anos, ele observou como obter respostas consistentes em mudas e então criou a companhia para aprimorar a tecnologia para entregar as “receitas de luz”.

O primeiro grande salto na empresa ocorreu em 2021, quando foram obtidas as primeiras respostas sendo induzidas diretamente nas sementes. “Isso era um passo fundamental para escalar essa tecnologia”, afirma Fotsch.

No ano seguinte, a BioLumic observou esses resultados no tratamento direto dos híbridos de milho. E seguiu trabalhando para conseguir fazer com que as características ativadas pudessem ser transmitidas no processo multiplicação das sementes, o que aconteceu em 2024.

De lá para cá, a BioLumic ampliou sua presença, com a validação da tecnologia em escala com parceiros especializados em genética. “A maior parte do nosso trabalho comercial foi nos Estados Unidos, na região do Meio-Oeste”, diz o executivo.

Hoje, segundo ele, a empresa tem capacidade, juntamente com os parceiros americanos, de oferecer sementes melhoradas de milho com sua tecnologia para plantio de cerca de 2 milhões de hectares.

E também iniciou pesquisas em parceria com a Fundação Bill e Melinda Gates, focada no desenvolvimento de características precoces de vigor no arroz, e com a neozelandesa Fonterra, uma das maiores produtoras de laticínios do mundo, para o melhoramento de variedades de pastagens.

O Brasil no foco

De acordo com Alex Fotsch, a tecnologia da BiolLumic já foi estada com sucesso em mais de 12 culturas. O principal foco da empresa no momento, porém, é mesmo o milho, pelo seu potencial de mercado.

Na cultura, a pesquisa tem se concentrado nas características que permitem obter maior produtividade e no estabelecimento dos estandes. Com os parceiros brasileiros, o ganho de produtividade é a principal frente de trabalho.

Por enquanto, no projeto piloto, a BioLumic deve enviar ao País uma versão portátil de seu equipamento, capaz de ser transportada em um avião e suficiente para tratar pequenas quantidades de sementes.

“Temos um sistema muito grande que pode tratar cerca de 2 milhões de hectares por ano, apenas com um equipamento”, compara.

Esse equipamento ficará hospedado em uma das unidades do Grupo Scheffer, para onde GDM e TMG enviarão as sementes para fazer as ativações.

Essas sementes serão, então, submetidas a avaliações de campo.
“Estamos agora no processo de combinar a genética específica com receitas individuais de luz”, explica Fotsch, responsável pela implantação da tecnologia proprietária da BioLumic, que tem o nome comercial de XTraits, junto aos parceiros.

“Nossos programas começam aí, com o envio, pelos parceiros, de uma seleção de genética. Em poucas semanas, roamos uma grande grade de receitas diferentes para identificar a receita ideal de luz”.

Ainda em janeiro, Scheffer, GDM e TMG, plantarão essas sementes no campo, com dois objetivos. O primeiro é gerar as sementes híbridas que serão cultivadas na temporada seguinte. “E, em segundo lugar, testar a semente endogâmica, nosso grupo tratado com luz versus um grupo controle”.

O ganho de rendimento híbrido será testado em uma segunda safra, com as sementes produzidas a partir dos cruzamentos de viveiros consanguíneos. “É aí que a grande maior parte do valor é atribuída à empresa de sementes em termos de sua diferenciação no mercado”.

Assim, para se ter resultados mais precisos sobre o potencial comercial das novas variedades será preciso esperar até o final da safrinha de 2027.

A ideia de desembarcar com a tecnologia no Brasil tem mais de um ano. Foi viabilizada a partir de um primeiro contato do CEO da companhia, Steve Sabolkin, com o Grupo Scheffer.

“No nosso plano, eles atuariam como um hub para centralizar nosso desenvolvimento, nossa validação, começando pelo milho, mas potencialmente trabalhando isso também na soja e no algodão, em que eles têm grandes áreas”.

“A ideia é que possamos trabalhar com a Scheffer para estabelecer nossa tecnologia, ter um local onde possamos implantar nossos equipamentos de hardware, mas também trabalhar muito próximos com seus parceiros, que são algumas das maiores empresas de sementes do Brasil”.

À medida em que o projeto avance, a BioLumic deve começar a formar uma equipe local de agrônomos e desenvolvimento de negócios, que trabalharia próxima dos parceiros. “Temos uma visão de longo prazo para o Brasil e para a América do Sul de forma mais ampla”.

“O Brasi é um centro estratégico e razoável para a Biolumic e um dos mais críticos. O sistema de duas safras para validar traços e promovê-los mais rápido é um aspecto realmente único que não vemos nos Estados Unidos”.

Investidores globais

Um provável estabelecimento comercial no Brasil pode vir a ser o gatilho para que a BioLumic volte às captações.

A agtech já realizou três rodadas completas. A mais recente foi a série B, encerrada em 2022 mas que contou com uma extensão, no início de 2025, que elevou o seu valor total para pouco mais de US$ 20 milhões.

No captable da companhia estão alguns dos nomes com quem hoje a empresa tem parcerias estratégicas, como a Fonterra, através do seu fundo de corporate venture capital, e a Fundação Gates. Também estão na lista o Rabo Ventures, findo de VC do Rabobank, e a Finisterra Ventures.

“Esse capital nos ajudou a passar da prova de conceito para a escala e comercialização da tecnologia”, afirma Fotsch.

Segundo ele, a empresa hoje avalia a possibilidade de buscar mais capital nos próximos 12 a 18 meses, deopendendo de como algumas conversas se desenrolarem nesse meio tempo com alguns dos nossos parceiros atuais.

“Vamos precisar de alguns fundos extras para mais equipamentos, mais funcionários, por exemplo, para operar no Brasil. Isso exige algum investimento da nossa parte para depois colher os benefícios no futuro.

Atuar em um novo ambiente, com “germoplasma tropical”, diferente do dos Estados Unidos, é um desafio para a agtech, além da possibilidade, no Brasil, de trabalhar com soja e algodão. “Vemos isso como o começo de uma oportunidade muito maior”, conclui.

Resumo

  • Agtech neozelandesa BioLumic testa no Brasil tecnologia que usa luz UV para ativar a expressão genética de sementes, sem alterar o DNA
  • Grupo Scheffer, GDM e TMG iniciam testes da tecnologia no milho, com potencial de expansão para soja e algodão
  • Inovação pode reduzir o tempo de desenvolvimento de novas variedades de até 10 para cerca de 2 a 3 anos

Campo de milho cultivado com sementes tratadas pela agtech

Alex Fotsch, head de Produtos da Biolumic

Tratamento de sementes de soja com luzes UV