Ex-piloto com passagens por categorias como a Fórmula 3 na Inglaterra, o empresário Ernani Judice tem o verbo acelerar sempre na ponta da língua. Como piloto da Agrion, fabricante de fertilizantes agromineirais produzidos a partir de resíduos de usinas sucroenergéticas, não é diferente.

“O projeto pegou tração, deu certo. Os números todos se comprovaram, as usinas começam a se falar e pegar validação uma da outra. Então acelerou”, disse, em entrevista ao AgFeed, na véspera de celebrar uma nova vitória.

Nesta quarta-feira, 28 de outubro, a companhia lança a pedra fundamental de sua terceira fábrica de fertilizantes, instalada dentro da Cerradão Açúcar, Etanol e Bioenergia, em Frutal, no Triângulo Mineiro.

O investimento é de R$ 46 milhões apenas em Capex na primeira fase, com capacidade inicial para produzir 70 mil toneladas por ano e previsão de início de operação em junho de 2027. Contando capital de giro e recursos necessários para o funcionamento, quando chegar a hora, os aportes podem chegar a R$ 80 milhões.

O lançamento da nova planta marca também os três anos da inauguração da primeira unidade da Agrion, erguida dentro da Bioenergética Aroeira, em Tupaciguara (MG), com capacidade para 60 mil toneladas de fertilizantes sólidos e líquidos.

Na época, em conversa com o AgFeed, Judice falava em construir 20 fábricas de porte semelhante à da Aroeira, a um custo de cerca de R$ 30 milhões cada, em um período de uma década, sendo dez nos primeiros seis anos.

Três anos depois, o plano avanço e, segundo o ex-piloto, de forma mais acelerada do que o previsto no plano de negócios fechado junto a sócios como o Green Climate Fund, em que a ONU é cotista, que tem 23% da empresa. “A velocidade de implantação está mais rápida do que o plano que foi aprovado", disse Judice.

Embora a nova usina seja a terceira a sair do papel – a segunda, em sociedade com a Enersugar e a NovAmérica, está em fase de conclusão em Ibirarema, no interior paulista, com previsão de iniciar operação em fevereiro próximo – o executivo aponta que, como o porte das novas plantas é maior do que o indicado no plano, a capacidade produtiva já supera as metas projetadas.

“A Cerradão, por exemplo, ela vai equivaler a três ou talvez quatro fábricas”, afirmou Judice. “Somente o primeiro módulo dela já equivale de duas a três no nosso plano de negócio. Então a gente está bem acelerado no volume que a gente quer produzir total, com fábricas um pouco maiores.”

A unidade ocupará cerca de 6,5 mil metros quadrados e deve gerar aproximadamente 50 empregos. O projeto já prevê uma segunda etapa, que poderá elevar a capacidade para 205 mil toneladas anuais e o quadro de pessoal para cerca de 90 pessoas.

O “combustível” disponível na Cerradão permite a Judice pensar em manter o pé no acelerador. Segundo ele, a usina processa 7,5 milhões de toneladas de cana por safra, com potencial declarado de chegar a 10 milhões, e mantém um confinamento de gado de grande porte. Ou seja, produz volume excepcional de matéria orgânica que precisa de destino.

“A gente tem muita matéria orgânica para dar solução”, afirmou o CEO da Agrion. “E tem um potencial muito grande, porque eles são grandes e a região é muito boa também.”

Nesta primeira fase, a fábrica usará apenas resíduos da cana. A expansão futura permitirá incorporar também o resíduo do confinamento. O processo é o mesmo em qualquer planta. A matéria orgânica passa por compostagem e estabilização, e daí segue para a produção do organomineral.

A lógica que sustenta o negócio é a da economia circular. A Agrion instala suas plantas no terreno da própria usina, aproveita o resíduo da cana, sobretudo a torta de filtro, como matéria-prima e devolve fertilizantes para os canaviais ao lado. O único insumo comprado externamente é o NPK.

A usina não investe. Compromete-se a comprar fertilizante por dez anos, em contratos de take or pay que servem de lastro para a captação de recursos da Agrion.

“O investimento é nosso, colocamos a fábrica em pé e a usina faz seu mapa de adubação para que possamos produzir exatamente aquilo que ela precisa”, explicou o CEO em 2023, por ocasião da primeira inauguração.

