O frigorífico paulista Frigoestrela entrou em 2026 com uma ambição clara: continuar crescendo sem depender apenas do aumento dos preços das proteínas.
Depois de elevar o faturamento em 25% no ano passado, o grupo espera avançar mais 15% neste ano. A receita do Frigoestrela gira em torno de R$ 4 bilhões por ano.
Para sustentar essa expansão, a estratégia passa por diferentes frentes complementares: aumentar a produção nas unidades que já estão em operação e ampliar sua presença no exterior.
“Nós estamos investindo em novos mercados, credenciando as nossas fábricas para outros mercados e também aumentando a produção”, resumiu Eduardo Gomes, diretor comercial do Frigoestrela, em conversa com o AgFeed durante a edição 2026 do Salão Internacional de Proteína Animal (SIAVS), realizado na semana passada, em São Paulo.
Hoje, o Frigoestrela possui duas plantas de bovinos, em Estrela d’Oeste (SP) e Rondonópolis (MT), ambas habilitadas para exportação. No segmento de suínos, os abates são realizados em Tupã (SP) e São Luiz Gonzaga (RS).
As unidades de São Luiz Gonzaga e Estrela d’Oeste também concentram parte da produção de industrializados que abastece o varejo, com as marcas Estrela Alimentos, de carnes, e Donna Estrela, Tchê e Refeição, de frios e embutidos.
Somando todas as operações, o grupo abate atualmente cerca de 5 mil suínos e 1,8 mil bovinos por dia. Na área de industrializados, são aproximadamente 180 toneladas diárias, entre produtos como linguiças, carne moída e
hambúrgueres.
A meta é elevar em aproximadamente 20%, no médio prazo, a capacidade das diferentes operações, incluindo investimentos em túneis de congelamento e reforço das equipes nas linhas de desossa.
Eduardo Gomes não revela o volume total de aportes feitos para melhorias na operação. Ele destaca que a mão de obra é hoje um dos principais gargalos para colocar capacidade adicional em operação. “É mais mão de obra do que investimento na planta fisicamente, falando de equipamentos”, diz Gomes.
A explicação está no perfil da operação. Enquanto a produção de industrializados é mais mecanizada, o abate e a desossa ainda dependem fortemente de trabalho manual.
“A parte de abate e desossa é muito manual. Desossar tem algumas partes que são mecanizadas, onde é possível mecanizar, mas grande parte ainda depende da mão de obra”, afirma o executivo.
Exportação como motor
O aumento da produção está diretamente ligado à estratégia de diversificação dos mercados consumidores do frigorífico, que tradicionalmente era focado no mercado interno, mas vem ampliando seu volume de exportações já há alguns anos.
Hoje, no segmento de carne bovina, cerca de metade do faturamento vem do mercado interno e a outra metade das exportações. Na carne suína, a divisão é semelhante.
Nos industrializados, a dependência do mercado brasileiro é maior: aproximadamente 80% das vendas ficam no país e 20% são destinadas ao exterior.
É justamente nas exportações que estão algumas das principais apostas do grupo para sustentar o crescimento nos próximos anos.
A ideia é ampliar o acesso a mercados consumidores capazes de oferecer melhor remuneração pela proteína.
“Nós temos essa necessidade de mercado consumidor e que paga um bom preço, que remunera bem. Estamos buscando esses mercados”, disse Gomes.
Na carne bovina, o Frigoestrela busca habilitação para exportar aos Estados Unidos. No suíno, acompanha a possibilidade de vender miúdos para a China e aguarda a abertura do mercado japonês para a proteína brasileira.
Já nos industrializados, como há restrições sanitárias que limitam o acesso a mercados como o chinês, a estratégia é mais regionalizada, com foco na América do Sul e, especialmente, nos países do Mercosul.
Principal destino das exportações do Frigoestrela, a China continua sendo um mercado importante para a companhia.
Mas as restrições que afetam as exportações brasileiras de carne bovina ao mercado chinês neste ano também obrigaram o frigorífico a recalibrar sua estratégia comercial.
A resposta foi acelerar a busca por alternativas, especialmente no Oriente Médio e na América do Sul, incluindo mercados como Chile e Uruguai.
