Dias após ser formalmente notificada pela Radar, empresa de propriedades agrícolas da Cosan, sobre a venda de 41,2 mil hectares ao Grupo Bom Futuro por R$ 1,85 bilhão, a SLC Agrícola reiterou que aguardará o prazo de 30 dias para decidir se exercerá – ou não – o direito de preferência na compra das áreas.
"Nós vamos decidir dentro do prazo. É tudo o que eu posso falar", afirmou Aurélio Pavinato, CEO da SLC Agrícola, em entrevista a jornalistas após participar de evento na manhã desta terça-feira, dia 23 de junho, em São Paulo (SP).
Em comunicado divulgado ao mercado no último dia 17 de junho, a companhia da família Logemann informou que possui 17,6 mil hectares arrendados da Raiar e que, por conta disso, pode exercer direito de preferência e optar pela compra dos imóveis.
Com a contagem regressiva iniciada, os conselheiros e executivos da SLC Agrícola terão de fazer uma importante avaliação estratégica. Nos últimos anos, a empresa havia adotado uma política de expansão em um modelo asset light, priorizando operações de arrendamento à imobilização de capital em aquisições.
Uma eventual decisão pela compra das propriedades, sobretudo em uma operação que não aparecia nos planos da companhia, significaria um percalço nessa trajetória. Além disso, traria impactos financeiros não previstos, com o possível aumento do endividamento.
Por outro lado, abrir mão da preferência significaria ter a primeira redução de área em muitos anos e, mais do que isso, ter de entregar propriedades maduras, em que, ao longo de anos, foram investidos milhões de reais para melhorar seu perfil produtivo, inclusive para a produção de algodão.
Até o momento, as partes envolvidas não informaram quais são as propriedades negociadas. Assim, alguns especialistas passaram a buscar informações sobre os contratos de arrendamento firmados entre as duas empresas e, cruzando com o portfólio da SLC, fazer simulações para tentar desvendar esse “mistério”, como definiu um analista ao AgFeed.
Segundo reportagem do site The Agribiz, as fazendas incluídas na transação estariam em Mato Grosso, na região dos municípios de Diamantino e Campo Novo do Parecis.
Entre as fazendas que estariam nesse perfil, segundo o levantamento de um analista, a Pampeira, com mais de 19 mil hectares arrendados, e a Piracema, com 8,7 mil hectares.
Outra com esse perfil seria Fazenda Paiaguás, em Diamantino. Com mais de 63 mil hectares cultivados, a unidade combina áreas próprias e arrendadas pela SLC, inclusive da Radar, segundo o levantamento.
El Niño
A perspectiva de que o El Niño tenha algum impacto na safra 2026/27 já levou a SLC Agrícola a reforçar uma estratégia de cautela no campo, disse Pavinato aos jornalistas.
Segundo o NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica), dos Estados Unidos, o fenômeno climático já começou a atuar neste mês. A dúvida agora reside em sua intensidade no período da safra 2026/2027.
O CEO da companhia afirmou que a expectativa é de redução das chuvas em parte do Centro-Norte e Nordeste do Brasil, embora ainda seja cedo para estimar os impactos sobre a produtividade.
"O normal é chover menos. Agora, o chover menos vai ser insuficiente? Essa é a interrogação. Tem anos de El Niño que o que chove é suficiente e não causa quebra de safra. E tem anos que o que chove é insuficiente e aí causa quebra de safra", afirmou.
Diante desse cenário, a companhia pretende ser mais criteriosa na condução da safra, sobretudo na gestão do custeio agrícola. "O foco é economizar para buscar compensar alguma quebra de produtividade se porventura acontecer", disse Pavinato.
O executivo ressaltou, porém, que a SLC está mais preparada do que em eventos anteriores graças ao aumento de áreas irrigadas, à maturidade das áreas agrícolas e à diversificação geográfica da operação, que hoje tem operações espalhadas por estados de diferentes regiões do País como Mato Grosso, Maranhão e Bahia.
"Estamos mais preparados para El Niño do que estávamos em 2016, (por exemplo)", disse Pavinato.
Pavinato também afirmou que a empresa foi pouco impactada pela recente disparada dos preços dos fertilizantes nitrogenados provocada pelo conflito no Oriente Médio, que avança para o fim, segundo os governos de Irã e Estados Unidos.
Como a SLC ainda não havia iniciado suas compras de nitrogênio para a próxima safra, conseguiu esperar a normalização das cotações.
"O nitrogênio voltou praticamente para o preço anterior. A ureia voltou para o preço do ano passado. A gente não tinha comprado e acertamos. O timing da guerra para nós foi bom. A gente acabou não sendo obrigado a comprar no preço alto", disse.
Para o CEO, o Brasil tende a sentir pouco os efeitos da alta do nitrogênio na safra 2026/27 justamente porque boa parte das compras ainda pode ser realizada após o recuo dos preços.
"Como o Brasil estava no meio da safra, já tinha comprado pra safra 2025/2026 e foi possível esperar para comprar a partir de agora", afirmou. "O Brasil vai ser pouco afetado pelo preço do nitrogênio alto. Essa é a notícia boa de hoje", completou Pavinato.
Resumo
- SLC Agrícola reitera que exercerá (ou não) o direito de preferência sobre os imóveis apenas ao fim do prazo de 30 dias
- Companhia foi formalmente notificada pela Radar sobre a venda de 41,2 mil hectares ao Grupo Bom Futuro por R$ 1,85 bilhão
- Empresa age com cautela frente à iminência da chegada de El Niño durante a próxima safra