Diferentes bancos receberam de forma positiva o anúncio feito pela JBS na terça-feira, dia 18 de agosto, de que a companhia planeja adquirir ações de acionistas minoritários e fechar o capital de sua subsidiária Pilgrim’s Pride, que produz frango nos Estados Unidos e é listada na bolsa americana Nasdaq.
As instituições financeiras veem a relação de troca proposta como favorável para a companhia e avaliam que a operação pode ser relevante para simplificação organizacional da JBS.
A companhia da família Batista já controla aproximadamente 82% das ações da Pilgrim’s Pride. A operação prevê a troca de 2,086 ações ordinárias Classe A da JBS por cada ação da Pilgrim’s.
A relação de troca é baseada nos preços de fechamento das ações da JBS e da Pilgrim's, de US$ 13,66 e US$ 28,49, respectivamente, em 18 de agosto de 2026.
A operação está sujeita à aprovação de um comitê especial com capacidade de decisão, informou a JBS, composto por membros independentes e desinteressados do Conselho de Administração da Pilgrim’s, que será assessorado por consultores jurídicos e financeiros independentes.
Caso seja concluída, a transação retirará a companhia da Nasdaq e transformará a subsidiária em uma empresa fechada.
No comunicado, divulgado ao mercado na noite de terça-feira, a JBS disse acreditar que o negócio pode trazer participação continuada dos acionistas no desempenho da Pilgrims, além de simplificação da estrutura organizacional.
Para os investidores, a companhia também argumentou que a troca pode trazer acesso à maior liquidez de negociação das ações da JBS, que possui uma capitalização de mercado maior e uma base de investidores institucionais mais ampla do que o atual free float minoritário da PPC.
A JBS já havia apresentado uma proposta semelhante para adquirir a participação remanescente da Pilgrim's Pride em agosto de 2021. A oferta, na ocasião, era de US$ 26,50 para cada ação da subsidiária.
O conselho da Pilgrim’s rejeitou a oferta à época. A JBS fez uma nova investida, por valor mais alto, de US$ 28,50 por ação, mas não conseguiu convencer os acionistas minoritários. Assim, não restou outra alternativa que não fosse a desistência da operação.
Na avaliação do Banco Safra, a relação de troca é "razoável", em função do porte maior da JBS, da diversificação de negócios e da maior liquidez média das ações
O banco vê a proposta como positiva para a JBS. De acordo com a análise feita pela instituição, a companhia negocia atualmente a 6,2 vezes o resultado operacional dos últimos 12 meses, enquanto a Pilgrim's Pride apresenta múltiplo de 5,6 vezes.
"A diferença indica que a JBS oferece suas ações com um prêmio de aproximadamente 11% em relação à controlada", pontua o banco.
O Safra avalia também que a incorporação integral da Pilgrim’s Pride pode contribuir para simplificar a estrutura corporativa da JBS, além de eliminar despesas associadas à manutenção de uma subsidiária listada de forma independente.
"A operação também pode ampliar a liquidez das ações da JBS, ao concentrar os investidores em uma companhia maior e com negócios mais diversificados", avalia o banco.
Ainda na avaliação do Safra, a proposta pode encerrar uma etapa relevante da reorganização societária sem a necessidade de aumentar a alavancagem ou comprometer recursos financeiros.
Em relatório a clientes assinado por Gustavo Troyano, o Itaú BBA trouxe percepção semelhante.
Como as ações da Pilgrim's recuaram cerca de 50% desde ter alcançado máximas entre 2024 e 2025, retornando a níveis próximos aos da tentativa anterior de fechamento de capital, em 2021, o Itaú BBA concluiu que a relação de troca proposta parece mais favorável à JBS do que em período anteriores.
Além disso, para o banco de investimentos, a operação simboliza "evolução natural" da estratégia de longo prazo da JBS.
"Em nossa visão, incorporar integralmente a PPC à JBS não apenas simplifica a estrutura corporativa, mas também fortalece a tese de investimento do grupo ao consolidar uma importante fonte de resultados, ampliar a exposição dos investidores à plataforma combinada e potencialmente melhorar o posicionamento da JBS para uma futura inclusão em índices de ações", disse o Itaú BBA.
O movimento era esperado, segundo o Itaú BBA, após a listagem da JBS na Bolsa de Nova York, em junho do ano passado.
"Um movimento em direção à propriedade integral da PPC era de certa forma esperado e está alinhado à estratégia de longo prazo da companhia de simplificar sua estrutura corporativa, como já indicava a tentativa de adquirir a participação remanescente da PPC alguns anos atrás", disse o banco de investimentos.
