A AgriConnection está apostando pesado em pesquisa e desenvolvimento para se posicionar à frente do que vem pela frente no mercado de insumos agrícolas.
Em entrevista à série SpeedCast, realizada pelo AgFeed durante o Congresso Brasileiro do Algodão, o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da companhia, Rogério Duarte, detalhou a estratégia da Agripedia — o braço de P&D da empresa — e as tendências que devem mover o setor nos próximos anos, da aplicação guiada por inteligência artificial à nova geração de biológicos.
“Tem muitas coisas vindo por aí, no cenário nos próximos anos, inclusive a nova geração de biológicos”, resumiu Duarte, que lidera um pipeline de 20 novos produtos com investimento estimado em R$ 50 milhões nos próximos anos.
Mais que o departamento de pesquisa da AgriConnection, a Agripedia possui CNPJ próprio e uma estrutura que permite prestar serviços a empresas que querem entrar no mercado brasileiro, sejam chinesas, indianas ou europeias.
O braço oferece tanto consultoria regulatória quanto desenvolvimento de produtos, partindo da tese de que, como diz Duarte, “trazer cópias de produtos já registrados não tem mais tanto valor para o agricultor”.
Segundo ele, hoje o foco está em desenvolver formulações inéditas no mercado, para dar ao produtor uma solução diferenciada, muitas vezes com menos custo, porque se aplica menos para obter um controle melhor.
O modelo de desenvolvimento do grupo, contou Duarte, começa “dentro da porteira”. Antes de formular qualquer produto, a equipe conversa com produtores, consultores e pesquisadores próximos ao campo para entender os problemas atuais e as tendências que já sinalizam os problemas do futuro.
Os produtos buscam amplo espectro, para que o produtor possa usá-lo mais vezes, sem ficar com um item específico parado no galpão, e manejo de resistência, para que durem muito tempo a campo.
O projeto inclui pesquisas em nanotecnologia, desenvolvidas em parceria com duas universidades, a Unesp de Sorocaba e a USP de Ribeirão Preto. O objetivo é chegar a produtos que atendam a novas demandas do produtor, como a aplicação com drones.
Segundo Duarte, o Brasil é um dos países que mais aplica defensivos com o uso dessas aeronaves e a Agripedia quer formular para esse novo regime de baixo volume e maior residual.
O executivo lembrou que as tecnologias de aplicação foram umas das que mais evoluíram nos últimos três anos. “Hoje nós temos pulverizadores autônomos, que você não precisa mais da pessoa que dirige o trator. É tudo mapeado por GPS, por inteligência artificial”, disse.
Além disso, os drones cresceram em volume e autonomia, operando o dia todo, e a capacidade operacional aumentou com forte redução do volume de aplicação.
A próxima fronteira, na sua visão, é a IA em tempo real. Através dela, é possível identificar a praga, a mancha de doença ou a erva daninha e aplicar o produto específico somente naquele ponto, em vez de na área toda. “Você economiza produto, impacta menos o meio ambiente e consegue um controle mais efetivo”, explicou.
A nova geração de biológicos
No radar da Agripedia está também o que a companhia chama de terceira e quarta ondas de biológicos: IRNA, micropeptídeos, feromônios e produtos isolados em misturas com químicos.
Para Duarte, a primeira onda — os tricodermas — já está estabelecida e abundante no mercado. A evolução agora vem dessas tecnologias mais sofisticadas, que ele acredita que vão “encaixar muito bem” e trazer ganhos em controle, operação e custo.
A parceria da AgriConnection com a Globachem, da Bélgica, ilustra o modelo. Dois produtos estão sendo desenvolvidos em conjunto. Um deles, um extrato de óleo de girassol, de origem natural, é voltado ao controle da broca do café. Duarte explicou que o produto faz a praga sair do fruto sem danificar a amêndoa, preservando a bebida do café e permitindo menos químico na lavoura, o que pesa nas certificações e nas exportações.
Segundo o executivo, o futuro é de convivência. “O biológico sozinho não consegue evoluir, assim como o químico precisa dele até para manejo de resistência”.
A rota da China
Outra tendência analisada por Duarte é a presença cada vez maior da China nos mapa da inovação. Historicamente, novas moléculas vinham de um grupo pequeno de multinacionais, com os fabricantes de genéricos esperando as patentes vencerem.
Agora, com indústria química forte em formulação e síntese, os chineses, seguidos pela Índia e pelo Japão, berço histórico do chamado discovery, têm avançado no desenvolvimento e nas patentes de moléculas próprias.
Assim, o modelo de P&D “está desconcentrando, passa a não ficar mais concentrado na mão só das grandes empresas”, disse Duarte. Grupos menores, como a própria AgriConnection, que já tem pessoas trabalhando na China, fazendo o scouting dessas tecnologias, passam a ter acesso à nova fronteira do discovery.
O compromisso, garantiu, é acelerar a chegada dessas inovações. “Estamos trabalhando para que elas venham o mais rápido possível”.