O El Niño está intenso e a previsão indica que o fenômeno deve se tornar ainda mais presente durante a primavera e o verão no Hemisfério Sul. A probabilidade de atingir a categoria “muito forte” no último trimestre do ano chega a 98%.

Há ainda 75% de chance de que a anomalia de temperatura na porção equatorial do Pacífico ultrapasse 2,5°C, o que colocaria este episódio entre os mais impactantes registrados nos últimos 150 anos.

É importante, porém, separar a intensidade do fenômeno no Pacífico de sua influência no território brasileiro. Quanto mais forte o El Niño, maior a probabilidade de que seus efeitos característicos se manifestem. Mas estes reflexos não ocorrem de forma homogênea pelas regiões do País.

Historicamente, o fenômeno está associado a muita chuva no Sul, maior risco de seca no Nordeste e em parte do Norte e temperaturas elevadas no Sudeste e Centro-Oeste.

No Sudeste e Centro-Oeste, este contexto não se traduz necessariamente em pouca chuva. A precipitação pode até superar a média histórica, mas a distribuição é um ponto de atenção: em alguns momentos, podem ocorrer falhas na chuva, com elevação das temperaturas.

Para o agronegócio, essa dinâmica é tão importante quanto o volume acumulado.

Outro aspecto a ser considerado é o início da estação chuvosa. Comumente, o El Niño tende a antecipar as chuvas no Sudeste e Centro-Oeste, e esse comportamento já é observado nesta estação.

Porém, a possibilidade de encerramento antecipado da estação chuvosa não é uma previsão para a próxima safra. Trata-se de uma característica observada no comportamento histórico do fenômeno e que merece monitoramento.

Para a primeira safra, o cenário é favorável. Há expectativa de chuva para culturas como soja e algodão no Sudeste e Centro-Oeste, inclusive com possibilidade de volumes acima da média.

O ponto de atenção está mais adiante, no milho segunda safra. Se a estação chuvosa terminar mais cedo, podemos ter um problema para o milho safrinha.

No Sul do Brasil, a expectativa é de chuva acima da média, com volumes expressivos. O Rio Grande do Sul merece atenção, especialmente pela memória dos eventos extremos registrados nos últimos anos.

Os modelos, no entanto, indicam que as maiores chuvas, desta vez, devem se concentrar em Santa Catarina e Paraná. Os dois estados já registram volumes elevados de precipitação e, até situações de inundação, e a expectativa é de continuidade das chuvas.

Essa chuva mais concentrada em Santa Catarina e Paraná pode ainda chegar a São Paulo e Mato Grosso do Sul. Nas áreas mais ao sul do Sudeste e do Centro-Oeste existe possibilidade de excesso de chuva, o que representa um risco ao agronegócio.

No sentido oposto, o maior nível de atenção fica no Matopiba – formado por partes dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – e centro-leste do Pará.

No norte de Minas Gerais, e de Goiás, e no nordeste de Mato Grosso, especialmente na região do Vale do Araguaia, a expectativa não é de ausência de chuva, mas de maior irregularidade em comparação com outras áreas do Sudeste e Centro-Oeste.

O calor será outro elemento que merece atenção e monitoramento durante a primavera e o verão. A partir de novembro, as temperaturas tendem a ficar acima da média na maior parte do país, inclusive em regiões que também terão chuva, como no Sudeste, no Centro-Oeste, no Paraná e em Santa Catarina.

No Rio Grande do Sul, a maior frequência de precipitações pode limitar a elevação das temperaturas. O principal destaque para o calor, porém, está no Norte e Nordeste, especialmente em novembro e dezembro, quando as temperaturas tendem a atingir patamares elevados.

Para o agronegócio, todo esse contexto sugere atenção para além do volume de chuva. É fundamental acompanhar sua distribuição ao longo de todo o período, conforme a especificidade de cada região em todo o território nacional. Monitorar essa dinâmica é crucial para avaliar os riscos e as oportunidades de cada etapa das próximas safras.

Desirée Brandt é sócia-executiva e meteorologista na Nottus.