Belo Horizonte (MG)* - O setor algodoeiro chega à 15ª edição do Congresso Brasileiro do Algodão, que começa nesta terça-feira, dia 22 de setembro, e reúne ao longo desta semana, em Belo Horizonte (MG), os principais representantes da cotonicultura nacional, em um momento de bons resultados no presente, mas de desafios que se desenham para o futuro.
De um lado, a área plantada com algodão recuou na safra 2025/2026, movimento que, em tese, poderia limitar o desempenho da cultura. Mas o avanço da produtividade compensou a redução do plantio e pode levar o setor a uma produção recorde no ciclo.
A Conab estima que tenham sido produzidas 4,14 milhões de toneladas de algodão no ciclo 2025/2026, nível mais elevado da série histórica, mesmo com a retração de 3,2% na área cultivada, estimada em 2,02 milhões de hectares.
Por outro lado, apesar dos avanços, a cotonicultura nacional chega ao Congresso Brasileiro do Algodão com uma preocupação que vai além da lavoura: transformar a competitividade conquistada nas últimas décadas em uma política de Estado, para que a pluma continue apresentando expansão nos próximos ciclos.
“Competitividade significa produzir com eficiência, qualidade e sustentabilidade econômica”, afirmou Gustavo Piccoli, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), na abertura do evento.
“Nós, produtores, precisamos fazer a nossa parte. Mas nem tudo depende das decisões que tomamos dentro das nossas propriedades. Para isso é fundamental termos segurança jurídica, estabilidade regulatória que dê condições para investir e planejar. Isso também passa por uma infraestrutura e uma logística compatíveis com a dimensão da nossa produção. E por uma política agrícola moderna, com instrumentos de crédito, seguro rural e gestão de riscos mais adequados à realidade”.
Esses temas formam a mensagem central da “Carta Aberta aos Presidenciáveis – A visão do setor da cotonicultura brasileira para os próximos 4 anos”, documento apresentado pela Abrapa, organizadora do Congresso, com uma agenda para o período de 2027 a 2030 a ser entregue ao vencedor das eleições presidenciais.
A entidade defende que o algodão seja reconhecido como um ativo estratégico para o desenvolvimento do País, diante de uma cadeia que, segundo o documento, conecta produção agrícola, indústria, comércio exterior, pesquisa, tecnologia e desenvolvimento regional.
“Investir na competitividade do algodão brasileiro significa fortalecer a economia nacional, ampliar a agregação de valor industrial, estimular a inovação tecnológica, promover o desenvolvimento regional e consolidar o Brasil como referência mundial na produção sustentável de fibras naturais”, diz a carta.
A preocupação aparece justamente em um momento em que o Brasil ampliou sua relevância no mercado global e se consolidou entre os maiores produtores e exportadores de algodão, apoiado em ganhos de produtividade, mecanização, melhoramento genético, agricultura de precisão e rastreabilidade.
O desafio, agora, é sustentar esse avanço em um ambiente internacional mais complexo, marcado por mudanças nas cadeias globais de suprimentos, novas exigências ambientais, barreiras comerciais e maior competição por investimentos.
“A manutenção dessa liderança dependerá das decisões estratégicas que vierem a ser adotadas pelo próximo Governo Federal”, defende o texto.
Entre as prioridades apresentadas aos presidenciáveis estão a redução da dependência de fertilizantes importados, a regulamentação do marco dos bioinsumos, segurança jurídica e estabilidade regulatória, adequação da reforma tributária, abertura de novos mercados, investimentos em infraestrutura e logística e modernização dos instrumentos de política agrícola.
A entidade também pede uma estrutura de financiamento mais diversificada, diante do aumento do endividamento rural, da limitação dos recursos para seguro agrícola e da maior frequência de eventos climáticos extremos.
“A expansão sustentável da cotonicultura dependerá da modernização dos instrumentos de política agrícola e do fortalecimento das fontes de financiamento do setor.”
A agenda inclui ainda o pedido de a valorização das fibras naturais e o fortalecimento da indústria têxtil brasileira.
