Foram vários trimestres com números ruins e problemas em várias frentes para a divisão agrícola da Bayer. Mas desta vez, foi esse segmento o destaque positivo do balanço do segundo trimestre de 2026, divulgado na manhã desta terça-feira, 4 de agosto.

Acima das estimativas do mercado, os números da gigante alemã de químicos ganharam uma força da área de Crop Science, que voltou a acelerar impulsionada pelo retorno do rótulo do herbicida dicamba nos Estados Unidos – liberado depois de disputas com autoridades locais em torno de sua utilização – e pela forte demanda por sementes de soja e algodão.

Com isso, o Ebitda ajustado subiu 1,9% na comparação anual, para € 2,144 bilhões, superando o consenso de € 1,93 bilhão levantado pela Bloomberg entre analistas — um sinal de que a companhia, ainda sob o peso dos litígios do glifosato, consegue combinar crescimento de receita com ganhos de eficiência no negócio agricola.

A receita do grupo somou € 10,872 bilhões no trimestre, alta de 2,2% em relação ao ano passado, com a base ajustada por câmbio e portfólio. O efeito cambial negativo, que pesou em períodos anteriores, foi de apenas € 63 milhões — bem menor do que os € 550 milhões registrados um ano antes, o que também ajudou o resultado.

O lucro líquido ficou em € 219 milhões, revertendo o prejuízo de €199 milhões do segundo trimestre de 2025. Já o lucro por ação core recuou 16,7%, para €0,95.

O fluxo de caixa livre ficou negativo em €371 milhões no trimestre — ante €125 milhões positivos um ano antes —, em parte por causa dos maiores pagamentos para resolver litígios. A dívida financeira líquida atingiu €33,647 bilhões em 30 de junho, alta de 3,5% ante 31 de março e de 1,1% na comparação anual.

Na divisão agrícola, a receita subiu 3,5% em base ajustada, para €4,910 bilhões, com destaque para o segmento de sementes. As vendas de sementes de soja e traits avançaram 16,9% na comparação anual, e as de sementes de algodão dispararam 69,2% — ambos os negócios beneficiados pelo retorno do rótulo do dicamba nos Estados Unidos, que destravou a adoção do pacote tecnológico da companhia na safra americana.

Em sentido contrário, as vendas de sementes de milho e traits caíram 2,5%, com os ganhos na Europa, Oriente Médio e África (EMEA) e na Ásia-Pacífico compensados apenas parcialmente por menores volumes na América do Norte, onde o negócio foi afetado pelo deslocamento de volumes para o primeiro trimestre.

No negócio de proteção de cultivos, o crescimento foi puxado pelos herbicidas à base de glifosato, cujas vendas subiram 12,6% em base ajustada, com aumento de volumes e preços. Os inseticidas avançaram 15,9%, também impulsionados por maiores volumes e preços na EMEA e na Ásia-Pacífico.

O resultado operacional veio forte: o Ebitda antes de itens especiais da Crop Science avançou 30,2%, para € 902 milhões, puxado pelo crescimento de receitas de alta margem e pela queda no custo dos produtos vendidos, fruto dos programas de eficiência no âmbito do chamado Five-Year Framework — o plano quinquenal da companhia para melhorar a rentabilidade da divisão. A margem Ebitda ajustada subiu 3,9 pontos percentuais, para 18,4%, o maior patamar recente da divisão.

"Operacionalmente, estamos bem encaminhados para atingir nosso guidance anual", afirmou o CEO Bill Anderson ao apresentar o relatório semestral, acrescentando que as três divisões estão no caminho certo.

Anderson destacou também o "progresso decisivo" nas prioridades estratégicas de longo prazo da companhia — entre elas, a revitalização do pipeline de fármacos e a execução do Five-Year Framework na Crop Science.

O executivo citou como exemplo desse progresso a decisão da Suprema Corte dos EUA favorável à Monsanto (subsidiária da Bayer), que, segundo ele, coloca a companhia em posição mais forte para o acordo coletivo proposto para resolver os litígios do Roundup.

Para o mercado, o resultado reforça a leitura de que a divisão agrícola, que por anos pressionou o resultado consolidado, voltou a ser motor de crescimento — e em um momento em que a Bayer precisa gerar caixa para financiar a resolução dos passivos do glifosato.

Litígio no Brasil

O release do segundo trimestre não detalha o desempenho específico da divisão agrícola no Brasil, principal mercado da Bayer fora dos EUA para sementes de soja.

No País, a empresa enfrenta outro litígio, com desdobramento, até aqui, desfavoráveis. No final de julho a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) recomendou a condenação de empresas do grupo por possíveis infrações à ordem econômica em processo que investigou práticas anticoncorrenciais relacionadas à concessão de incentivos aos obtentores para adoção da biotecnologia Intacta RR2 PRO e ao programa de licenciamento da tecnologia.

A investigação teve início em janeiro de 2018, com base em denúncias recebidas durante a instrução do ato de concentração referente à aquisição da Monsanto pela Bayer. As denúncias apontavam diversas condutas anticoncorrenciais relacionadas à obtenção e multiplicação de sementes de soja e ao licenciamento de biotecnologias — mercados em que a Bayer, após a aquisição da Monsanto, passou a exercer posição de destaque.

Entre as condutas analisadas, destacam-se as políticas comerciais de concessão de incentivos aos obtentores de soja para adoção da biotecnologia Intacta RR2 PRO, além de práticas relacionadas ao germoplasma da Monsoy e à biotecnologia Intacta RR2 PRO, e uma obrigação contratual de que os multiplicadores adquirissem percentual mínimo de sementes matrizes das empresas investigadas.

O processo foi encaminhado ao Tribunal Administrativo do Cade, órgão responsável pelo julgamento definitivo do caso — ou seja, a recomendação da SG ainda não é a decisão final, e a Bayer terá a oportunidade de apresentar sua defesa no julgamento colegiado. A companhia não comentou o caso no release de resultados.

Guidance confirmado

No balanço, com os números mais positivos, a Bayer confirmou a orientação para o ano completo de 2026 para todas as métricas, com exceção da dívida financeira líquida, agora esperada menor do que o projetado originalmente. Aplicando as taxas de câmbio de 30 de junho, a receita do grupo é projetada entre € 44,7 bilhões e €46,7 bilhões, e o lucro por ação core entre €4,20 e €4,70.

No primeiro semestre, a receita do grupo somou € 24,277 bilhões, alta de 3,3% em base ajustada, com Ebitda antes de itens especiais de € 6,597 bilhões (+6,6%) e lucro por ação de € 3,66 (+3,4%) — reforçando a narrativa de que a companhia encerrou o primeiro semestre "operacionalmente no rumo", como resumiu Anderson.

Resumo

  • Bayer superou as expectativas no trimestre, impulsionada pela divisão agrícola e pelo avanço das vendas de sementes de soja e algodão
  • Área de Crop Science elevou receita e margem com a retomada do dicamba nos EUA e o crescimento dos herbicidas à base de glifosato
  • A companhia confirmou o guidance para 2026, apesar dos litígios envolvendo glifosato nos EUA