A gigante norueguesa de fertilizantes Yara foi atingida por estilhaços da guerra entre Estados Undidos e Irã no Oriente Médio. Com a turbulência no mercado causada pelo conflito, a companhia registrou, no segundo trimestre de 2026, um resultado aquém do projetado pelo mercado.

O balanço do período, divulgado na sexta-feira, 17 de maio, reflete o paradoxo criado pela escalada dos preços dos fertilizantes após a eclosão dos combates e o fechamento do Estreito de Ormuz: margens mais altas, mas volumes em queda e uma base de clientes adiando decisões de compra.

Assim, o Ebitda ajustado (que exclui itens extraordinários) somou US$ 906 milhões no período, uma alta de 39% na comparação anual, mas cerca de 20% abaixo dos US$ 1,13 bilhão esperados pelos analistas. O fluxo de caixa operacional trimestral recuou para US$ 682 milhões, ante US$ 878 milhões um ano antes.

Enquanto as margens subiam, as vendas seguiam em sentido contrário. As entregas da companhia caíram 17% no trimestre — reflexo direto da disparada nos preços do nitrogênio, impulsionada pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio.

O efeito, no entanto, não foi linear. Se as margens mais altas agregaram US$ 520 milhões ao Ebitda na comparação anual, a combinação de volumes menores e mudanças no mix de produtos reduziu o resultado em US$ 240 milhões.

A explicação está no comportamento dos compradores. Com os preços em pico no momento em que muitos agricultores não tinham necessidade imediata de aplicação nos campos, as compras foram postergadas. O atraso gerou acúmulo de estoques na cadeia e pressionou o fluxo de caixa da empresa.

"Se você não precisa do produto para aplicação imediata e pode adiar sua decisão de compra, é isso que provavelmente está acontecendo — e é o que estamos vendo", disse o CEO Svein Tore Holsether, em entrevista a jornalistas.

A despeito do trimestre fraco, a Yara sinaliza que a atividade de compra já começou a se recuperar nos mercados centrais em julho. A companhia aponta ainda que os baixos níveis de importação de nitrogênio indicam que volumes significativos ainda precisam ser adquiridos pelos compradores.

Nada garante, no entanto, que a recuperação vai se manter. Os preços da ureia até ensaiaram um recuo em meados de junho, com anúncios de um possível acordo de paz e o fim da safra no Hemisfério Norte.

De acordo com a Bloomberg Green Markets, no entanto, voltaram a saltar 24% em três semanas no Egito, tido como referência para a região, até 10 de julho, com o início da demanda vindo de produtores de Brasil e Argentina.

O conflito no Oriente Médio, no entanto, segue como fator de incerteza e se coloca, como a própria Yara definiu, como "um verdadeiro teste de resistência" se aproxima para a produção de petróleo e gás natural no Golfo Pérsico.

As tensões renovadas elevam o risco de oferta mais apertada na próxima safra, o que pode tanto sustentar margens quanto inibir novas encomendas dos agricultores.

Para os próximos trimestres, a empresa projeta custos mais elevados com gás natural — insumo-chave para a produção de fertilizantes nitrogenados —, estimados entre US$ 75 milhões e US$ 115 milhões acima do registrado um ano antes no terceiro e quarto trimestres, respectivamente.

Em um relatório, analistas do Citi resumiram a principal dúvida que paira sobre as ações da empresa, que oscilaram no campo negativo ao longo do dia – chegaram a cair 5% e fecharam com recuo de 0,8%: "O debate daqui para frente é se o enfraquecimento das pré-compras no segundo trimestre se desloca para trimestres posteriores ou se sinaliza uma destruição mais persistente da demanda", escreveram.

Resumo

  • Yara registra margens maiores, mas vendas caem 17% com produtores adiando compras diante da alta dos fertilizantes
  • Guerra no Oriente Médio elevou preços, reduziu volumes vendidos e fez Ebitda ficar abaixo das expectativas do mercado
  • Empresa prevê custos maiores com gás natural e alerta para incertezas sobre a demanda global por fertilizantes