Durante décadas, o Charolês carregou no Brasil a imagem de uma raça de bovinos de grande porte, reconhecida pela capacidade de ganho de peso, mas com características que limitavam sua utilização em determinados sistemas de produção, especialmente pela menor precocidade e pelo peso elevado dos bezerros ao nascimento em comparação com outra raça europeia bastante popular, o Angus.

Nos últimos 30 anos, porém, criadores brasileiros passaram a trabalhar para mudar esse perfil, buscando preservar o potencial de ganho de peso da raça e incorporar atributos cada vez mais valorizados pela pecuária moderna.

Esse trabalho de seleção genética começa a se traduzir em resultados comerciais, com o Charolês ganhando espaço no melhoramento genético, nos cruzamentos industriais e nos sistemas intensivos de produção de carne bovina.

Um exemplo da popularidade que o Charolês passou a ganhar é o touro Jotabê Patriot, de 867 kg, que recentemente ultrapassou 50 mil doses de sêmen comercializadas pela CRV Lagoa, uma das maiores centrais de melhoramento genético do Brasil.

O animal foi desenvolvido pelo Charolês Figueira, principal criatório da raça no Brasil, que fica localizado em Ararambé (RS) e é comandado há mais de quatro décadas pelo pecuarista André Corrêa Berta.

“O mercado brasileiro descobriu o Charolês”, resume Berta, em entrevista ao AgFeed.

A história do pecuarista com a raça começou aos 15 anos, na década de 1980, quando assumiu o criatório da família após a morte do pai, Antônio Carlos Berta.

Fundada em 1964, a propriedade dos Berta esteve entre as pioneiras na introdução da genética francesa no Rio Grande do Sul, tendo importado touros diretamente da França, país de origem da raça.

Ao longo das décadas seguintes, porém, a seleção genética tomou outro rumo. A inspiração veio dos Estados Unidos, onde os criadores priorizavam características ligadas à eficiência produtiva, à precocidade e à facilidade de manejo.

“De 30 anos para cá, nós introduzimos através da linhagem norte-americana, buscada nos Estados Unidos, animais com prova, atestando facilidade aos critérios mais importantes: facilidade de parto, caráter mocho, pelagem curta para adaptação ao calor, precocidade sexual e precocidade de acabamento”, explica.

“Nós lapidamos a nossa genética brasileira para atender essa questão da precocidade, porém mantendo essa grande característica, esse grande diferencial que é o ganho de peso.”

A transformação ocorreu justamente quando a pecuária brasileira passava a exigir animais capazes de atingir o peso de abate mais rapidamente, impulsionada pelo avanço dos confinamentos e pela intensificação da produção.

É nesse cenário que Berta identifica uma oportunidade para ampliar a presença do Charolês, principalmente nos cruzamentos industriais.

A principal vantagem, segundo ele, está na heterose, fenômeno genético pelo qual o cruzamento entre raças diferentes pode produzir descendentes com desempenho superior à média dos animais de origem.

“Sabidamente a heterose é a única ferramenta gratuita da pecuária. Se nós formos para a nutrição, tem custo. Se nós formos para a sanidade, tem custo. O gerenciamento tem custo, reprodução tem custo. Já a heterose é uma ferramenta gratuita, está à disposição do criador”, defende.

Nesse mercado, a genética Charolês vem sendo utilizada tanto sobre matrizes Nelore quanto em cruzamentos envolvendo fêmeas meio-sangue Angus e Nelore.

É nesse segundo grupo que o pecuarista enxerga uma das principais oportunidades de expansão da raça.

Tradicionalmente, parte dessas fêmeas era destinada ao abate precoce. Nos últimos anos, entretanto, produtores passaram a aproveitá-las também como matrizes, abrindo espaço para uma terceira raça no sistema de cruzamento.

A estratégia, conhecida como tricross, consiste em cruzar uma fêmea meio-sangue Angus e Nelore com um touro Charolês, produzindo animais com 50% de genética Charolês, 25% Angus e 25% Nelore.

O objetivo é combinar características das três raças, aproveitando principalmente a capacidade de crescimento e de produção de carne do Charolês.

“De uns anos para cá, o Charolês vem se destacando, se caracterizando como a melhor raça para obter o máximo desempenho nessa ‘precocinha’”, afirma Berta, em referência às fêmeas precoces oriundas do cruzamento.

“Nos Estados Unidos, a grande raça de cruzamento sobre o rebanho Angus lá é o Charolês, é o boi fumaça, “boi smoke”, que é como eles chamam. Acho que o Brasil entendeu isso e está usando em larga escala o Charolês sobre a “precocinha”.”

