Quando Thiago Parente fundou a iRancho, em 2016, a inteligência artificial ainda estava longe de fazer parte da rotina da pecuária brasileira.
Dez anos depois, a sigla IA está na boca do povo – e também no centro da nova fase da agtech.
A empresa busca R$ 10 milhões para ampliar o time de tecnologia, que hoje conta com 28 engenheiros de um total de 62 colaboradores, e desenvolver soluções que vão além do software de gestão pecuária que marcou sua primeira década.
A ideia é transformar a iRancho em uma agtech que utiliza inteligência artificial em diferentes ferramentas digitais, acompanhando o avanço de tecnologias generativas como as desenvolvidas pela OpenAI, dona do ChatGPT, e pela Anthropic, criadora do Claude.
"Eu até brinco: 'A gente tem que matar o iRancho todo dia, porque senão alguém vai vir matar a gente'", diz Parente, fundador e CEO da iRancho, em entrevista ao AgFeed.
A busca pelo novo aporte acontece cerca de três meses depois de a empresa voltar ao breakeven. A estratégia, segundo o fundador, é pautada por sempre chegar ao equilíbrio financeiro antes de recorrer novamente ao mercado.
O primeiro breakeven da iRancho foi em dezembro de 2020, dois anos após lançar seu primeiro produto no mercado.
Já o primeiro investimento veio seis meses depois, em maio de 2021, com o aporte de R$ 1,5 milhão do BR Angels, que contou também com a participação da Agroven, totalizando R$ 2,3 milhões injetados.
Com o montante, a iRancho lançou o SafeBeef, solução que utiliza informações de gestão para realizar a rastreabilidade dos animais, constituindo o processo de rastreabilidade por consequência.
O segundo breakeven veio em setembro de 2022 e, somente um ano depois, a iRancho recebeu seu segundo aporte, no valor de R$ 7,2 milhões, feito pelo BB Ventures, fundo de Corporate Venture Capital (CVC) do Banco do Brasil, que é gerido pela MSW Capital.
"A gente sempre espera o breakeven para abrir rodada, então sim, justamente para mostrar para o investidor que eu não vou usar seu dinheiro para custear o meu investimento", afirma Parente.
Os recursos serão destinados principalmente à contratação de profissionais de tecnologia e ao desenvolvimento de novos produtos. A rodada ainda está em negociação e a expectativa de Parente é de concluir a captação no primeiro trimestre de 2027.
A busca por capital ocorre em meio a uma trajetória de crescimento da iRancho. A empresa vem avançando entre 40% e 50% ao ano nos últimos três anos e espera fechar 2026 com alta de aproximadamente 46% em sua receita, levando o faturamento para entre R$ 10,5 milhões e R$ 11 milhões. Em 2025, a receita ficou pouco acima de R$ 6 milhões.
Hoje, a iRancho tem cerca de 1 mil clientes pagantes e ativos, responsáveis pelo manejo de aproximadamente 8,5 milhões de cabeças de gado. Entre 150 mil e 200 mil animais são manejados pela plataforma por semana.
"Estamos chegando a um ponto em que estamos tendo que profissionalizar muito a empresa. Não somos mais pequenininhos", afirma.
O amadurecimento também é perceptível nas ferramentas digitais da empresa. A iRancho está reconstruindo, por exemplo, do zero o módulo de manejo, considerado por Parente como o coração do software.
"São 10 anos de tomar porrada, aprendendo, ouvindo clientes, entendendo o que funciona e o que não funciona, e estamos trazendo isso para uma solução escrita do zero", diz Parente.
Ao mesmo tempo, a empresa criou uma estrutura própria de inteligência artificial, chamada BOS (Bovine Operating System).
O sistema roda diretamente no dispositivo móvel e pode funcionar off-line, de olho em atender operações em áreas com baixa conectividade, e por controle de voz.
