Belo Horizonte (MG)* - Enquanto os principais países produtores de algodão sofreram com safras mal sucedidas, os cotonicultores brasileiros são só sorrisos este ano.

A Conab estima que tenham sido produzidas 4,14 milhões de toneladas de algodão no ciclo 2025/2026, nível mais elevado da série histórica, mesmo com a retração de 3,2% na área cultivada, estimada em 2,02 milhões de hectares.

Esses números consolidam o Brasil no pódio dos maiores produtores de algodão no mundo.

A China segue como a maior produtora de algodão do mundo, com 7,29 milhões de toneladas, seguida pela Índia, com 5,19 milhões de toneladas.

Na sequência aparece Mato Grosso, que, pela segunda safra consecutiva, superou os Estados Unidos em produção. Principal polo cotonicultor do Brasil, o Estado encerrou a temporada 2025/26 com 2,9 milhões de toneladas, ante 2,79 milhões de toneladas produzidas pelos norte-americanos.

Com dificuldades na produção dos principais players, com exceção do Brasil, além das dificuldades logísticas e de obtenção de matérias-primas em decorrência do fechamento do Estreito de Ormuz durante boa parte deste ano, os preços tem escalado nos últimos meses e hoje estão na faixa dos 80 centavos de dólar por libra-peso.

“Acho que é um momento muito especial, em que a gente está vivendo uma combinação rara, de bons preços dos nossos produtos e também uma excepcional safra colhida nas nossas lavouras”, resumiu André Pessôa, sócio-diretor da consultoria Agroconsult, em um painel do 15º Congresso Brasileiro do Algodão, evento realizado nesta semana em Belo Horizonte (MG), que discutiu o presente e o futuro da produção de algodão do País.

Para o bem e para o mal, o ponto de atenção hoje é a demanda, lembrou Aurélio Pavinato, CEO da SLC Agrícola, que também participou do painel.

Isso porque, apesar de hoje haver no mercado uma oferta maior de produção por parte do Brasil, o consumo da commodity está estável há anos, especialmente em função da concorrência com o poliéster.

Pavinato lembrou que em apresentações no International Cotton Association (ICA), congresso global que reúne os principais produtores da pluma no mundo, viu simulações de longo prazo em que o algodão tinha problemas na competição com o poliéster, fibra sintética produzida a partir do petróleo e utilizada em massa pela indústria têxtil.

“O poliéster está ficando cada vez mais barato, cerca de 40 centavos por libra-peso. Tem fornecimento contínuo, entrega a curto prazo, qualidade padrão, isso comparando o polyester com o algodão”, disse.

“Resumindo, o poliéster teria uma tendência de destruir a demanda de algodão. E obviamente que tem usos das fibras do algodão que é difícil de mudar para o poliéster, mas volume disponível, preço baixo, qualidade uniforme, tudo coisa, entre aspas, boas para a indústria que vai fazer o investimento numa nova indústria.

Mas esta tem sido, de fato, uma safra de boas notícias para o algodão. Um dos fatores que favorecem a fibra natural é a alta do preço do poliéster, que tem forte relação com a indústria de combustíveis fósseis.

Com o fechamento do Estreito de Ormuz e as restrições à passagem de matérias-primas, os preços da fibra sintética subiram, melhorando a competitividade relativa do algodão.

“A guerra é positiva para a demanda do algodão. Gera também uma insegurança na indústria, algo como ‘eu vou ter polyester barato pra sempre, ou eu vou ter volatilidade, ou eu não vou ter disponibilidade do poliéster em função de todas as questões logísticas?”, avalia Pavinato.

Pavinato avaliou, no entanto, que essa circunstância de mercado não é suficiente para estimular uma demanda maior pela pluma. O executivo salientou que na Abrapa hoje há uma discussão para estimular, de alguma forma, o aumento da demanda.

