Huxley (Iowa, EUA) – À primeira vista, a paisagem às margens da rodovia 215, que liga pequenas cidades de Iowa, nos Estados Unidos, próximas à capital do Estado, Des Moines, parece normal.

Enquanto grandes SUVs e caminhões cruzam a estrada, um mar de pés de soja e milho se estende ao lado das instalações do Bayer Crop Science Innovation Showcase, evento que reuniu o alto escalão da companhia nesta semana no país para apresentar o "estado da arte" da companhia em termos de inovação.

Mas basta olhar mais de perto para perceber que o verde da lavoura não conta toda a história. Há plantas com doenças e outros problemas que podem, mais adiante, aparecer no resultado da colheita.

“Mas não se enganem, essas plantas não são de sistemas de controle”, garante Maurício Rodrigues, vice-presidente da divisão de Crop Science da Bayer, a este repórter e outros jornalistas presentes no evento da companhia.

A cena serve para ilustrar o desafio que a Bayer pretende enfrentar nas lavouras brasileiras e de diferentes partes do mundo com a chegada de uma tecnologia que promete mexer com o mercado: a quarta geração de soja transgênica da companhia.

Batizada de Intacta 5+, a nova tecnologia deve chegar ao mercado brasileiro na safra 2027/2028, a depender de aprovações regulatórias. A companhia, em diferentes momentos do evento, manifestou bastante otimismo com o desempenho comercial e as possibilidades que a tecnologia poderá trazer aos produtores.

“Mesmo em momentos difíceis, com preços de fertilizantes mais altos e custos mais caros, o agricultor não abre mão da produtividade. E a única forma dele competir com os custos é produzindo mais e é aí que a Intacta também ajuda”, disse Alex Merege, líder global do negócio de soja da divisão de Crop Science da Bayer.

A nova geração de sementes, porém, é apenas uma parte de uma estratégia mais ampla da Bayer para acelerar o desenvolvimento de tecnologias e conectar diferentes áreas de pesquisa nos próximos anos.

Para Axel Trautwein, líder global de Ciência Regulatória da Bayer Crop Science, já há alguns anos a estratégia da companhia deixou de ser apenas lançar produtos e passou a ser desenvolver soluções integradas, movimento que deve continuar nos próximos anos.

“Não são apenas mais produtos. São soluções mais conectadas, que proporcionam melhor desempenho e maior valor para os agricultores”, afirmou o executivo durante o evento.

Segundo Trautwein, a Bayer tem quatro plataformas principais de pesquisa e desenvolvimento: melhoramento de precisão, edição genômica, biotecnologia e design de moléculas. Todas elas, disse ele, já são conectadas por uma estrutura de dados e inteligência artificial.

“É isso que realmente faz a diferença. Nosso motor de dados e IA potencializa essas quatro plataformas. Ele não é uma quinta plataforma ao lado das outras. Está no centro delas”, disse Trautwein.

A aposta em dados também está relacionada à velocidade de desenvolvimento e segue a lógica do DSO, sigla para Dynamic Shared Ownership, reorganização operacional e de filosofia que a multinacional alemã vem promovendo desde 2023 para enxugar estruturas e tornar mais rápidos os processos e as tomadas de decisão.

Nesse contexto, Trautwein afirma que a Bayer conseguiu transformar o melhoramento genético, historicamente baseado em ciclos de cerca de cinco anos, em um processo contínuo que pode reduzir esse intervalo para quatro meses em determinadas etapas. “É um ciclo de melhoramento 15 vezes mais rápido”, afirmou.

Mais importante, segundo o executivo, não é apenas acelerar o processo, mas aumentar o ganho genético obtido a cada geração.

Em um exemplo apresentado para o milho nos Estados Unidos, Trautwein estimou que seu modelo de melhoramento de precisão pode gerar cerca de US$ 38 por acre ao ano em ganho genético, contra aproximadamente US$ 13 por acre do melhoramento histórico.

Apontando para o slide que mostrava um gráfico com um aumento vertiginoso no ciclo do processo de melhoramento, Trautwein garantiu ao público presente: “Não é uma mudança pontual. É uma taxa. A cada ano, isso se acumula. Então, a distância entre nosso germoplasma e a concorrência aumenta”, afirmou.

A mesma lógica de aceleração aparece em outras frentes do pipeline. A edição gênica, por exemplo, é apontada como uma das tecnologias importantes para os próximos anos.