Na prática, o usuário poderá registrar por voz informações como o nascimento de um animal, suas características e identificação, sem precisar preencher manualmente todos os campos da plataforma.
Dessa forma, é possível converter comandos de voz em dados estruturados no pasto, reduzindo em até 85% o tempo de envio de informações para o sistema.
"Cada vez mais você tira barreiras de entrada e de inclusão para aquele funcionário que é semi-analfabeto, que tem pouca instrução formal", afirma Parente.
A IA também está sendo incorporada à automação do trato, solução lançada dentro do iRancho Confinamento, voltada a operações intensivas como confinamentos e semiconfinamentos.
A ferramenta recebe a formulação elaborada pelo nutricionista, orienta o carregamento dos ingredientes e acompanha a distribuição da ração em cada baia.
A empresa utiliza uma antena RFID e um tablet conectado à balança por Bluetooth, em parceria com a empresa italiana Dinamica Generale.
Segundo Parente, o modelo reduz a complexidade e o custo de instalação ao dispensar servidores e estruturas específicas de conectividade na fazenda.
A diversificação, porém, não termina nas ferramentas de gestão da pecuária. Parte dos recursos da rodada será usada para acelerar a entrada da iRancho no mercado financeiro.
A empresa prepara para novembro o lançamento da primeira fase do Lisur, sistema financeiro desenvolvido internamente para a gestão das propriedades.
A plataforma terá recursos de captura e emissão de notas, caixa digital, DRE e análise contábil, além de ser preparada para operar em diferentes moedas, idiomas e regiões.
O projeto foi desenhado em cinco fases. No estágio mais avançado, a médio e longo prazo, intenção é oferecer produtos financeiros aos produtores. "No final, a iRancho se torna um banco", resume Parente.
A lógica é usar os dados operacionais e financeiros acumulados pela plataforma para conhecer a capacidade de pagamento do produtor e avaliar o risco de crédito.
"Eu vou conhecer a parte financeira e creditícia do cliente. Então, eu vou ter uma posição muito privilegiada para avaliar risco de crédito de um determinado cliente e avaliar ele pela real capacidade de pagamento", diz o executivo.
Um primeiro passo nessa direção foi dado com uma parceria com o Banco do Brasil que resultou, em julho passado, no lançamento do Broto Gestão Pecuária, integrado à plataforma agro do banco.
A estratégia de transformar dados em novos produtos também está por trás do iRancho Repro, ferramenta voltada a profissionais de reprodução bovina que começou a ser cobrada neste ano.
O sistema registra procedimentos de inseminação artificial em tempo fixo (IATF), atividade que ainda é frequentemente documentada em papel ou planilhas.
A empresa também mantém o SafeBeef, plataforma de rastreabilidade que reúne dados sanitários, nutricionais, de ganho de peso e geolocalização dos animais, armazenados em blockchain.
Hoje, iRancho e SafeBeef são as principais fontes de receita da agtech, que possui atuação internacional. Mais de 95% dos clientes ainda estão no Brasil, mas a plataforma já possui usuários em países como Bolívia, Paraguai, México e Estados Unidos.
Por trás da expansão está uma mesma estratégia: transformar as informações coletadas nas propriedades em novos produtos e serviços.
"A gente é muito bom em soluções de coleta de informações e tem que ser cada vez melhor, mas o ativo para mim é a informação”, avalia Gabriel Parente.
Nesse modelo, a inteligência artificial é uma camada para transformar esse volume de dados em novas aplicações.
"E cada vez mais a gente tendo capacidade de processamento de geração de inteligência a partir dessa informação, a gente consegue entregar mais resultado para o nosso cliente e para a empresa."
Resumo
- iRancho busca R$ 10 milhões para ampliar o time de tecnologia e desenvolver novas soluções com IA
- Agtech projeta faturamento de até R$ 11 milhões em 2026, quase 50% acima da receita do ano passado
- Empresa quer transformar dados da pecuária em novos produtos, serviços e crédito