“Há a questão de desenvolver tecnologias para fazer, quem sabe, um mix do algodão com o poliéster, um produto, uma roupa, um tecido diferente, que ofereça uma solução para o cliente. Vamos ter que ajudar a indústria a nos desenvolver”, ressaltou.

E quem vai ocupar o espaço adicional, perguntou Pavinato para a plateia. “O Brasil”, respondeu ele mesmo. “Assim como a gente dobrou a nossa área plantada em 20 anos, a gente pode dobrar novamente em 20 anos ou em 10 anos, porque hoje é muito fácil para o Brasil aumentar de uma forma significativa a área plantada tendo demanda.”

Presente promissor (apesar do El Niño)

Se o futuro impõe algumas dúvidas, o presente está positivo para os cotonicultores, a julgar pelas projeções que André Pessôa, o sócio-diretor da Agroconsult, trouxe para o público presente.

A casa projeta um aumento de 7% na área plantada de algodão na safra 2026/2027, o que representa um total de 2,2 milhões de hectares, com alta disseminada entre as diferentes regiões produtoras como Mato Grosso (8,5% a mais), Bahia (2,1% a mais) e Mapito (11,7% de alta).

O cenário, no entanto, não está livre de obstáculos. Segundo Pessoa, a disponibilidade de crédito pode limitar uma expansão ainda maior da área.

“Pode ser mais. Mas tem uma questão muito importante ainda presente que é a questão de crédito, disponibilidade de recursos para fazer a ampliação muito mais significativa do que isso”, afirmou.

Para além da área, o clima aparece como um dos principais pontos de atenção para a safra 2026/2027. Pessoa chamou atenção para a influência do El Niño sobre a janela de plantio da soja, que determina posteriormente o período de implantação do algodão.

A expectativa inicial é de condições favoráveis para o plantio da soja, mas a intensidade do fenômeno climático pode trazer riscos ao longo do ciclo. “Aparentemente vamos ter uma situação positiva em termos de chuvas para realizar o plantio, mas preocupa essa intensidade do El Niño”, afirmou.

No Nordeste, a preocupação é ainda maior, já que o fenômeno costuma estar associado a precipitações abaixo da média. Em Mato Grosso, por outro lado, a dúvida está relacionada à duração das chuvas depois do plantio do algodão.

“Provavelmente vamos conseguir plantar bem o algodão em janeiro, mas a gente não sabe se a chuva vai até o final de abril, início de maio”, disse Pessoa, o que pode afetar a produtividade caso o período chuvoso termine antes do necessário.

O consultor destacou ainda que os modelos meteorológicos indicam que os efeitos do fenômeno podem persistir até abril, maio e junho. “É quando a gente ainda precisaria de alguma chuvinha.”

Apesar dos riscos, Pessoa vê uma espécie de “proteção adicional” em algumas regiões produtoras, especialmente na Bahia, com a expansão da irrigação.

Segundo ele, o Estado já conta com cerca de 500 mil hectares irrigados, dos quais quase 200 mil hectares são de algodão. “Aumenta a capacidade de resiliência em relação a problemas climáticos. Na próxima safra a gente já deve ter meio a meio, metade da área irrigada e metade da área de sequeiro”, disse Pessoa.

O custo de produção do algodão de segunda safra no Médio-Norte de Mato Grosso também aparece como um ponto de atenção para o setor.

Segundo os dados apresentados por Pessôa, o custo total por hectare passou de R$ 13,1 mil na safra 2024/25 para R$ 14,3 mil em 2025/26, alta de cerca de 9,4%. Para 2026/27, a projeção é de novo avanço, para R$ 14,6 mil por hectare.

Entre os principais componentes, os fertilizantes representam uma parcela relevante da estrutura de custos, passando de R$ 2,69 mil por hectare em 2024/25 para R$ 3,44 mil na estimativa para 2026/27.

