Em meio à campanha eleitoral, o Brasil está diante de uma escolha que definirá as próximas décadas: como crescer, ampliar a geração de renda e fortalecer a segurança alimentar e energética enquanto protege sua população dos impactos da crise climática.
Em um cenário global de incertezas, o País detém uma vantagem rara: reúne a maior floresta tropical do mundo, uma das agropecuárias mais produtivas do planeta — referência em agricultura tropical e em ganhos contínuos de produtividade — e um patrimônio natural de relevância estratégica para o equilíbrio climático, a produção e o bem-estar da sociedade.
O próximo ciclo político coincide com o marco crítico de 2030, prazo estabelecido globalmente para conter a degradação ambiental e o desmatamento.
No Brasil, essas práticas produzem danos que vão além do meio ambiente e da biodiversidade: geram insegurança jurídica, fragilizam cadeias produtivas, comprometem serviços ecossistêmicos essenciais e afetam a imagem do país em mercados cada vez mais exigentes.
Eliminar o crime ambiental é, portanto, uma condição estratégica para o desenvolvimento nacional. A manutenção do regime de chuvas, da fertilidade do solo, da disponibilidade hídrica e da estabilidade climática é fundamental para a própria atividade agropecuária.
Proteger os biomas brasileiros não significa frear o crescimento, mas garantir as bases naturais, econômicas e institucionais para que o País produza mais, com mais segurança e competitividade.
A boa notícia é que o Brasil já dispõe de parte importante das ferramentas necessárias para avançar. Temos um dos mais robustos arcabouços jurídicos para o campo, incluindo o Código Florestal e o Cadastro Ambiental Rural (CAR), além de sistemas de monitoramento, políticas públicas de redução do desmatamento, conhecimento científico, capacidade produtiva e uma sociedade civil qualificada e engajada.
Além disso, o País acumulou conhecimento técnico, pesquisa científica e experiências bem-sucedidas em larga escala que demonstram a viabilidade econômica da produção agropecuária de baixo carbono. O desafio é, agora, transformar esse conjunto de instrumentos em implementação efetiva.
Para isso, será essencial assegurar o ordenamento territorial no campo e enfrentar os desafios imensos da regularização fundiária. A articulação com governos estaduais será decisiva para acelerar a análise do CAR, implementar efetivamente o Código Florestal e reduzir conflitos.
Também é necessário avançar na integração de dados e na infraestrutura de informação e rastreabilidade da produção agropecuária. Essa agenda é a base para destravar investimentos, dar segurança ao produtor e valorizar os ativos ambientais como oportunidades econômicas.
Será necessário, ainda, modernizar profundamente os mecanismos de financiamento rural. Mais do que integrar critérios de sustentabilidade ao crédito e ao seguro, isso implica também em desenvolver instrumentos financeiros inovadores capazes de acelerar a adoção de tecnologias e práticas sustentáveis em escala.
Em um contexto de quebras de safra mais frequentes e eventos climáticos extremos, soluções que reduzam riscos, ampliam a previsibilidade e reconheçam os benefícios econômicos da produção sustentável para o produtor serão cada vez mais importantes para a resiliência do setor agrícola.
As oportunidades são imensas. O Brasil pode consolidar mercados de carbono e programas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), remunerando quem conserva e recupera ecossistemas. Pode transformar a restauração de ecossistemas, o manejo sustentável e a silvicultura de espécies nativas em motores de desenvolvimento regional, gerando trabalho, renda e novas cadeias produtivas nos territórios.
Em tempos de insegurança energética global, o País tem condições de fortalecer sua posição por meio do investimento em biomassa e biocombustíveis, posicionando a indústria nacional na vanguarda da transição energética.
Ao mesmo tempo, a bioeconomia oferece caminhos para integrar biodiversidade, ciência e tecnologia, criando oportunidades em regiões hoje marcadas por vulnerabilidade social e baixa diversificação econômica.
O próximo governo terá, portanto, a oportunidade de consolidar uma estratégia de desenvolvimento que integre produção e conservação, tratando a proteção dos biomas e a eficiência econômica como pilares interdependentes.
Ao atribuir valor econômico à natureza, o Brasil pode proteger seu patrimônio natural, fortalecer sua agropecuária, gerar renda e reafirmar sua vocação como protagonista de um futuro próspero, resiliente e de baixo carbono.
O uso racional da terra, aliando uma agropecuária tropical moderna e a conservação de ativos ambientais, não é só central na solução climática. É, também, uma agenda que, para além de partidos e ideologias, deveria ser encarada como uma política de Estado decisiva para o futuro do Brasil.
Fernando Sampaio é secretário-executivo da Rede de Instituições de Pesquisa em Agricultura Tropical e membro do Grupo Estratégico da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.
Karen Oliveira é diretora de Políticas Públicas e Relações Governamentais da The Nature Conservancy Brasil e cofacilitadora da Coalizão Brasil.