Para explorar esse potencial, o pecuarista recomenda que os animais resultantes do cruzamento sejam direcionados ainda jovens a sistemas intensivos de terminação.

Segundo Berta, resultados observados em confinamentos indicam que esses cruzamentos podem apresentar desempenho superior ao de outras combinações genéticas.

“Eles vão nos dar no final do confinamento um ganho de 10% a mais em ganho de peso e rendimento de carcaça do que o cruzado com outras raças”, afirma.

Como exemplo, cita um animal que registra ganho médio diário de 1,8 quilo. Com a introdução da genética Charolês, segundo o criador, esse desempenho poderia se aproximar de 2 quilos.

O avanço também ocorre fora da região Sul, onde permanece concentrada a maior parte dos criatórios de animais puros.

Berta cita a utilização da genética em estados como Mato Grosso, Bahia, Sergipe e Minas Gerais, movimento favorecido pela inseminação artificial e pelos esforços de adaptação da raça às condições brasileiras.

Uma das características desenvolvidas nesse processo foi a pelagem mais curta e fina, que, associada à coloração clara dos animais, pode favorecer o conforto térmico em regiões mais quentes.

“Das raças europeias, a raça que mais sobe no Brasil trabalhando a campo é o Charolês”, afirma o pecuarista.

A expansão começa a aparecer também nas expectativas comerciais do setor. Berta estima que as vendas de sêmen Charolês possam dobrar em 2026, embora não apresente números absolutos para dimensionar esse crescimento.

O Charolês Figueira, por exemplo, colocou 26 touros em centrais de inseminação artificial nos últimos dez anos.

“O mercado está ávido por touros Charolês. As centrais estão ávidas porque tem demanda de sêmen”, diz Berta, ressaltando ainda que a raça já ocupa a segunda posição entre as taurinas mais demandadas para cruzamento no Brasil, atrás apenas do Angus.

Desafios

O desafio agora é transformar a maior utilização da genética em valorização comercial dos animais produzidos.

Nesse aspecto, o Charolês ainda tem um caminho a percorrer em relação ao Angus. O programa Carne Angus Certificada, desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus em parceria com a indústria frigorífica, oferece bonificações aos pecuaristas que entregam animais enquadrados em determinados padrões de qualidade.

Em algumas operações, esse adicional pode chegar a aproximadamente 10% sobre o preço da arroba, criando um incentivo financeiro para a utilização da genética.

O Charolês chegou a contar com uma iniciativa semelhante em Santa Catarina, mas o programa foi descontinuado após aproximadamente dez anos.

“A associação dos criadores de charolês segue em busca [de possibilidades de incentivo], mas é uma missão um pouco difícil hoje, no que tange às indústrias, na sua grande maioria, elas preferem trabalhar suas marcas de carne para diminuir custo”, diz Berta.

Atualmente, a raça pode acessar iniciativas como o programa de bonificação Protocolo 1953, da Friboi, marca da JBS, que contempla animais com pelo menos 50% de sangue de raças taurinas, desde que cumpram outros parâmetros técnicos.

Para o pecuarista, o crescimento da oferta de animais terminados pode ajudar a abrir novas negociações com frigoríficos. Mas ainda será necessário superar uma barreira de percepção do mercado.

“Há uns anos atrás, o pessoal utilizou o Charolês e achou que ele era um pouco tardio, achou que o bezerro nascia um pouco grande. Ele carregava algumas características que o mercado não aceitou. Nós selecionamos e mudamos essas características.”

O melhoramento genético também passou a incorporar atributos relacionados à qualidade da carne. No Charolês Figueira, a seleção utiliza ultrassonografia de carcaça para avaliar área de olho de lombo, espessura de gordura subcutânea e marmoreio.

A estratégia é combinar essas características com o ganho de peso, preservando o diferencial histórico da raça e aproximando os animais das exigências da indústria frigorífica.

Mais do que ampliar a criação de animais puros, Berta acredita que o futuro do Charolês no Brasil está em consolidar sua utilização nos cruzamentos industriais, ajudando a produzir bovinos mais pesados em menos tempo.

“O Nelore é a mãe do boi brasileiro, sem dúvida nenhuma. É uma raça espetacular, líder, adaptada, produtiva, precoce. Mas eu sustento que o pai do boi brasileiro e desse boi China tão valorizado é o Charolês, que atinge um peso maior numa idade menor”, afirma.

Resumo

  • Charolês ganha precocidade sem perder sua principal característica, o elevado ganho de peso
  • Criador aponta desempenho até 10% superior em confinamentos
  • Com demanda crescente por genética, vendas de sêmen Charolês podem dobrar em 2026