Na composição do gasto com nutrientes, os fertilizantes aparecem como o maior componente, com 51%, seguidos pelos nitrogenados, com 29%, e potássicos, com 20%.

“Era pra gente ter um custo de produção em queda e ele foi neutralizado pela subida principalmente do custo de fertilizantes. O [preço mais alto do] fosfato é o mais pesado para essa safra”, ressaltou Pessôa.

Ainda assim, os preços do algodão seguraram a alta dos custos de produção. “A gente está em uma posição melhor apesar do custo de produção continuar elevado em termos absolutos, mas em termos relativos a gente está em uma posição melhor do que a gente estava na safra passada”, afirmou.

O preço médio atual do algodão na Bolsa de Chicago está em 86,8 centavos por libra-peso, e nos próximos meses, a Agroconsult estima que, gire entre 82,6 centavos por libra-peso em outubro deste ano e 84,6 centavos em julho do ano que vem, sempre na faixa dos 80 centavos por libra-peso.

“A teve uma inversão significativa nos preços. Se esperava, um ano atrás, conviver com preços na faixa dos 70 centavos por libra-peso, e hoje a gente está com preços sinalizados próximos dos 85 centavos por libra-peso.”

Na avaliação da Agroconsult, os cotonicultores devem manter um nível de rentabilidade positivo nas próximas temporadas.

A expectativa é de que, em Mato Grosso, o algodão de segunda safra tenha uma rentabilidade de 39 arrobas de pluma por hectare na safra 2026/2027, levemente inferior à média de 43 arrobas de pluma por hectare registrada na safra 2025/2026.

“Nas últimas duas safras e provavelmente nessa safra e também na próxima, a gente vai manter um bom nível de rentabilidade. Não é o melhor que já tivemos, mas é um bom nível de rentabilidade”, disse Pessôa.

E é justamente essa combinação entre produtividade, competitividade e capacidade de expansão que sustenta a perspectiva de avanço do algodão brasileiro no mercado internacional.

Para Pessôa, o País conseguiu construir uma posição diferente da observada há uma década, com maior presença nos principais mercados consumidores e oferta disponível durante praticamente todo o ano.

“A presença constante de produto brasileiro disponível para o mercado internacional é uma característica muito relevante na comercialização que a gente passou a ter na medida em que a gente começou a ter um volume mais significativo de produção e também a melhoria das nossas capacidades de logística”, afirmou.

A SLC Agrícola ainda não divulgou suas estimativas para a safra 2026/2027, mas, na avaliação de Aurélio Pavinato, os preços do algodão devem permanecer na casa dos 80 centavos de dólar por libra-peso na próxima temporada.

Segundo o CEO da companhia da família Logemann, a combinação entre oferta e demanda, a redução dos estoques globais e o cenário geopolítico deve ajudar a sustentar esse patamar.

“A expectativa nossa é que esses preços se mantenham nesse patamar para a próxima safra por causa da guerra e por causa da oferta e demanda”, disse Pavinato.

O CEO da SLC disse ainda que, como a oferta está sendo menor que a demanda, há uma redução de estoques de passagem a nível mundial, trazendo mudança no nível de preços. “Além da questão da guerra e do preço do poliéster mais caro.”

A SLC por ora está iniciando o processo de plantio de soja nas diferentes regiões onde tem atuação – e que sempre reflete na produção de algodão mais adiante. “Até agora [a semeadura] está indo bem”, disse Pavinato, ressaltando que as chuvas vieram positivas em parte das propriedades. “Em algumas fazendas choveu bem o suficiente para ter umidade no solo para plantar.”

*O repórter viaja a convite da Abrapa

Resumo

  • Brasil teve forte produção de algodão neste ano, enquanto outros players tiveram problemas de safra e custos mais altos
  • Com preços mais altos, atividade dos cotonicultores nacionais está favorável ao longo deste ano
  • Para o futuro, preocupação está na concorrência com as fibras sintéticas, além do El Niño