Quando ainda trabalhava como consultor, o zootecnista Neto Sartor passava boa parte do tempo ajudando pecuaristas a decidir onde confinar seus animais. O problema era que, muitas vezes, ele próprio não gostava das opções que encontrava.

Os contratos disponíveis, segundo ele, frequentemente geravam dúvidas sobre custos, desempenho dos animais e até conflitos de interesse entre confinadores e produtores.

Então, ao invés de apenas orientar seus clientes, Sartor decidiu criar uma alternativa. Em 2017, arrendou seu primeiro confinamento no interior paulista e fundou a Maximus Agronegócio.

Quase uma década depois, a aposta virou um negócio de grandes proporções. Hoje, com três unidades, a empresa projeta entregar pra o abate cerca de 110 mil bovinos em 2026, crescimento de aproximadamente 13% sobre os 96,9 mil animais registrados no ano passado.

A companhia também estima faturar cerca de R$ 800 milhões neste ano, ante R$ 650 milhões em 2025, impulsionada tanto pelo aumento do volume quanto pela valorização do preço do boi gordo, revelou o empreendedor ao AgFeed.

O avanço consolida um modelo de negócio pouco comum para os confinamentos nacionais. Hoje, a Maximus opera três unidades arrendadas - em Sertãozinho, Clementina e Sales, todas no interior paulista -, e combina a engorda de animais próprios com a prestação de serviços para terceiros. Em 2025, cerca de 60 mil bovinos abatidos pertenciam a clientes, enquanto aproximadamente 37 mil eram do próprio rebanho da companhia.

Ao todo, a empresa atendeu 117 pecuaristas no ano passado, com uma média de 514 animais por cliente. Os lotes vieram de diferentes estados brasileiros.

O principal diferencial da operação está na forma como a prestação de serviço é remunerada. Enquanto boa parte dos confinamentos brasileiros ainda trabalha com contratos baseados em diárias ou na quantidade de arrobas produzidas, o executivo cita que a Maximus foi pioneira ao cobrar pela quantidade de matéria seca efetivamente fornecida aos animais.

Segundo Sartor, a ideia surgiu depois de visitar grandes confinamentos nos Estados Unidos, onde encontrou um sistema semelhante de cobrança pela alimentação consumida pelos bovinos.

O modelo, porém, precisou ser adaptado à realidade brasileira. "Lá eles trabalham com ingredientes muito mais secos. Aqui usamos silagem, alimentos com bastante umidade e até adicionamos água na dieta. Não fazia sentido cobrar pelo peso da ração porque a quantidade de água varia muito. Por isso trouxemos tudo para a base de matéria seca, que já é uma medida utilizada normalmente na nutrição animal", afirmou.

Nos contratos por diária, explica Sartor, existe um desalinhamento natural de interesses em sua opinião. De um lado, o pecuarista deseja que o animal consuma o máximo possível para ganhar peso o mais rápido possível. Do outro, o confinamento procura controlar seus custos, gerando questionamentos frequentes sobre o manejo alimentar.

"No mundo da matéria seca, saímos de lados opostos e sentamos os dois do mesmo lado. Eu vendo a comida para os animais e assim, quanto mais comerem, mais comida vendo. Ao mesmo tempo, quanto mais comem, mais peso ganham. Isso mudou nosso foco para eficiência em transformar comida em carcaça", explicou.

Além de reduzir conflitos, o sistema também diminui o custo da operação para o pecuarista. Segundo o empresário, os modelos tradicionais obrigam os confinamentos a embutirem margens de segurança nas diárias para compensar eventuais variações de consumo ao longo do ciclo de engorda.

Na cobrança por matéria seca, essa proteção deixa de ser necessária, já que o cliente paga exatamente pelo alimento consumido. "Na raiz, esse modelo já nasce mais barato, porque elimina uma margem que antes precisava existir. Foi isso que ajudou a dar tração ao nosso crescimento", afirmou o diretor.

A modalidade já responde por 89,5% de toda a prestação de serviços realizada pela empresa. Além da engorda, a Maximus também atua no atendimento de programas específicos de frigoríficos, fornecendo animais com maior padronização de carcaça e regularidade de entrega.

Outra frente que surgiu ao longo da expansão foi a antecipação de recebíveis. Segundo Sartor, a demanda apareceu naturalmente conforme os clientes passaram a utilizar o confinamento com maior frequência.

Muitos precisavam de capital para manter as atividades nas fazendas enquanto os animais permaneciam cerca de quatro meses em engorda.