“Recomenda-se a implementação de políticas públicas voltadas ao estímulo da inovação, ao fortalecimento da indústria têxtil nacional, ao incentivo às compras públicas sustentáveis, ao desenvolvimento de materiais de base biológica e à promoção de campanhas de conscientização sobre os benefícios das fibras naturais.”
Da produção à roupa
O congresso deste ano tem como tema “Algodão brasileiro: fibra natural. Uma jornada com propósito, qualidade e transparência”.
Nesse contexto, a Abrapa resolveu reunir entidades representativas de diferentes fibras naturais em torno do Movimento Fim da Linha, iniciativa que visa ampliar o debate sobre microplásticos, fibras sintéticas e as escolhas feitas pela indústria e pelos consumidores.
O movimento parte de uma questão que começa no guarda-roupa, mas termina em uma discussão mais ampla sobre saúde, meio ambiente, ciência e política industrial: o que acontece com as fibras das roupas ao longo de seu ciclo de vida?
De acordo com a Abrapa, sintéticos produzidos a partir de polímeros como poliéster, nylon e acrílico podem liberar microfibras plásticas durante o uso e, principalmente, nas lavagens.
A proposta do movimento, porém, não é defender a eliminação das fibras sintéticas. A ideia é ampliar a informação disponível, estimular pesquisa e inovação e criar condições para que as fibras naturais ganhem espaço sempre que forem tecnicamente adequadas.
“A valorização das fibras naturais precisa ser tratada como uma agenda de longo prazo. Queremos ampliar o diálogo com governos, indústria e a comunidade científica para construir políticas públicas que estimulem pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico, criando novas aplicações e condições para ampliar a presença das fibras naturais na indústria têxtil brasileira”, afirmou o diretor executivo da Abrapa, Marcio Portocarrero.
O lançamento ocorrerá durante o painel “Como reconectar o brasileiro à fibra natural? Um desafio de saúde pública, meio ambiente e estratégia nacional”, um título que resume parte da mudança de foco pretendida pelo setor.
Ao longo do Congresso, um estande dedicado à iniciativa terá, entre outras atrações, um quiz sobre fibras e um contador de micropartículas baseado em estudo da WWF.
Para Gustavo Piccoli, a discussão representa uma oportunidade de levar a cadeia do algodão para uma conversa mais ampla sobre o futuro das fibras utilizadas pela indústria.
“O Brasil construiu uma cadeia de algodão qualificada, tecnológica e capaz de fornecer uma fibra natural em grande escala, com certificação socioambiental. O CBA é o espaço para discutirmos não apenas como produzir mais e melhor, mas também como ampliar o uso e a valorização dessa fibra. Para nós, falar sobre fibra natural também é falar sobre as escolhas que fazemos para o futuro”, afirmou.
A iniciativa reúne, além da Abrapa, entidades ligadas ao cânhamo e à lã, como a Ayraa Eco Friendly, a Associação Brasileira de Criadores de Corriedale (ABCC), a Associação Brasileira de Criadores de Merino Australiano (ABCMA), a Associação Brasileira de Criadores de Ideal (ABCI) e a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos Naturalmente Coloridos (ABCONC).
O CBA é realizado a cada dois anos e, na edição anterior, em Fortaleza, contou com mais de 4,2 mil participantes de 20 países, 62 patrocinadores, 19 hubs temáticos e 288 trabalhos científicos.
Para 2026, os organizadores esperam ampliar a participação, consolidando o CBA como ambiente de geração de conhecimento, relacionamento e negócios.
O congresso é o principal fórum técnico e científico da cotonicultura nacional e reúne 12 horas de palestras científicas distribuídas em duas plenárias, além de hubs técnicos, workshops e minicursos que atravessam temas como fisiologia do algodoeiro, manejo de pragas e doenças, o bicudo-do-algodoeiro, agricultura digital, qualidade da fibra e do caroço e desafios climáticos.
*O repórter viajou a convite da Abrapa
Resumo
- 15º Congresso Brasileiro do Algodão inicia nesta terça-feira em Belo Horizonte (MG)
- Cotonicultura nacional vive momento de safra recorde no campo e desafios para manter a liderança global
- Setor discutirá os ganhos de produtividade da cotonicultura e o futuro das fibras naturais