A próxima safra brasileira de grãos começa sob o peso de uma combinação particularmente adversa para os produtores: endividamento elevado, crédito mais restrito, juros altos e custos de produção ainda pressionados.
O resultado é um ambiente de maior cautela justamente no momento em que o campo precisa decidir quanto plantar e quanto investir na nova temporada.
Com esses vários fatores jogando contra o agro na arrancada da safra, o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Brasil (Aprosoja Brasil), Lucas Costa Beber, já arrisca cravar, inclusive, que a crise atual pode ser tão forte quanto a vivida pelo agro há cerca de 20 anos, entre 2004 e 2006.
Naquele momento, uma "tempestade perfeita" se formou, com a valorização do real frente ao dólar, movimento que, associado à queda nos preços internacionais das commodities e problemas climáticos no campo, trouxe dificuldades aos produtores rurais.
"Talvez essa crise seja igual ou até maior que a crise daquela época”, afirmou Beber, em entrevista ao AgFeed durante o 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio, evento da Abag e B3, realizado nesta segunda-feira, dia 10 de agosto, em São Paulo.
Presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), Beber assumiu recentemente o comando da Aprosoja Brasil, no lugar de Maurício Buffon, que se licenciou da liderança da entidade para concorrer à deputado federal por Tocantins.
O que torna o momento particularmente preocupante, na avaliação de Beber, é a combinação de fatores que normalmente não aparecem juntos.
Em crises anteriores, relembrou o presidente da Aprosoja Brasil, a redução dos investimentos e da atividade econômica ajudava a aliviar as pressões inflacionárias.
"Além de nós termos alto endividamento, dificuldade de acesso ao crédito, os juros elevados têm agravado ainda mais a crise", disse.
"O produtor não tem mais garantias, principalmente do aumento das exigências das instituições bancárias, como a alienação fiduciária, que para produtores que arrendam terras fica praticamente inacessível o crédito, principalmente de recursos controlados", emendou.
Em função das dificuldades financeiras dos agricultores, Beber estima que, desde o anúncio do Plano Safra, a demanda por recursos para custeio e comercialização teria caído cerca de 50% em relação ao mesmo período do ano anterior. No caso das linhas de investimento, a redução estaria próxima de 80%, calculou a Aprosoja Brasil..
A restrição ao crédito pode também limitar uma eventual expansão da área plantada, na avaliação de Beber.
Embora a Aprosoja Brasil não possua estimativas oficiais para a safra, acompanhando as projeções da Conab e do USDA, a entidade vê com reticência projeções privadas que estimam forte expansão de áreas plantadas.
“Há algumas empresas privadas que falam algo na ordem do aumento de meio milhão de hectares no país inteiro. Nós, da Aprosoja, ficamos um pouco céticos devido justamente a essa restrição no crédito e a diminuição de investimento”, disse o presidente da Aprosoja.
As dificuldades financeiras dos produtores, somadas à alta dos preços dos insumos agrícolas nos últimos meses, também pressionam o planejamento da próxima safra.
Beber estimou que, em Mato Grosso, cerca de 30% das compras de fertilizantes fosfatados ainda precisam ser realizadas e não foram feitas em função da disparada nos preços com o fechamento do Estreito de Ormuz, durante boa parte do primeiro semestre, em função da guerra no Irã.
Os preços do principal fertilizante fosfatado, o MAP, subiram de US$ 700 a tonelada para cerca de US$ 900 após o início do conflito.
“(A compra de fosfatados restantes) dificilmente será por conta do tempo e dos valores ainda elevados”, disse.
Outra incerteza de Beber envolve o fenômeno climático El Niño. O presidente da Aprosoja Brasil se disse “cético” sobre a ocorrência do fenômeno.
“Se fala muito na mídia desse El Niño, porém há climatologistas que afirmam que ocorreu deslocamento de água no Pacífico devido a um terremoto, mas só isso não reforça”, disse.
As chances de formação e consolidação do El Niño já ultrapassaram 90% segundo diferentes órgãos oficiais como a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e a NOAA.