A Bayer pretende lançar sua primeira geração comercial de produtos desenvolvidos com a tecnologia no início da década de 2030.

Segundo Trautwein, mais de 50 características já têm alvos ativados no pipeline, enquanto a companhia pretende ampliar progressivamente a presença de edição gênica nos programas de melhoramento.

“Enquanto temos falado menos sobre edição gênica, fomos, na prática, os mais ativos no desenvolvimento dela”, disse.

Na proteção de cultivos, a lógica é semelhante. A partir de uma plataforma chamada CropKey, que utiliza inteligência artificial, em vez de simplesmente testar milhares de moléculas e selecionar aquelas que apresentam atividade contra uma praga, doença ou planta daninha, a Bayer tenta identificar primeiro o alvo biológico e, a partir dele, desenhar a molécula.

“Resistência é o problema que se acumula contra você. A cada safra em que você não resolve, ela aumenta”, afirmou.

Um dos resultados dessa estratégia é o desenvolvimento de um novo fungicida para o controle da ferrugem asiática da soja, doença registrada no Brasil pela primeira vez em 2001 e que pode causar perdas de produtividade de até 90% na lavoura.

O produto está na fase 2 de desenvolvimento e, segundo Trautwein, apresentou ganho de produtividade de aproximadamente 17% em relação ao padrão comercial em testes realizados em sete localidades brasileiras sob pressão da doença.

A estratégia de digitalização completa esse conjunto de ferramentas. A plataforma FieldView, segundo Trautwein, passa a fazer parte do processo de recomendação agronômica, conectando informações de sementes, densidade de plantio, proteção de cultivos e operação de máquinas.

“Um dia, nosso objetivo é que tudo o que vendemos esteja conectado a uma recomendação digital”, afirmou. “Ainda não chegamos lá, mas é para onde estamos caminhando.”

Uma aposta para além da Intacta 5+

É sobre essa base tecnológica que a Bayer pretende construir uma nova etapa de crescimento.

A estratégia passa não apenas pela chegada de produtos do pipeline, mas também pela expansão para novos mercados e pela busca de fontes adicionais de receita ao longo da próxima década.

Frank Terhorst, head global de estratégia e sustentabilidade da divisão Crop Science, afirmou que a companhia trabalha com três frentes simultâneas: fortalecer a operação atual, acelerar a chegada do pipeline ao mercado e criar novos negócios para além do portfólio tradicional.

“Primeiro, fortalecemos a base desse negócio, o que nos permite focar nas inovações mais importantes para os agricultores. Segundo, entregamos valor ao cliente por meio do nosso pipeline principal, que impulsiona o futuro do negócio. E terceiro, expandimos para além do core, em novos mercados que contribuirão para a rentabilidade dos agricultores e para o nosso negócio ao longo da década de 2030”, afirmou.

A Bayer estabeleceu, dentro desse plano, a meta de melhorar suas margens em mais de 1 bilhão de euros entre 2024 e 2029.

Em geração de caixa, a companhia pretende liberar mais de 1,5 bilhão de euros de forma acumulada por meio de capital de giro e outros ativos. Em vendas, a ambição é adicionar 3,5 bilhões de euros em receita no período a partir do lançamento de novos produtos e consolidação do portfólio.

Parte desse trabalho já aparece nos resultados. Terhorst afirmou que a Bayer reduziu 500 milhões de euros em estoques apenas em 2025 e tem outros 300 milhões de euros em redução em implementação.

A empresa também já capturou 200 milhões de euros de uma meta de 240 milhões de euros em melhorias relacionadas a matérias-primas, compras e necessidades técnicas.

Ao mesmo tempo em que busca ganhos de eficiência, a companhia reforça sua estrutura comercial para acompanhar a chegada das novas tecnologias. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Bayer adicionou mais de 200 agrônomos à equipe comercial antes da chegada de novos produtos, segundo Terhorst.

“Estamos otimizando nossos recursos para focar na entrega de valor para a fazenda”, afirmou.

É no pipeline, porém, que está a principal aposta para o crescimento. Ao todo, a empresa pretende lançar dez produtos de sucesso nos próximos dez anos. Neste ano, dois itens já foram lançados: o inseticida Plenexos e o sistema de milho Preceon.

As perspectivas, no entanto, variam entre as principais culturas da Bayer. Enquanto o milho deve continuar sustentando uma forte expansão, a soja tende a apresentar um desempenho mais contido no curto prazo.

