Os democratas vão assumir em janeiro o controle da Câmara e do Senado dos Estados Unidos. Das sete cadeiras republicanas que o partido virou no Senado, quatro estão em estados com peso no agro: Iowa, Ohio, Kansas e Texas.
O voto rural se moveu junto. Em mais de 1.500 condados rurais, os candidatos republicanos ficaram, no conjunto, 8 pontos abaixo da votação de Trump em 2024, e a aprovação do presidente nessas áreas caiu de 60%, no início do mandato, para 45% em outubro. Tarifas e combustível caro pesaram no bolso do produtor.
Para o agro brasileiro, a pergunta não é só quem ganhou, mas o que cada eleito vai cobrar em Washington. Os novos senadores do campo não querem a mesma coisa, e a China, ao escolher o que compra, aprofunda essa divisão.
Onde as cadeiras mudam as metas para o campo
Cada vitória e nova cadeira no senado carrega uma pauta agricola da sua respectiva região e que impacta de forma diferente o Brasil.
Em Iowa, por exemplo, o democrata Josh Turek ficou com a cadeira, e o partido levou também o governo estadual e três das quatro vagas do estado na Câmara. O estado vive de soja e milho eTurek prometeu votar, já no primeiro dia de mandato, pelo fim das tarifas de Trump.
Isso vira a conversa para o Brasil, uma vez que um acordo de soja entre EUA e China impactaria fortemente as vendas brasileiras do grão.
Em Ohio, Sherrod Brown derrotou o senador republicano Jon Husted. Trata-se de região onde, também, a soja é a principal lavoura.
Brown levantou a bandadeira de cobrar compensação aos produtores e critica o socorro de US$ 20 bilhões do governo Trump à Argentina, que vendeu soja à China no lugar dos americanos.
No Kansas, Adam Hamilton tirou a cadeira do republicano Roger Marshall. O estado é o maior produtor de sorgo dos EUA, com 5,8 milhões de toneladas em 2025, e abriga grandes frigoríficos.
Hamilton foi um dos candidadatos que defendeu acordos comerciais “duradouros e vinculantes”, diferentemente do seu oponente, que votou contra parâmetros e rotulagens a respeito da origem da carne.
No Texas, uma das grandes viradas foi a de James Talarico, que derrotou Ken Paxton. O estado também é expressivo produtor de sorgo (2,64 milhões de toneladas), algodão e gado.
Carne e algodão são duas commodities que tocam o Brasil diretamente. O algodão americano disputa mercado direto com o brasileiro e a carne do Brasil está na mira dos pecuaristas americanos.
As propostas de Talarico defendem revogar as tarifas que encareceram combustível, fertilizante e ração e que provocaram retaliação contra as exportações americanas. Também cita as importações de carne estrangeira entre as decisões políticas que tornam a atividade “imprevisível”.
Promete, ainda, cobrar a aprovação do Farm Bill, a atualização do acordo comercial com México e Canadá (USMCA), o financiamento integral do USDA e um visto de trabalho agrícola (H-2A) mais simples.
Para o Brasil, a combinação é ambígua: menos tarifas ajudariam o comércio em geral, mas um senador democrata do maior estado pecuarista do país chega a Washington disposto a ouvir quem pede barreiras à carne importada.
No Cinturão do Milho, no Meio-Oeste (Iowa, Illinois, Indiana, Ohio), o racha é com a guerra comercial. A China comprava cerca de metade da soja exportada pelos EUA e, com as tarifas, passou a comprar do Brasil e da Argentina.
É aí que a conta vira para o Brasil. Em novembro de 2025, bastou a China sinalizar compras nos EUA para os prêmios da soja brasileira caírem. Nas regiões de sorgo, a dependência da China é ainda maior: ela levou mais de 83% das exportações americanas do grão entre 2020 e 2024.
O racha não é só entre o campo e Trump, mas se reflete também dentro do campo. O sojicultor quer a China de volta. O pecuarista quer proteção contra a carne importada.
O novo Congresso tende a reforçar as duas pautas, e ambas pesam contra o Brasil. Na carne, a mudança já tem placar. Em agosto, a Comissão de Agricultura do Senado aprovou, por 17 a 6, incluir no Farm Bill a rotulagem obrigatória de origem da carne, com os votos de todos os democratas da comissão e de seis republicanos.
Na soja, o alcance do Congresso é menor. Os novos senadores pedem o fim das tarifas e apoio aos produtores, mas um veto de Trump só cai com dois terços de cada Casa, e a sobretaxa que trava a soja americana é decidida em Pequim.
E a China?
Durante a visita de Xi Jinping a Washington, em 24 e 25 de setembro, os dois governos estenderam a trégua até 10 de janeiro e listaram cortes de tarifa para milho, carnes, algodão, sorgo e óleo de soja bruto. A soja em grão ficou de fora.
Na prática, a lista atende o sorgo das Grandes Planícies, o milho e a carne, mas deixa na espera a soja de Iowa e Ohio, dois estados que trocaram de lado na eleição. A soja americana segue pagando 10% extras sobre a alíquota-base de 3%, nível que, segundo traders, as esmagadoras privadas chinesas não conseguem absorver.
Analistas leem a exclusão como uma ficha guardada para as próximas negociações. Por ora, só as estatais compram soja americana. Todos os 8,38 milhões de toneladas importados até maio entraram por empresas de Pequim, sede da Sinograin e da Cofco.
Para o Brasil, a divisão rende volume. De janeiro a setembro, as chegadas de soja americana à China caíram 34%, para 11,06 milhões de toneladas, e as do Brasil subiram 3,4%, para 65,84 milhões.
O preço mostra o impasse. Em Chicago, a soja chegou a US$ 13,28 por bushel em 21 de setembro, mas o acordo veio sem novas compras, a safra americana é recorde e o contrato de novembro fechou o dia da eleição a US$ 12,03.
Em Paranaguá, o prêmio para dezembro era de US$ 1,70 por bushel sobre Chicago; para fevereiro, com a safra nova, US$ 0,50.
Uma volta americana que teria limite
Sob o acordo da “Fase Um”, acordo comercial que EUA e China assinaram em janeiro de 2020 para dar uma trégua na primeira guerra comercial de Trump, iniciada em 2018, as importações chinesas de soja americana cresceram 25% em 2021, para 32,3 milhões de toneladas, enquanto as do Brasil caíram 9,5%, em parte porque a chuva atrasou a colheita brasileira.
Gráfico 1: Participação de EUA e Brasil nas importações de soja da China, 2017–2026 (%)
Fonte: elaboração própria com dados da Alfândega da China (GACC)
Desta vez, a conta é mais apertada. Mesmo cumprida, a meta anunciada por Washington, de 25 milhões de toneladas por ano, fica 14% abaixo da média embarcada à China entre 2020 e 2024. E Pequim projeta importar 95,5 milhões de toneladas na safra 2026/27, quase 12% abaixo da anterior.
Cada tonelada devolvida aos EUA por acordo político sairá de um mercado menor e, em boa parte, do Brasil.
O racha do campo americano chega ao Brasil por dois caminhos: pela soja, se a pressão dos novos senadores ajudar a destravar um acordo com Pequim, e pela carne, onde a resistência à importação já une democratas e republicanos.
Guilherme Campbell é pesquisador e coordenador de projetos no Instituto Akorde.