Beber ressaltou que, se de fato o El Niño se confirmar, a tendência é de que haja um excesso de chuvas na região Sul e secas no Centro-Oeste, impactando negativamente a produtividade dos agricultores.
Moratória da soja
Beber também comentou sobre o possível julgamento que o Supremo Tribunal Federal (STF) pode fazer nesta semana sobre as Ações Diretas de Inconstitucionalidade 7.774 e 7.775, que questionam a validade de leis estaduais dos governos de Mato Grosso e Rondônia que retiram benefícios fiscais de empresas signatárias da Moratória da Soja.
A Moratória da Soja é um acordo firmado entre tradings para não adquirir mais soja de fazendas que estejam em áreas desmatadas na Amazônia após julho de 2008.
O tema continua judicializado, mas as leis estaduais que retiram os benefícios fiscais das empresas que estão no acordo entraram em vigor. Com isso, no início do ano, as principais tradings do mercado de grãos deixaram a Moratória da Soja.
Beber se disse otimista em relação ao andamento da causa no STF, ainda que não arrisque cravar uma decisão final.
“É imprevisível, o judiciário usa os critérios dele para julgar. Porém, nós já vimos na votação virtual da lei que foi positiva para o setor e esperamos que se repita novamente”, afirmou.
Segundo o presidente da Aprosoja Brasil, a entidade tenta negociar uma solução para a moratória desde 2019, mas não conseguiu chegar a um acordo.
“Nós buscamos o acordo no núcleo de conciliação e infelizmente a Abiove não quis”, disse.
Beber afirmou que, antes mesmo da judicialização do tema, a entidade defendia o fim da Moratória da Soja, desde que fossem respeitados o Código Florestal e as demais leis ambientais brasileiras.
Para ele, o encerramento do acordo representou uma mudança favorável para os produtores que atuam dentro da legislação.
“Graças a Deus, a moratória já não é mais aplicada desde janeiro, o que trouxe justiça para os produtores que estavam na legalidade”, afirmou.
Apesar das críticas em relação ao acordo antidesmatamento, o dirigente ressaltou que a Aprosoja não defende o desmatamento ilegal.
“Nós somos contra a ilegalidade. Inclusive, nós vemos a ilegalidade como uma concorrência desleal por parte desses produtores com os produtores que, na sua grande maioria, estão legais”, disse.
Questão concorrencial
A Aprosoja também aguarda a liberação para que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) analise o caso.
Em agosto do ano passado, o Cade já havia determinado a suspensão da Moratória da Soja por entender que o acordo comercial privado pode configurar infração à ordem econômica e restrição à livre concorrência.
Entretanto, pouco depois, em novembro, o STF determinou a paralisação de todas as ações administrativas, inclusive a do Cade, e judiciais correlatas para tentar uma conciliação sobre o tema.
“Nós esperamos que a lei seja julgada constitucional e que o Cade possa julgar livremente a questão concorrencial”, afirmou Beber.
“Hoje já é reconhecido que aproximadamente 90% do mercado comprador de soja era composto pelas empresas que participam da Moratória, o que caracteriza uma formação de cartel de compras, que deve ser analisado pelo Cade para saber se de fato é o que ocorre”, emendou.
Questionado sobre a possibilidade de um novo acordo, construído em bases diferentes da Moratória da Soja, Beber citou uma alternativa que já chegou a ser discutida: a criação de um fundo envolvendo os estados produtores de soja da Amazônia.
“Foi algo que foi discutido também dentro da legislação brasileira, inclusive uma coalizão dos estados produtores de soja da Amazônia para se ter um fundo desses estados para justamente ajudar os produtores na regularização fundiária e nas boas práticas previstas pela legislação brasileira”, afirmou.
Para Beber, o modelo permitiria trocar uma lógica de restrição por mecanismos de incentivo à regularização. “Através de um fundo também poder incentivar esses produtores a fazerem essa regularização fundiária”, disse.
Apesar de admitir que as negociações não avançaram, o presidente da Aprosoja Brasil afirmou que a entidade procurou construir uma solução consensual.
“Nós demonstramos boa vontade e sempre agimos de boa-fé nas negociações para que, de fato, seja feita justiça para os nossos produtores”, afirmou.