“São mercados que a gente já faz exportação, mas só com menor volume. Agora, intensificamos mais as remessas para essas localidades”, afirmou Gomes.
A estrutura industrial do grupo ajuda nessa diversificação, avalia o executivo. As plantas possuem habilitações sanitárias diferentes, o que permite direcionar a produção de acordo com as exigências de cada mercado.
A unidade de Estrela d’Oeste, por exemplo, possui habilitação para exportar para a Europa e a China, enquanto outras plantas têm autorizações distintas. “A gente acaba dividindo os mercados entre as plantas”, resume Gomes.
Apesar da diversificação, a China continua no radar. O grupo mantém o envio de cortes específicos para o país mesmo diante das limitações atuais, aproveitando nichos que ainda oferecem uma remuneração considerada atrativa.
“Continuamos fazendo alguns cortes mais específicos que eles têm mais demanda e pagam ainda, mesmo com as cotas, um preço ainda relativo interessante”, conta.
A experiência no mercado chinês também serve de referência para outra frente da estratégia do Frigoestrela: aumentar o valor agregado das proteínas, oferecer produtos mais premium e adaptar os produtos às demandas específicas de cada destino.
Desde que foi habilitado a exportar para a China, em 2016, o frigorífico passou a modificar cortes, embalagens e apresentação dos produtos para atender às preferências dos compradores locais.
“Nós mudamos muito o produto. Mesmo sendo a carne bovina in natura, você mudou a forma de embalar, de cortar”, diz Gomes.
O movimento, segundo ele, acompanha uma transformação na demanda dos mercados mais maduros, que passaram a buscar produtos mais específicos e com maior nível de processamento.
“Como os mercados estão mais maduros, estão também vindo com demandas mais específicas de um produto mais bem trabalhado, um corte mais porcionado”, afirma.
Mercado interno também é importante
A tentativa de acelerar as exportações não significa que o Frigoestrela tenha deixado de lado o mercado interno.
“Não viramos as costas para o mercado interno”, chegou a dizer Pedro Bordon, CEO da companhia, em um evento no ano passado.
Por aqui, o Frigoestrela segue focado em também ampliar a participação no varejo, em um movimento que procura reduzir a dependência de uma competição baseada exclusivamente em preço.
Embora continue atuando no atacado, a empresa vê no varejo uma oportunidade de construir relações comerciais mais recorrentes e com melhor remuneração.
“O varejo é mais trabalhoso, só que tem uma remuneração mais específica também. Você não fica tão brigando por preço, é mais por serviços”, ressalta Eduardo Gomes, o diretor.
“Isso não quer dizer que a gente deixa de fazer o atacado, mas preferimos fazer o varejo, porque é uma venda continuada, remunera melhor e tem exigência maior também.”
A aposta do Frigoestrela está em oferecer produtos e serviços mais ajustados às necessidades de cada cliente, que a empresa vê como uma vantagem competitiva em um mercado marcado pela disputa por preço e volume.
“Quando eu atendo as necessidades dele, e não são todos que conseguem atender, você cria uma parceria melhor”, diz.
Na prática, a estratégia significa aceitar uma operação mais complexa, especialmente pela logística e pelas exigências do varejo, em troca de uma remuneração maior.
“Não é ser mais caro, é ser um preço mais justo, né? Isso tem um custo mais alto também”, afirma Gomes.
Empresa de controle familiar, pertencente ao ex-deputado federal Vadão Gomes, o Frigoestrela vem passando por mudanças desde o ano passado, após a chegada de Pedro Bordon para assumir o posto de CEO da companhia.
Experiente profissional do mercado de carnes, Bordon acumula passagens por grandes empresas do setor como JBS e Minerva.
Sua família era dona do frigorífico Bordon, vendido para a JBS nos anos 2000. A marca Bordon continua sob controle da companhia da família Batista, que atualmente vende produtos como carne e almôndega em lata sob o rótulo.
Resumo
- Após crescer 25% em 2025, Frigoestrela busca alta de 15% no faturamento em 2026
- Empresa planeja aumentar a produção e ampliar sua presença no exterior
- Companhia foi impactada por cota de exportação para China, mas diversificou remessas