Para a maioria dos brasileiros, consórcio ainda é sinônimo de casa e carro. No agronegócio, porém, a modalidade vem conquistando espaço como alternativa para a compra de máquinas e implementos agrícolas.

Enfrentando mais restritividade na obtenção de crédito e juros elevados, muitos produtores rurais têm recorrido aos consórcios para continuar renovando o parque de máquinas, movimento que tem levado administradoras a ampliar sua atuação no setor.

É nesse movimento que a Embracon, uma das maiores administradoras de consórcios do País, com um faturamento de R$ 39,5 bilhões no ano passado, tem apostado para expandir sua atuação no agronegócio, onde atua há cinco anos.

No ano passado, a Embracon vendeu R$ 573 milhões em consórcios para máquinas agrícolas.

A expectativa da companhia é de que o volume cresça neste ano, refletindo tanto o ambiente mais restritivo para a concessão de crédito quanto a estratégia da empresa de desenvolver soluções voltadas às necessidades do produtor rural.

Em entrevista ao AgFeed, o vice-presidente comercial da Embracon, Thiago Rocha, afirmou que a expectativa é que os consórcios para máquinas agrícolas representem entre 7% e 8% do faturamento da companhia em 2026. Considerando que a meta de receita geral do consórcio gira entre R$ 50 bilhões e R$ 55 bilhões para o ano, a modalidade poderá movimentar entre R$ 3,5 bilhões e R$ 4,4 bilhões.

"A taxa básica de juros elevada faz com que o consumidor volte o olhar para outra modalidade de aquisição. O consórcio vem se inserindo cada vez mais no agro", avalia Rocha.

Os resultados que a Embracon obteve ao longo do primeiro trimestre vêm deixando a companhia confiante de que conseguirá cumprir o planejado.

Entre janeiro e março, o volume de créditos comercializados pela administradora para a aquisição de máquinas e equipamentos agrícolas somou R$ 113,5 milhões, um crescimento de 44% em relação aos R$ 78,8 milhões registrados no mesmo período de 2025.

O ticket médio das cotas também avançou de forma expressiva. Nos três primeiros meses do ano, o valor passou de R$ 547 mil para R$ 970 mil, alta de 77%.

A expansão, no entanto, não se restringe à Embracon. O mercado de consórcios para máquinas agrícolas como um todo tem registrado crescimento nos últimos anos.

De acordo com os dados mais recentes divulgados no fim do ano passado pela Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), que reúne as empresas do setor, os consórcios de máquinas agrícolas responderam por mais da metade dos participantes ativos do segmento de consórcios de veículos pesados em 2025.

Ao fim do ano passado, a modalidade reunia 467,2 mil consorciados, um crescimento de 7,7% em relação a 2024. No mesmo período, os créditos comercializados somaram R$ 25,4 bilhões, alta de 14,2% sobre os R$ 22,3 bilhões registrados em 2024.

Os tratores concentraram a maior parte das operações, respondendo por 87,1% dos créditos destinados à compra de máquinas agrícolas. Na sequência aparecem colheitadeiras (2,5%), pulverizadores (1,1%), adubadoras (0,9%) e semeadoras (0,2%), enquanto a categoria "outros" representou 8,1% do total.

A Embracon nasceu em 1988 em São Paulo (SP) e, desde então, esteve mais voltada ao consórcio de veículos e imóveis, com forte presença no meio urbano.

A chegada da administradora ao agro foi mais recente, há cerca de cinco anos, quando começou a oferecer consórcio de veículos pesados.

O problema é que, como os tratores exigem quantias elevadas, geralmente a partir de R$ 1 milhão, muitos clientes precisavam recorrer à combinação de diferentes cartas para atingir o valor necessário para a compra de uma máquina.

Rocha lembra que, embora o agronegócio sempre tenha feito parte da carteira da companhia, foi a partir dos últimos dois anos que a empresa passou a adaptar seus produtos de forma mais direcionada ao segmento.

“Era necessário comprar 4 cartas de crédito de um determinado valor para comprar uma máquina”, exemplifica o VP comercial da Embracon.

Desde o ano passado, a empresa passou a oferecer elevar o valor das cartas de crédito para acompanhar o preço de tratores, colheitadeiras e implementos agrícolas, o que também elevou o ticket médio das operações.

O consórcio para máquinas agrícolas não se limita à compra de tratores. A modalidade também pode ser utilizada para a aquisição de colheitadeiras, semeadeiras, pulverizadores, implementos e outros equipamentos agrícolas, explica Rocha.

"Qualquer bem alienável pode ser adquirido por meio de um consórcio", afirma o executivo.

Na prática, quando o consorciado é contemplado, a administradora libera a carta de crédito para a compra do equipamento escolhido. A máquina é entregue ao produtor, mas permanece alienada à Embracon como garantia da operação até a quitação do consórcio.

Além das cartas de crédito livres, que permitem a aquisição de equipamentos de qualquer fabricante, a Embracon administra há cinco anos o consórcio oficial da Stara, fabricante gaúcha de máquinas agrícolas.

Além disso, a Embracon opera em modelo white label com cooperativas de crédito, administrando os consórcios oferecidos aos cooperados. Entre os clientes, estão cooperativas como Cresol, CrediSIS, e Ailos.

De acordo com Rocha, a atuação da empresa hoje está distribuída por todo o país, mas as regiões Sul e Centro-Oeste concentram a maior demanda pelos consórcios voltados à aquisição de máquinas agrícolas.

“É bem equilibrado entre Centro-Oeste e Sul. Mas o Sul ainda está um pouco na frente”, conta o executivo.

Para atender esse público, a companhia também investiu na preparação das equipes comerciais.

Segundo o vice-presidente comercial da Embracon, os vendedores passaram a receber treinamento específico sobre o funcionamento do crédito rural e as características do setor, permitindo comparar o consórcio com outras modalidades de financiamento utilizadas pelos produtores.

"Você tem que ter comparativos com linhas de crédito específicas para os produtores, o que facilita muito no entendimento da pessoa que está adquirindo ou pretendendo comprar o implemento, o maquinário", explicou.

Na avaliação da Embracon, o ambiente de crédito deve continuar favorecendo o crescimento da modalidade.

Mesmo com a expectativa de redução gradual dos juros, Rocha acredita que a maior seletividade na concessão de financiamentos continuará estimulando produtores a diversificar as formas de aquisição de máquinas.

"Quando você adentra a um novo método de compra e você se familiariza com aquilo, naturalmente vai se ampliar o poder de confiança de quem está comprando”, afirma.

Resumo

  • Embracon projeta ampliação de faturamento em consórcios para máquinas agrícolas em 2026
  • Crédito mais restrito e juros elevados fazem produtores recorrerem ao consórcio para renovar tratores, colheitadeiras e implementos
  • No primeiro trimestre, volume de créditos comercializados pela administradora subiu 44%