Huxley (Iowa, EUA) – Nahzir Okde Júnior mal havia começado sua apresentação a diferentes representantes do alto escalão da Bayer ao redor do mundo, reunidos para o Bayer Crop Science Innovation, evento realizado em Iowa, no interior dos Estados Unidos, quando a plateia ouviu um assobio de surpresa vindo de um dos convidados sentados ao fundo.

O motivo estava no tamanho dos números da operação que o gerente administrativo e de parcerias agrícolas da Bom Futuro começava a apresentar. Uma das maiores produtoras agrícolas do país, a companhia dos irmãos Maggi Scheffer soma 880 mil hectares distribuídos em mais de 30 propriedades no Centro-Oeste.

Com essa escala, a Bom Futuro divide atualmente com a gaúcha SLC Agrícola o posto de maior operadora de terras agrícolas do Brasil, que entrou na safra 2025/2026 com uma área total de 837 mil hectares.

E, às vésperas do início de mais umasafra de soja em Mato Grosso, a companhia dos irmãos Maggi Scheffer se prepara para ampliar novamente a área dedicada à principal cultura de seu portfólio.

Depois de encerrar a temporada 2025/2026 com 353 mil hectares de soja colhidos, a Bom Futuro projeta levar a área plantada com a oleaginosa para perto de 370 mil hectares no ciclo 2026/2027.

De acordo com Okde Júnior, o avanço dependerá principalmente do início das chuvas em Mato Grosso, que começaram no decorrer da semana passada, e da abertura da janela de plantio após o fim do vazio sanitário a partir desta semana.

O grupo já acompanha as condições de umidade do solo para definir o ritmo de implantação da nova safra.

“Estamos aqui ansiosos para finalizar o vazio sanitário, na expectativa de virem chuvas e iniciarmos a produção de soja”, afirmou o executivo, ao conversar com o AgFeed após a apresentação no evento.

A expansão da soja também deverá influenciar o desenho da segunda safra, ainda em construção. Na temporada recém-encerrada, a Bom Futuro colheu 208 mil hectares de algodão e 90 mil hectares de milho, segundo Okde Júnior.

O desempenho das lavouras foi considerado satisfatório pela companhia. A soja ficou próxima, mas abaixo, da média histórica de produtividade, de 67,2 sacas por hectare.

No algodão, porém, houve melhora: a produtividade, que havia ficado em 335 arrobas por hectare na safra anterior, é estimada entre 345 e 350 arrobas por hectare após a conclusão do beneficiamento.

"Não podemos nos queixar do desempenho. A soja atendeu às expectativas e o algodão veio com uma surpresa de produtividade um pouco maior", afirmou Okde Júnior.

O bom desempenho do algodão veio mesmo com ocorrências de chuva no encerramento do ciclo, em agosto, que deixaram o board da Bom Futuro preocupado em relação à produtividade da pluma. Mas, na prática, não houve problemas no encerramento da safra. "Nada que gerasse prejuízo à qualidade", diz.

No milho, a produtividade alcançou 124 sacas por hectare, acima das 116 sacas registradas no ano anterior e próxima da média histórica, mesmo com o deslocamento da cultura para áreas consideradas mais marginais dentro do portfólio da Bom Futuro diante do crescimento do algodão.

O comando do grupo está atento, claro, aos possíveis efeitos do El Niño, mas ainda assim aposta que a diversificação de suas áreas produtivas ajuda a mitigar eventuais impactos do fenômeno climático.

"Estamos há 44 anos produzindo com El Niño e sem El Niño. O que determina a nossa janela de plantio é a umidade no solo para colocar a semente no chão", avalia Okde Júnior.

Terras da Radar entram aos poucos

A projeção de crescimento para a safra 2026/2027 também leva em consideração, segundo Okde Júnior, a incorporação gradual de áreas adquiridas recentemente pela companhia em uma negociação que envolveu também outra grande operadora de terras no Centro-Oeste, a SLC Agrícola.

A história começou quando a Cosan, holding controlada pelo empresário Rubens Ometto, resolveu vender, há alguns meses, terras que possuía no Cerrado, que formam o chamado "Bloco Mato Grosso" e que pertenciam à sua subsidiária Radar.

O negócio faz parte do processo de desinvestimentos promovido pela Cosan e suas subsidiárias para reduzir o tamanho da dívida da holding, estimado em R$ 11,5 bilhões.

A Cosan resolveu se desfazer, ao todo, de aproximadamente 41,2 mil hectares físicos, dos quais cerca de 28 mil hectares são agricultáveis. O volume representa 12% do total de terras pertencentes à Radar.

Todavia, essas terras estavam arrendadas à SLC Agrícola e também à Bom Futuro que, resolveram, então exercer seu direito de preferência de compra.

De acordo com Okde Júnior, parte das terras continuará sendo operada pelos atuais arrendatários até o encerramento dos contratos. "Esses contratos são vigentes e vão ser respeitados", afirma o executivo. Mas as áreas sem operador vigente poderão ser incorporadas imediatamente à operação agrícola da Bom Futuro.

O executivo da Bom Futuro não revelou, no entanto, quais são as áreas que ainda serão operadas por terceiros e quais estão sem operação agrícola no momento, nem o volume que será agregado nesta temporada.

Mas Okde Júnior adiantou que a incorporação das novas terras, portanto, não deve figurar integralmente já na safra 2026/2027, mas sim de forma gradual, conforme os contratos existentes forem sendo encerrados. "A ideia é que haja uma cadência de incremento ao longo dos anos, à medida que essas áreas forem sendo liberadas", explica o executivo.

Segundo o executivo, a decisão de exercer o direito de compra das terras levou em consideração diferentes fatores. "A oportunidade da aquisição, a região que essas áreas se encontram e a sinergia dessas áreas com os negócios que nós temos no entorno. Todas elas estão lindeiras às nossas operações", diz Okde Júnior.

Confinamento ganha escala

Paralelamente à operação agrícola, a Bom Futuro também vem ampliando seu braço na pecuária.

Um modelo de confinamento inicialmente testado em uma propriedade, a Fazenda Agromar, em São José do Rio Claro (MT), visitada pelo AgFeed em 2024, foi ampliado desde então e hoje possui dez módulos.

A estrutura original tinha capacidade para confinar aproximadamente 1,2 mil animais. Agora, os dez módulos são capazes de abrigar cerca de 12 mil cabeças.

Considerando apenas as operações de engorda, a Bom Futuro possui capacidade estática de aproximadamente 25 mil animais. Considerando quatro giros por ano, a capacidade anual fica entre 100 mil e 110 mil bovinos.

O confinamento também busca resolver uma limitação operacional durante o período chuvoso, diz Okde Júnior.

Com estruturas cobertas, a companhia pretende manter os animais confinados durante todo o ano, reduzindo os problemas relacionados à qualidade e à resistência do solo provocados pelo pisoteio do gado.

Antes de avaliar a replicação do modelo em outra propriedade de engorda, a Bom Futuro pretende consolidar os dez novos módulos antes, disse o executivo.

Resumo

  • Bom Futuro deve elevar área de soja de 353 mil para cerca de 370 mil hectares na safra 2026/2027
  • Grupo opera 880 mil hectares em mais de 30 propriedades no Centro-Oeste
  • Terras adquiridas da Radar, empresa imobiliária controlada pela Cosan, será incorporada gradualmente