Beber também citou como sinal positivo a queda do desmatamento na Amazônia registrada recentemente.
Os alertas de desmatamento na Amazônia registraram uma queda de 36,9% entre agosto de 2025 e julho de 2026, somando 2.874 km² sob alerta, de acordo com dados do INPE, órgão do governo federal.
Na avaliação do presidente da Aprosoja Brasil, o resultado contraria o argumento de que o fim da moratória necessariamente levaria a uma elevação do desmatamento.
“É algo positivo e que acaba desmentindo uma narrativa de que, com o fim da moratória, o desmatamento aumentaria, principalmente o ilegal. O que a prática mostrou é que o desmatamento diminuiu”, afirmou.
Eleições presidenciais
A menos de 60 dias do primeiro turno das eleições presidenciais, que serão realizadas no próximo dia 4 de outubro, a Aprosoja Brasil tem uma lista de prioridades que está remetendo aos candidatos a ocupar o Palácio do Planalto.
Em meio à crise de endividamento, à restrição de crédito e aos custos elevados de produção, a entidade defende uma agenda que combine medidas emergenciais com políticas de longo prazo.
Entre os temas considerados centrais, segundo Lucas Beber, estão segurança jurídica, regularização fundiária e ambiental, criação de um fundo garantidor e ampliação do seguro rural.
“A principal (demanda) hoje, no Brasil, é a questão da segurança jurídica, principalmente quando se trata de regularização fundiária”, afirmou.
A criação de um fundo garantidor também aparece entre as principais demandas. Segundo Beber, a medida seria especialmente importante para produtores que trabalham em terras arrendadas e enfrentam dificuldades para oferecer as garantias exigidas pelas instituições financeiras.
“Para que haja previsibilidade no longo prazo e possa dar condições principalmente para produtores que arrendam terras”, disse.
O seguro rural é outro ponto central da agenda que a entidade pretende apresentar aos presidenciáveis.
Para Beber, a política precisa deixar de depender de decisões e recursos definidos ano a ano e passar a contar com uma estratégia de longo prazo, capaz de dar previsibilidade ao produtor e às seguradoras.
“Temos que ter uma visão de longo prazo. Um plano plurianual ou quinquenal para haver maior previsibilidade”, afirmou.
Na avaliação do dirigente, a baixa cobertura do seguro rural no Brasil é um dos gargalos que deixam o produtor mais vulnerável justamente em períodos de crise.
Beber estima que somente 3% a 4% da área de soja brasileira conta atualmente com prêmio de subvenção governamental para o seguro rural. Nos Estados Unidos, esse percentual chega a aproximadamente 90% das principais culturas.
A diferença também aparece no nível de subvenção. “Lá também o prêmio é na ordem de 60% do valor do seguro, enquanto aqui no Brasil não chega a 20%. Ou seja, uma desproporção muito grande”, disse.
Para Beber, uma política de seguro com horizonte de vários anos poderia aumentar a previsibilidade do mercado e, consequentemente, ajudar a reduzir o custo da proteção.
“Tendo um planejamento plurianual também traz mais previsibilidade tanto para o produtor quanto também para as seguradoras e pode também baratear o acesso ao seguro rural”, afirmou.
A entidade também defende uma força-tarefa para acelerar a regularização ambiental das propriedades.
Segundo Beber, a falta de validação ambiental pode se transformar em um obstáculo adicional ao financiamento, especialmente diante do aumento das exigências impostas pelas instituições financeiras.
“Precisamos encarar, dentro desse grande movimento de revisão do crédito rural e do seguro rural, a questão fundiária e ambiental, porque elas também são calcanhar de aquiles para o acesso do produtor a esse crédito”, disse.
Resumo
- Crédito mais restrito e juros altos reduzem o espaço para investimentos e podem limitar a expansão da área plantada, avalia Aprosoja Brasil
- Presidente de entidade compara dificuldades atuais à crise vivida pelos produtores de soja em meados da década passada
- Fertilizantes mais caros e risco de El Niño ampliam as incertezas sobre custos e produtividade na próxima safra