Um El Niño forte pode reduzir em 9,9% a produção brasileira de soja na safra 2026/2027 em relação à temporada anterior e ter impacto potencial de R$ 33 bilhões na cadeia na comparação com a neutralidade climática.
As estimativas constam de um estudo da Serasa Experian, que compara dois cenários climáticos para a próxima temporada, considerando a mesma área plantada, de 49,9 milhões de hectares.
No cenário de neutralidade climática, a produção brasileira alcançaria 181,2 milhões de toneladas, com produtividade média de 3.622 quilos (equivalentes a aproximadamente 60 sacas) por hectare.
Já sob um El Niño forte, o rendimento cairia para 3.282 quilos por hectare, ou cerca de 55 sacas, reduzindo a colheita nacional para 163,6 milhões de toneladas.
A diferença representa uma perda potencial de 9,7% na produção, equivalente a aproximadamente 293 milhões de sacas de soja.
Para Daniel de Oliveira, gerente de Geoprocessamento da Serasa Experian, o principal risco está na distribuição e na intensidade das chuvas, que podem comprometer o desenvolvimento das plantas em diferentes estágios.
“O El Niño não significa simplesmente menos chuvas no Brasil. A gente sabe que os efeitos são diversos, vão depender da distribuição e da intensidade desses eventos”, afirma.
O levantamento indica que a expansão da área cultivada não seria suficiente para compensar os efeitos de condições climáticas adversas sobre a produtividade.
Mesmo com crescimento estimado de 1,8% na área plantada prevista para esta temporada, a produção sob El Niño forte ficaria 9,9% abaixo das 181,5 milhões de toneladas da safra 2025/2026.
Esse percentual difere dos 9,7% porque compara a projeção com a temporada passada, enquanto o primeiro considera os dois cenários climáticos apenas para 2026/2027.
Para dimensionar o impacto econômico, a Serasa Experian utilizou o Valor Bruto da Produção (VBP) da soja calculado pelo Ministério da Agricultura em agosto de 2026, de R$ 340,6 bilhões.
A divisão desse valor pela produção de referência resulta em uma receita média estimada de R$ 1,88 mil por tonelada, a preços de agosto deste ano.
Aplicada à diferença de produção entre os cenários, essa referência chega aos R$ 33 bilhões sobre o VBP da cultura.
“Aqui eu não estou dizendo que haverá um prejuízo financeiro dessa ordem. É mais uma vez olhar para o passado, olhar para o que a gente sabe, para trazer uma dimensão do potencial impacto”, ressalta Oliveira.
A metodologia combina dados proprietários da Serasa Experian com produtividades registradas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) nas safras 2023/2024 e 2024/2025, para comparar os cenários de El Niño forte e neutralidade climática.
Regionalização
Segundo o estudo, a distribuição regional dos impactos poderia ter diferenças expressivas, com perdas concentradas no Centro-Oeste, mas também ganhos potenciais em algumas regiões.
Em tese, Mato Grosso, maior produtor nacional, apresentaria a redução mais acentuada em volume absoluto. A colheita cairia de 51,2 milhões de toneladas, no cenário neutro, para 41,5 milhões de toneladas sob um El Niño forte, diferença de 9,7 milhões de toneladas, ou aproximadamente 19%.
Em Goiás, segundo maior impacto negativo em volume, a produção recuaria de 24,3 milhões para 20,3 milhões de toneladas, perda de 4 milhões de toneladas, equivalente a 16,6%.
Juntos, os dois estados responderiam por quase 80% da redução líquida nacional projetada.
O Paraná também seria afetado, com redução de 2,3 milhões de toneladas, passando de 20,1 milhões para 17,8 milhões de toneladas, queda de 11,6%.
Na direção oposta, o Rio Grande do Sul seria o principal beneficiado pelo fenômeno climático. A produção gaúcha avançaria de 16,7 milhões para 22,3 milhões de toneladas, ganho de 5,5 milhões de toneladas, ou 33,1%.
“Isso acontece porque o El Niño não produz o mesmo efeito, o mesmo padrão climático, ao longo de todo o território”, explica Oliveira.
O executivo ressalta, porém, que chuvas excessivas também podem provocar encharcamento do solo e maior pressão de doenças nas lavouras gaúchas. De fato, o início do período de plantio nesta temporada no estado foi prejudicado pelo excesso de chuvas.
Em Mato Grosso, onde cerca de 70% da área já está semeada, a preocupação agora se concentra na regularidade das chuvas entre novembro e janeiro, período decisivo para o florescimento e o enchimento dos grãos.
Clima vs inadimplência
Para Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, os efeitos de uma eventual quebra de safra sobre a inadimplência dependerão principalmente da situação financeira de cada produtor.
Aqueles com elevado endividamento, dificuldades para renovar crédito e operações concentradas nas regiões mais afetadas estariam particularmente vulneráveis.
“A inadimplência machuca mais do que a própria recuperação judicial. Acho que esse é um ponto bem importante”, afirma Pimenta.
Segundo ele, os pedidos de recuperação judicial representam uma parcela relativamente pequena dos produtores, embora tenham repercussão significativa no setor.
O executivo defende investimentos em infraestrutura para reduzir a vulnerabilidade climática e preservar a capacidade de pagamento dos agricultores.
“Investimentos em novos pivôs de irrigação ajudam muito em períodos de estiagem a continuar com a mesma produção e a gerar o caixa necessário para se manter adimplente”, afirma.
Resumo
- Mato Grosso e Goiás concentrariam quase 80% da redução líquida nacional projetada no estudo
- Rio Grande do Sul poderia ampliar colheita em 33,1%, beneficiado pela maior disponibilidade de chuvas
- Produtores mais endividados e expostos ao risco climático podem enfrentar dificuldades para honrar créditos