A NotCo, unicórnio chileno que ajudou a popularizar os alimentos plant-based na América Latina, vive uma espécie de metamorfose. A transformação é de uma fabricante de alimentos à base de plantas para uma empresa puramente de tecnologia, que licencia sua plataforma de formulação para gigantes globais.
Mais um movimento nesse sentido foi dado esta semana, com a venda de suas operações no Brasil para a Ferrara, grupo de investimento dono de um portfólio de marcas de alimentos naturais no Brasil e nos Estados Unidos. O valor do negócio não foi divulgado.
O anúncio da transação foi feito pela foodtech em seu perfil no LinkedIn e vem menos de três meses depois de outra decisão semelhante, a venda dos negócios na Argentina e no Uruguai para a Molinos Río de la Plata.
Além disso, segundo o jornal chileno Diario Financiero, a companhia também teria fechado sua divisão no México, por não ter encontrado compradores diante de "resultados ruins". A NotCo não confirma essa informação.
A operação brasileira era, até aqui, um dos pilares da expansão internacional da companhia. Presente no país há seis anos, a NotCo construiu uma marca reconhecida sobretudo pelo NotMilk, bebida vegetal que prometia fechar a lacuna de sabor com o leite de vaca usando ingredientes como proteína de ervilha, óleo de coco e concentrados de repolho e abacaxi.
Na postagem em que comunicou a mudança no País, a empresa celebrou o negócio como um "marco" e reconheceu "um time de pessoas talentosas que, com convicção e trabalho duro, lançaram o ambicioso projeto de construir uma marca disruptiva que propôs uma nova forma de pensar, fazer e alimentar, e que conquistou milhões" de consumidores.
O cofundador e CEO Matias Muchnick foi além, em tom pessoal. Disse estar "muito calmo e feliz" com a venda e ressaltou o fato de ter visto uma empresa chilena "nascer e crescer (à vista de todos os consumidores e clientes) e se posicionar como o segundo maior player nacional em bebidas vegetais". "É inédito. E isso deve continuar", afirmou.
Segundo o Diario Financiero, a venda não inclui a transferência da equipe — a NotCo tinha no Brasil cerca de 30 funcionários sob contrato até o fim de setembro. O comunicado indicava, entretanto, que a Ferrara assume a missão de "acelerar a expansão, a escala e a inovação" da marca em todo o País.
"A decisão faz parte de uma evolução estratégica da NotCo, que passa a concentrar cada vez mais sua atuação no desenvolvimento de tecnologia e inteligência artificial aplicada à indústria de alimentos, enquanto busca parceiros capazes de acelerar a expansão de suas marcas em mercados estratégicos", confirmou ao AgFeed o CEO da NotCo no Brasil, Thiago Augusto.
Ele confirmou que a marca continuará presente no Brasil, agora sob a gestão da Ferrara. "O objetivo é acelerar a expansão e escala da marca e de sua inovação no País, ampliando sua distribuição e alcance". Segundo Augusto, o anúncio "reforça justamente a intenção de levar a NotCo a mais consumidores brasileiros".
A operação no Brasil incluía as áreas comerciais, marketing e comunicação, inovação e P&D, operações e funções corporativas, além de uma estrutura dedicada ao relacionamento com varejo, food service e consumidores. Atualmente, o portfólio da NotCo está centrado nas linhas NotMilk, NotShake, NotCreme e NotMayo.
Para Augusto, a experiência do Grupo Ferrara na indústria de alimentos e seu conhecimento do mercado local pesaram na definição do comprador, trazendo "sinergias na combinação de escala, distribuição, conhecimento de mercado e inovação e criando condições para ampliar a presença da NotCo no Brasil e acelerar o crescimento da marca".
A metamorfose estratégica
Com a transação, o Chile, mercado de origem, é hoje o único onde a empresa ainda administra diretamente seus negócios. Porém, fontes ouvidas pelo jornal chileno apontam que até mesmo a operação doméstica pode ser vendida se não se tornar lucrativa até o fim do ano.
A reorientação dos negócios da foodtech começou há dois anos. A NotCo nasceu em 2015, em Santiago, com a tese de usar inteligência artificial para reinventar a indústria de alimentos.
Sua plataforma, batizada de Giuseppe, analisa a estrutura molecular de proteínas animais para identificar as combinações de ingredientes vegetais capazes de replicar sabor, textura e funcionalidade dos produtos originais — o que permitiu à empresa cortar drasticamente prazos e custos de desenvolvimento.
O modelo atraiu mais de US$ 350 milhões em investimentos, incluindo o fundo de Jeff Bezos, e culminou em uma rodada Série D que avaliou a NotCo em US$ 1,5 bilhão, tornando-a o primeiro unicórnio chileno.