Hoje, qualquer pecuarista que envia bovinos para uma das unidades da Maximus pode antecipar parte do valor futuro da venda dos animais. O limite é calculado conforme a quantidade e a categoria dos bovinos alojados. Ele cita que a carteira já chegou a alcançar cerca de R$ 50 milhões alocados em algum tipo de antecipação.

Da indústria à consultoria - e ao confinamento

Formado em zootecnia e mestre em nutrição de bovinos de corte, Sartor passou por empresas do setor antes de migrar para a consultoria técnica. Foi nessa fase que percebeu que havia espaço para construir um confinamento diferente dos que costumava recomendar aos próprios clientes.

Ao mesmo tempo, enxergava um limite para o crescimento da consultoria.

"Percebi que, para ganhar mais dinheiro, eu precisava estar em mais lugares ao mesmo tempo, já que a consultoria dependia da minha presença. Então resolvi aplicar o conhecimento técnico em um negócio próprio, onde fosse possível crescer sem depender apenas das minhas horas de trabalho", afirmou.

A oportunidade surgiu em 2017, quando arrendou um confinamento em Sabino, muncípio do interior paulista próximo a Araçatuba.

Curiosamente, a operação não começou com a engorda de bovinos para abate. Logo após assumir a estrutura, a empresa foi contratada para realizar a quarentena de animais destinados à exportação de gado vivo, recebendo dois carregamentos que embarcaram posteriormente pelo Porto de Santos.

Foi somente em março de 2018 que a Maximus passou a atuar efetivamente no confinamento de bovinos para corte - e desde então vem crescendo a operação.

Naquele ano, a empresa abateu cerca de 20,3 mil animais. Em 2019, o volume avançou para aproximadamente 34,7 mil cabeças e, em 2020, chegou a 43 mil bovinos.

A expansão também levou à criação da atual estrutura operacional. Em 2022, Sartor se juntou a dois outros sócios para acelerar o crescimento e ampliar o número de confinamentos, mas cita que parceria foi encerrada neste ano, quando o empresário recomprou as participações dos antigos parceiros e voltou a controlar integralmente a empresa.

Daqui para frente, a estratégia de crescimento para os próximos anos será diferente da adotada até aqui.

Toda a operação da Maximus funciona hoje em propriedades arrendadas. O modelo permitiu crescer rapidamente sem a necessidade de grandes investimentos imobiliários, mas também trouxe desafios.

Segundo Sartor, encontrar confinamentos "prontos" para arrendamento é cada vez mais difícil. Em muitos casos, as estruturas exigem dois ou três anos de investimentos e ajustes até atingirem o desempenho esperado. Depois de recuperadas, ainda existe o risco de dificuldades na renovação dos contratos de aluguel.

"A gente acha propriedades paradas e é aquele patinho feio quando começamos e colocamos uma energia enorme para fazer o negócio rodar. São anos com prestadores de serviços identificando 'as goteiras e onde o cano estoura'", disse.

"Hoje, com 41 anos de idade, há 20 formado e nos últimos 10 mexendo com isso, vou dizer que é algo que estou cansado de passar", continuou. Por isso, o próximo passo da empresa deverá ser a construção da primeira unidade própria.

Sem ainda prazos ou alvos definidos, Sartor cita que a ideia não é abandonar imediatamente os arrendamentos, mas concentrar os novos investimentos em uma estrutura desenhada desde o início para incorporar tecnologias mais modernas, maior eficiência operacional e processos padronizados.

"Os confinamentos que achamos para arrendar são 'de 20 anos para trás' e eu quero construir um com base no que penso que será 20 anos para a frente".

Antes de acelerar novamente o crescimento, porém, a prioridade será outra. Depois de praticamente quintuplicar de tamanho desde o início da operação, a Maximus pretende concentrar esforços em governança, padronização de processos e fortalecimento da estrutura administrativa.

"O modelo está validado e é isso que gosto e sei fazer, mas temos espaço para melhorar muito os indicadores internos. A ideia agora é consolidar a empresa para que, quando chegar a hora de crescer de novo, a estrutura esteja pronta para dobrar de tamanho", disse.

Resumo

  • Maximus projeta faturar R$ 800 milhões e abater 110 mil bovinos em 2026, altas de 23% na receita e 13% no volume
  • Modelo de cobrança por matéria seca responde por 89,5% dos contratos e busca alinhar interesses entre confinador e pecuarista
  • Após crescer com três confinamentos arrendados, prepara a primeira unidade própria e prioriza governança antes de nova expansão

Em 2025, cerca de 60 mil bovinos abatidos pertenciam a clientes, enquanto aproximadamente 37 mil eram do próprio rebanho da companhia

A empresa atua com três unidades de confinamento localizadas em Sertãozinho, Clementina e Sales, todas no interior de São Paulo