Há ainda uma opção de sociedade. Em todas as plantas, a usina tem cinco anos para se tornar sócia do empreendimento. “A gente dá uma opção porque a ideia é que a gente comece operando sozinho e depois eles entram", afirmou Judice.

Cada unidade nasce como uma SPE, que emite os instrumentos de dívida utilizados nas captações. A produção é dimensionada para o consumo nos canaviais da usina e o excedente vai ao mercado regional, sendo comercializado junto a produtores de soja, milho, café e hortifruti.

Na Aroeira, de acordo com Judice, 100% dos fertilizantes sólidos e líquidos consumidos pela usina vêm da fábrica.

A Agrion informa ter investido R$ 150 milhões nas três plantas, somando instrumentos de dívida e equity. O financiamento se apoia nos contratos de dez anos com as usinas. “Consigo uma taxa melhor. Consigo me financiar. Por mais que a gente se alavanque aqui, tem a garantia do pagamento da usina”, disse o CEO. A estrutura inclui debêntures, CRAs e operações com Fiagros.

O que a usina ganha

O argumento comercial da Agrion se sustenta em dois potenciais de ganho. A primeira é direta e mensurável. A empresa assume o custo do pátio de compostagem da usina, estimado em R$ 2,5 milhões por ano na média das parceiras.

Além disso, paga pela torta de filtro que antes a usina aplicava no canavial, o que, no caso da Aroeira, equivale a cerca de R$ 5 milhões anuais. E também elimina o custo de aplicação desse resíduo no campo, calculado em torno de R$ 12 milhões por ano.

“Então, só aí tem quase 20 milhões de reais por ano de ganhos diretos que eu pago para o parceiro”, estimou.

A segunda frente é o possível ganho de produtividade nos canaviais graças ao uso dos fertilizantes produzidos pela empresa. Segundo Judice, uma avaliação feita pela Aroeira, em parceria com a própria Agrion e uma consultoria externo, registrou um ganho médio de produtividade de 10% do organomineral em relação ao NPK tradicional.

Assim, calculou, como a usina produz cerca de 100 toneladas de cana por hectare em 25 mil hectares, isso representaria algo como R$ 1 mil por hectare e um potencial de até R$ 25 milhões por ano. “É claro que tem área que dá mais, outra que dá menos, mas esse é o potencial que eles enxergam”, afirmou.

Há ainda, de acordo com o executivo, vantagens operacionais, como o fafo de o fertilizante estar dentro da usina, não precisando ser armazenado, e a formulação pode ser trocada conforme a necessidade, em produção just-in-time.

Expansão sem fronteiras

Na entrevista com o AgFeed, Judice revelou que o pipeline da Agrion tem quatro negociações avançadas para a construção de novas plantas. Três delas devem ser no Brasil, em Goiás e São Paulo. A quarta marcaria a internacionalização da empresa, com a chegada aos Estados Unidos.

A prospecção americana está na Flórida, junto a um grande grupo sucroenergético, cujo nome ainda é mantido em sigilo. O projeto está há um ano em negociação e, segundo o CEO, em fase final.

No Brasil, o foco continua na cana, mas com atenção crescente às usinas flex, que produzem etanol de cana e de milho. Nesse arranjo, a Agrion recebe a torta da cana, vende fertilizante para o canavial da usina e para seus fornecedores e usa o insumo como moeda de troca no milho, via barter.

"A usina consegue fixar preço de milho usando um fertilizante que vem do resíduo dela, que antes era resíduo e vira uma moeda de troca muito valiosa para eles."
Judice afirma que um novo anúncio está próximo. "em breve, a gente anuncia uma quarta planta. Está bem avançado. É um grupo fantástico."

Resumo

  • Agrion lança  pedra fundamental da terceira fábrica,  dentro da Cerradão, com R$ 46 milhões na primeira fase e 70 mil toneladas anuais
  • O modelo instala a fábrica dentro da usina, usa resíduo da cana como matéria-prima e financia o capex com contratos de take or pay de dez anos
  • A empresa já investiu R$ 150 milhões nas três unidades e informa ganhos diretos de quase R$ 20 milhões por ano para uma usina do porte da Aroeira