A trajetória das contas públicas será o principal risco para a economia brasileira e a rentabilidade do agronegócio em 2027.
A avaliação consta do relatório Perspectivas para o Agronegócio Brasileiro 2027, divulgado nesta semana pelo Rabobank. "A eleição passa, mas as incertezas fiscais persistem", resume o banco.
O banco holandês aponta que as despesas obrigatórias e as promessas eleitorais podem restringir a capacidade de ajuste das contas públicas.
O projeto de Orçamento de 2027 do governo prevê superávit primário de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), mas o resultado efetivo seria de apenas 0,1%, após o desconto de precatórios e outros abatimentos.
Além disso, o Planalto estima em R$ 53,6 bilhões o impacto de medidas anunciadas durante a campanha, parte das quais ainda precisa ser acomodada no Orçamento.
Mesmo com o cumprimento das regras fiscais atuais, o Rabobank considera o ajuste insuficiente para estabilizar a dívida bruta, que deverá aumentar de 83,6% do PIB, em 2026, para 87,2% no próximo ano.
"A trajetória fiscal continuará como a mais importante fonte de incerteza e de risco para a formação de preços dos ativos brasileiros", destaca o relatório.
Para o agronegócio, os efeitos passam principalmente pelo custo do financiamento e pela taxa de câmbio.
Uma deterioração da percepção de risco fiscal pode pressionar o real e limitar a redução dos juros, encarecendo o crédito rural e o serviço das dívidas dos produtores.
O câmbio também influencia a formação dos preços dos grãos exportados e dos insumos importados, especialmente fertilizantes.
Assim, uma eventual desvalorização do real pode favorecer as receitas em moeda nacional, mas também elevar os custos de produção.
O estudo prevê crescimento econômico de 2,2% em 2027, inflação de 4,1%, Selic de 12% e dólar a R$ 5,30 no encerramento do ano.
A perspectiva de juros elevados nos Estados Unidos também limita o espaço para uma redução mais intensa do custo do dinheiro no Brasil.
O Rabobank projeta que a taxa básica americana permaneça entre 4% e 4,25% durante todo o próximo ano.
Segundo o estudo, a situação financeira dos produtores já está pressionada pelos custos do serviço da dívida e pelas taxas de juros elevadas, com a inadimplência atingindo níveis recordes.
Nesse cenário, a recuperação das margens agrícolas esperada para 2027 dependerá também da capacidade de financiamento das propriedades.
Alívio para insumos
O mercado de fertilizantes deverá recuperar parte das perdas de 2026, com entregas projetadas em 46,6 milhões de toneladas em 2027, ante 44,4 milhões neste ano, queda estimada de 9,6% sobre 2025.
A recuperação, entretanto, dependerá da capacidade financeira dos produtores, pressionados pelos juros, endividamento e encarecimento dos fertilizantes provocado pelos conflitos no Oriente Médio.
"A pressão financeira constitui, portanto, o principal desafio para os produtores rurais no Brasil", afirma o RaboResearch.
O mercado de defensivos deverá movimentar US$ 20,9 bilhões, enquanto os biológicos poderão superar R$ 7 bilhões. As vendas de máquinas agrícolas continuarão limitadas pela restrição financeira no campo.
Carnes sob pressão
A inflação e os juros influenciarão o poder de compra dos consumidores, enquanto o câmbio continuará determinante para as receitas de exportação e os custos de insumos importados.
O Rabobank prevê menor disponibilidade de carne bovina, com valorização dos animais e pressão sobre os custos de reposição. O movimento deverá favorecer a substituição por carnes suína e de frango.
"A menor disponibilidade de carne bovina deve sustentar preços e favorecer a substituição por carnes suína e de frango", aponta o estudo.
Na avicultura, a disponibilidade doméstica deverá crescer 2%, para 10,8 milhões de toneladas. Milho e farelo de soja continuarão decisivos para os custos de alimentação, enquanto a expansão do etanol de milho tende a reduzir os estoques do cereal.
Dólar para soja
Na soja, o comportamento do real poderá ser tão importante quanto as cotações internacionais.
A valorização da moeda brasileira em 2026 limitou o repasse da alta dos preços em Chicago aos produtores nacionais.
Para 2027, o Rabobank projeta exportações próximas de 113 milhões de toneladas e processamento doméstico ao redor de 64 milhões de toneladas.
"A direção do câmbio deverá continuar tão relevante quanto o comportamento da CBOT", afirma o relatório.
A retomada das vendas americanas à China e a disponibilidade global confortável deverão limitar as altas internacionais, enquanto custos financeiros elevados continuarão pressionando as margens brasileiras.
Etanol sustenta preço do milho
O consumo brasileiro de milho para produção de etanol deverá crescer aproximadamente 18% na safra 2026/27, alcançando 32 milhões de toneladas. As exportações poderão atingir 38 milhões de toneladas, ante 36 milhões em 2026.
O avanço da demanda industrial e da alimentação animal deverá reduzir os estoques, oferecendo sustentação aos preços mesmo diante de uma produção elevada.
"O comportamento do câmbio continuará sendo determinante para a transmissão dos preços internacionais ao mercado doméstico", destaca o banco.
A rentabilidade também dependerá dos custos de fertilizantes, das condições de financiamento e dos possíveis efeitos do El Niño sobre a segunda safra.
Outras cadeias
No setor sucroenergético, a política fiscal poderá influenciar a continuidade das medidas governamentais de contenção dos preços dos combustíveis.
O Rabobank projeta déficit global de açúcar de 2,2 milhões de toneladas em 2026/27.
"O caminho dos preços da gasolina e do etanol em 2027 é muito nebuloso", afirma o relatório.
No algodão, juros elevados e endividamento deverão limitar a expansão da área, apesar da competitividade brasileira no mercado internacional.
O café também enfrentará volatilidade cambial e pressão sobre preços, diante da recuperação da oferta global. A produção brasileira de 2026/27 é estimada em 73,3 milhões de sacas, com exportações projetadas entre 42 milhões e 45 milhões de sacas no ciclo.
Para essas cadeias, a combinação entre câmbio, custos financeiros e demanda internacional continuará condicionando as margens e as decisões de investimento em 2027.
Resumo
- Rabobank prevê alta da dívida pública para 87,2% do PIB em 2027, o que impacto juros e o agronegócio
- Banco holandês projeta Selic a 12% e dólar a R$ 5,30, em cenário de crédito rural restrito
- Demanda por etanol de milho cresce, enquanto soja e pecuária enfrentam desafios de rentabilidade