Além disso, o Itaú BBA avaliou que a consolidação integral da Pilgrim's poderia elevar a capitalização de mercado da JBS, "potencialmente melhorando sua elegibilidade para uma inclusão mais ampla em índices ao longo do tempo, o que poderia contribuir para aumentar a liquidez e a visibilidade da companhia entre investidores".
Outro ponto de destaque para o banco de investimento está no fato de que o fechamento de capital deve trazer impacto limitado sobre o lucro por ação da JBS.
"Embora a emissão de novas ações necessária para concluir a operação resulte em uma diluição de aproximadamente 8%, esse efeito seria amplamente compensado pela retenção, pela JBS, da parcela dos lucros da PPC atualmente atribuída aos acionistas minoritários. Com isso, o impacto sobre o lucro por ação seria limitado caso a operação seja aprovada nas condições atuais da relação de troca", disse o Itaú BBA.
"O aumento resultante na capitalização de mercado poderia fortalecer a elegibilidade da JBS para uma inclusão mais ampla em índices de ações americanos, sem provocar impactos relevantes sobre o LPA ajustado após a operação, caso ela seja aprovada", diz o banco.
O Itaú BBA tem preço-alvo para a JBS de US$ 18 e recomendação outperform, equivalente à compra.
Para o Bank of America (BofA), a transação parece mais atrativa do que a tentativa anterior de fechamento de capital da Pilgrim's.
"Consideramos a transação mais atrativa do que a proposta de 2021, pois permitiria à JBS consolidar a PPC sem desembolso de caixa, melhorar a retenção de fluxo de caixa, simplificar sua estrutura corporativa e concentrar a liquidez das ações no nível da JBS", disse o banco em relatório a clientes.
A instituição manteve recomendação de compra para as ações da JBS após a transação. "Como uma plataforma global diversificada e resiliente de proteínas, a JBS está bem posicionada para atravessar diferentes ciclos de proteínas em diversas geografias, ao mesmo tempo em que oferece um retorno atrativo", disse o BofA.
O banco americano avaliou ainda que a queda que as ações da companhia na NYSE tiveram desde abril representa uma oportunidade de compra "bastante atrativa", mesmo após a recuperação recente de cerca de 10%, na esteira do anúncio da reabertura gradual da fronteira dos Estados Unidos para a importação de gado mexicano.
A ação oferece um dividend yield de 7,6% nas estimativas de 2027, disse o BofA, com risco limitado para o dividendo de 2027 em comparação com os US$ 1,1 bilhão pagos em 2026.
No fechamento de 2025, a receita da Pilgrim’s Pride somou US$ 18,4 bilhões, alta de 3,5% em um ano. O Ebitda ajustado foi de US$ 2,8 bilhões, avanço de 3,7%. De acordo com a JBS, houve forte demanda pelo portfólio de produtos frescos, e só a marca Just Bare bateu US$ 1 bilhão em vendas.
A margem foi positiva em 15,2% em 2025, beneficiada pela forte demanda no mercado americano e pelo avanço de produtos de maior valor agregado.
Mas, no primeiro semestre deste ano, os resultados da Pilgrim's figuraram mais deteriorados nos balanços apresentados pela companhia.
Em seis meses, as vendas recuaram 0,7%, o custo de vendas subiu 5,8% e as margens tombaram 5,6 pontos percentuais, passando de 13,2% no mesmo período de 2025 para 7,3% em igual intervalo deste ano.
Um dos motivos que contribuiu para limitar os resultados da companhia foi a queda dos preços de frango nos Estados Unidos com uma oferta maior.
Os investidores reagiram bem à oferta da JBS, a julgar pelo desempenho das ações no início do pregão desta terça-feira.
As ações da Pilgrim's na Nasdaq registravam alta de 12% às 13h15 (horário de Brasília), cotadas a US$ 31,91 cada. No ano, ainda acumulam queda de 19,19%.
Na Bolsa de Nova York, a NYSE, as ações da JBS avançavam 2,34% no mesmo período, precificada a 13,98 cada. No ano, porém, acumulam queda de 1,38%.
Resumo
- JBS propõe troca de ações para comprar os 18% restantes da Pilgrim’s Pride e fechar capital da companhia na Nasdaq
- Safra, Itaú BBA e BofA avaliam operação como positiva, com simplificação da estrutura e maior liquidez para a JBS
- Margens da companhia americana recuaram no início de 2026 em função de maior oferta de frangos e queda nos preços do alimento nos EUA