Maior plataforma da companhia, o milho registrou crescimento de 30% nas vendas em 2025, segundo Terhorst, com avanço de dois dígitos em todas as regiões.

Já na soja, a companhia espera estabilidade no curto prazo, mas trabalha para retomar um crescimento de médio dígito no longo prazo.

Essa expansão deve estar ancorada principalmente no lançamento da Intacta 5+ ao longo dos próximos anos, com destaque para o possível forte desempenho da tecnologia na América Latina, disse Terhorst.

Em paralelo, a Bayer busca ampliar sua participação em outros mercados de sementes. Na canola, por exemplo, a meta é crescer em ritmo de dois dígitos ao ano até 2029, enquanto algodão e hortaliças devem avançar em ritmo de um dígito médio nos próximos anos.

Mas a estratégia de médio e longo prazo aponta ainda para mercados em que a Bayer hoje tem presença menor ou está construindo uma nova posição, como o trigo híbrido e as culturas destinadas à produção de biocombustíveis.

No trigo híbrido, segundo Terhorst, a companhia pretende reproduzir parte da estratégia usada para construir sua posição no milho, ampliando a base genética disponível e desenvolvendo híbridos adaptados a diferentes regiões climáticas.

“Este não é um produto incremental, é na verdade um novo mercado. E pretendemos criá-lo. Construindo a maior base de germoplasma de trigo do setor, assim como fizemos com o milho, o que nos permitirá desenvolver híbridos para zonas climáticas muito diferentes”, disse Terhorst.

A expectativa da Bayer é lançar as primeiras variedades de trigo híbrido já no início da próxima década, com vendas na Europa e na América do Norte.

“Esperamos um aumento de produtividade superior a 10% com as nossas primeiras variedades lançadas”, afirmou o executivo.

Já nas culturas destinadas a biocombustíveis, a Bayer atua em parceria com empresas produtoras de bioenergia, fornecendo as sementes que serão utilizadas no processo produtivo.

Hoje, a companhia mantém parcerias em três culturas voltadas à produção de biocombustíveis: CoverCress, com Bunge e Chevron; canola de inverno, com a Neste, líder europeia em combustíveis sustentáveis; e camelina, em aliança com a bp.

Ao longo da próxima década, segundo Terhorst, a companhia pretende ampliar em 60 vezes a área cultivada com essas culturas, chegando a um volume entre 5 milhões e 10 milhões de acres – equivalente a 2 milhões a 4 milhões de hectares – até 2035.

Questionado pelo AgFeed se havia um plano para firmar parcerias também com empresas nacionais que investem em biocombustíveis, especialmente em SAF, Terhorst disse que a companhia está focada principalmente na produção de sementes que serão matéria-prima para a produção de etanol de milho.

“Essa é nossa principal prioridade no Brasil. Mas, é claro, também estamos analisando oportunidades e espaço para algumas dessas culturas que mencionei [como canola, carmelina e CropCress], tanto no Brasil quanto na Argentina, para ver onde temos a melhor adequação para continuar investindo nesses países”, disse.

Em paralelo às movimentações da companhia, a Bayer conseguiu recentemente fazer a cisão de seu negócio de glifosato nos Estados Unidos, ao constituir uma empresa chamada Ruveon, que a partir de agora cuidará da produção, precificação, comercialização e questões legais em torno do RoundUp.

Para a América Latina, importante consumidora de glifosato produzido pela Bayer, a movimentação pouco muda o cenário.

“Isso não afeta o restante dos países, com exceção de questões muito operacionais. Um exemplo: a gente compra produtos para fabricação no Brasil ou na Argentina de uma determinada entidade aqui nos Estados Unidos. Antes era uma entidade com um nome, de repente é uma outra entidade”, disse Maurício Rodrigues, presidente da divisão de Crop Science na América Latina.

“Foi uma decisão dos Estados Unidos e uma decisão pontual. Acredito que é um bom teste para entender como que funciona isso nesse ambiente dinâmico [da indústria].”

*O repórter viajou a convite da Bayer.

Resumo

  • Bayer planja lançar dez produtos em dez anos e ampliar presença em novas tecnologias e mercados
  • Estratégia para próxima década combina edição gênica, IA e ampliação de portfólio
  • Culturas alternativas às tradicionais ganham destaque nos projetos para os próximos anos