A decisão dos produtores do Centro-Oeste de plantar menos algodão nesta safra não deve significar uma redução da produção brasileira, pelo contrário.
Apesar da retração de 6,3% na área cultivada, para cerca de 2,07 milhões de hectares, o clima favorável e o manejo das lavouras elevaram a produtividade em importantes regiões produtoras e podem levar a safra 2025/2026 a um novo patamar.
É o que aponta mais um levantamento da Etapa Algodão do Rally da Safra, realizado pela consultoria Agroconsult, que combinou visitas técnicas a produtores, grupos e cooperativas de Mato Grosso e Bahia com mapeamento por satélite.
A Agroconsult estima, por ora, uma produção de 4,41 milhões de toneladas de algodão em pluma, com possibilidade de acréscimo de 90 mil a 100 mil toneladas, dependendo do rendimento obtido no beneficiamento. Antes da safra, a consultoria estimava uma produção de 4,2 milhões de toneladas.
Até 3 de setembro, 35% da pluma havia sido beneficiada, o que ainda deixa espaço para ajustes nos números finais.
“Estamos diante de uma safra em que a redução da área não significa uma queda na produção. Observamos em campo um ganho importante de produtividade, resultado da combinação entre clima, tecnologia e manejo”, afirmou Heloisa Melo, sócia-diretora da Agroconsult e coordenadora da Etapa Algodão do Rally da Safra.
“Ao mesmo tempo, ainda temos dois terços da safra a ser beneficiada, o que exige cautela na consolidação dos números de produção e rendimento de pluma.”
A redução da área foi concentrada principalmente em Mato Grosso, maior produtor nacional de algodão, onde o cultivo recuou 9,4% na safra, igual a aproximadamente 1,42 milhão de hectares.
De acordo com a Agroconsult, a redução esteve ligada às condições econômicas da cultura, com preços menos atrativos para o algodão e maior liquidez do milho como alternativa para a segunda safra.
A retração ocorreu em diferentes regiões mato-grossenses, com maior intensidade no Vale do Araguaia e no Médio-Norte do Estado.
Mesmo assim, a produtividade estimada pela Agroconsult alcança 337 arrobas de algodão em caroço por hectare, acima da temporada anterior e um novo recorde estadual segundo o levantamento.
A produção de pluma no Estado é estimada em aproximadamente 3 milhões de toneladas, com o desempenho das lavouras favorecido pelas condições climáticas, ressalta a consultoria.
Ainda que o plantio tenha começado mais tarde, houve aceleração na segunda quinzena de janeiro. Na sequência, as boas chuvas registradas em abril, maio e junho contribuíram para o desenvolvimento das plantas em grande parte do estado.
Na Bahia, por outro lado, a área plantada praticamente se manteve estável, com 425,7 mil hectares cultivados na safra 2025/2026, alta de 0,2% sobre a temporada anterior.
O número, porém, esconde uma mudança no perfil da produção baiana. A área de algodão sequeiro caiu 7%, enquanto a área irrigada avançou 12%. Com isso, a participação de terras irrigadas passou de 39% para 44% do total cultivado no Estado.
A produtividade de algodão em caroço é estimada em 368 arrobas por hectare, o que também representa um recorde estadual segundo a Agroconsult.
O clima teve papel importante no resultado. As lavouras de sequeiro, plantadas até dezembro, apresentaram desempenho superior ao das áreas irrigadas, que foram semeadas entre janeiro e fevereiro.
De forma geral, segundo o levantamento, as lavouras baianas apresentaram resultados positivos tanto em produtividade quanto em qualidade, superando as expectativas iniciais.
A combinação de área praticamente estável e maior produtividade deve levar a produção de algodão em pluma da Bahia a aproximadamente 982 mil toneladas, crescimento de 23,2% em relação à temporada anterior.
Apesar dos números favoráveis, o Rally da Safra ainda identifica pontos de atenção para a consolidação da safra. Com apenas pouco mais de um terço da pluma beneficiada até o início de setembro, os dados de rendimento ainda estão em formação.
O prolongamento das chuvas também exige cautela em algumas regiões. Em áreas pontuais, o excesso de precipitações no fim do ciclo afetou a qualidade visual da fibra, com redução de brilho e brancura. A umidade elevada também prolongou o ponto de dessecação e aumentou a quantidade de impurezas observada no beneficiamento.
Outro desafio identificado pelas equipes de campo está relacionado ao controle de plantas daninhas. O caruru ganhou espaço entre as preocupações tecnológicas da safra, especialmente no oeste de Mato Grosso.
A ocorrência também começa a aparecer pontualmente em outras regiões produtoras, como a Bahia, aumentando a atenção para as próximas temporadas. Para a safra 2026/2027, a expectativa é de maior adoção de tecnologias e variedades que ampliem as possibilidades de controle de plantas daninhas resistentes, além de maior atenção ao manejo da sucessão com a soja.
A Agroconsult destacou ainda que o avanço da produtividade ocorre em um momento de maior presença do Brasil no mercado internacional de algodão.
Na safra 2025/2026, Mato Grosso aparece, segundo a Agroconsult, como o terceiro maior produtor mundial, à frente dos Estados Unidos.
A Bahia, por sua vez, voltou a superar a Austrália em produção, algo que havia ocorrido em 2019/2020, quando o país enfrentou uma forte quebra de safra.
“O avanço da oferta brasileira ocorre em um mercado mundial que enfrenta desafios significativos na oferta de outros países. Para o produtor, ganhos de produtividade e qualidade permanecem fundamentais para ampliar a competitividade internacional e capturar oportunidades em um mercado bastante disputado”, disse Heloísa Melo.
Resumo
- Área de algodão recua 6,3%, mas produtividade maior pode levar safra 2025/26 a recorde de 4,41 milhões de toneladas
- Em Mato Grosso, área cai 9,4%, mas produtividade chega a 337 arrobas por hectare, novo recorde estadual
- Na Bahia, produção de pluma deve crescer 23,2%, para 982 mil toneladas, com avanço da irrigação e da produtividade