O primeiro marco da guinada estratégica ocorreu em 2024, quando a companhia entregou seus negócios nos Estados Unidos e no Canadá à Kraft Heinz, com quem já co-produzia alternativas plant-based.
A empresa fechou seu escritório em Nova York em 2025 e reduziu o quadro global de um pico de mais de 300 funcionários para menos de 100. Em julho, demitiu cerca de 20 pessoas nas equipes de P&D, cozinha, IA e marketing no Chile e nos EUA.
No início deste ano, desativou seu site original e o substituiu por uma página dedicada à divisão NotCo AI, em um indicação dos novos planos da companhia, focados no no licenciamento da plataforma para nomes como Nestlé, Barry Callebaut, PepsiCo, Mars e Mondelēz.
"A empresa continua acelerando seu crescimento como uma empresa de tecnologia de IA", disse a companhia, no comunicado desta semana.
A leitura de mercado é que a NotCo está trocando o modelo de capital intensivo — fábricas, distribuição, varejo e marketing de consumo — por um modelo de receita de tecnologia, mais leve e escalável.
A venda das operações de alimentos seria, nesse sentido, a consequência lógica: a marca continua viva nos países, mas sob a gestão de quem tem escala local, enquanto a NotCo monetiza a propriedade intelectual.
A polêmica que deu visibilidade
Um dos últimos capítulos da trajetória da marca no Brasil demonstrou o estilo que ajudou a popularizar a NotCo. Em julho de 2025, a companhia protagonizou uma polêmica ao veicular uma campanha trazendo uma releitura provocativa do icônico comercial "Mamíferos" da Parmalat, dos anos 1990.
No remake, os "bichinhos" que há três décadas eram crianças apareciam como adultos estufados e infelizes após consumir leite de vaca, com o slogan "Não é porque você é mamífero que precisa tomar leite".
A Lactalis, atual dona da Parmalat, acionou o Conar, que em 4 de julho concedeu liminar para a retirada da peça, apontando "exploração de campanha reconhecida" e informações sobre malefícios do leite que "parecem colidir com as orientações de autoridades oficiais".
Entidades do setor de laticínios classificaram a campanha como um "desserviço" e acusaram a foodtech de usar "símbolos da memória afetiva do povo brasileiro" para "incitar medo e desinformação".
A resposta do então CEO da NotCo no Brasil, André Wienmann, foi uma nova provocação: "Nosso último comercial acabou gerando intolerância", escreveu ao anunciar a retirada da peça, acrescentando que "no fim das contas, incomodamos. E isso só confirma uma coisa: estamos no caminho certo".
A polêmica, ainda que tenha custado a suspensão da campanha, deu à marca uma vitrine milionária em visualizações justamente em um momento em que a empresa reorganizava seus negócios no País, com mudanças de portfólio e distribuição desde a chegada de Wienmann ao comando, em abril de 2024 – ele foi substituído por Augusto em janeiro deste ano, passando a conselheiro da companhia.
A visibilidade, porém, não se traduziu em permanência. Pouco mais de um ano depois, a operação brasileira trocou de mãos.
A metamorfose da NotCo também precisa ser lida no contexto de um setor em consolidação dolorosa. A análise do portal americano Green Queen, especializado em food tech e proteínas alternativas, contabiliza mais de 85 empresas do segmento que foram adquiridas, fundidas, entraram em falência ou fecharam nos últimos 24 meses — um retrato da dificuldade de sustentar crescimento em um mercado que esfriou depois do pico de euforia dos anos 2020-2021.
O capital ficou mais caro e seletivo, o crescimento das vendas de alternativas vegetais desacelerou nos principais mercados e empresas que apostaram em escala própria de produção e distribuição viram suas margens derreterem.
A NotCo, com sua estrutura de unicórnio e operações em vários países, acanou se transformando em uma candidata natural a esse processo de enxugamento.
A nova aposta é ousada. A NotCo, reduzida ao seu motor de IA, joga sua sobrevivência na tese de que o futuro da indústria de alimentos pertence a quem formula melhor e mais rápido, mesmo que, para isso, tenha aberto mão de uma parte importante do que a tornou conhecida.
Resumo
- NotCo vende operação brasileira à Ferrara e concentra esforços em tecnologia e inteligência artificial para alimentos
- FoodTech chilena repete no Brasil estratégia adotada em outros mercados e reduz exposição à operação direta de marcas
- Após o boom dos plant-based, NotCo aposta no licenciamento da plataforma de IA para grandes empresas globais