O Santander ficou mais pessimista com o andamento do mercado de carne bovina nos Estados Unidos. Com isso, passou a ficar igualmente descrente na performance da JBS no restante de 2026 e resolveu rebaixar sua recomendação e preço-alvo para a ação da companhia da família Batista.

Em relatório distribuído nesta quarta-feira, 8 de julho, o analista da instituição Guilherme Palhares trocou a recomendação Outperform - equivalente à recomendação de compra - para uma posição neutra e diminuiu seu preço alvo de US$ 17 para US$ 15,20 ao final do ano que vem.

Em Nova Iorque, a ação recuava mais de 2% nesta tarde, perto dos US$ 11,90. "Adotamos uma postura mais cautelosa em relação à ação devido à dinâmica negativa dos resultados, uma vez que a deterioração dos fundamentos na maioria de seus negócios nos levou a reduzir nossas estimativas de forma generalizada", disse Palhares, no relatório.

Segundo ele, a ação da JBS "carece de gatilhos" de curto prazo, mesmo após ter sido incluída nos índices Russel 1000 e 3000 no mês passado.

O Santander cita que passou a projetar resultados piores para as algumas subsidiárias da empresa  - Pilgrim's Pride, a operação de suínos e JBS Australia - além de incorporar o fechamento recente do abatedouro de carne bovina em Souderton (Pensilvânia) e uma unidade de processamento de produtos de valor agregado em Memphis (Tennessee), diante da escassez de gado nos EUA.

"Observamos que a maioria dos ciclos está se tornando mais negativa, como o da carne bovina no Brasil e também na Austrália, enquanto a recuperação do segmento de aves nos EUA está levando mais tempo do que o esperado", prosseguiu Palhares.

O Santander estima que a unidade de Souderton seja responsável por 6% da capacidade de carne bovina da JBS na América do Norte e avalia que o movimento - considerado positivo pelo banco - ilustra uma "estratégia mais racional para preservar margens" enquanto o ciclo do gado americano se aproxima de um "fundo", reduzindo custos e aumentando abates em regiões com maior disponibilidade de bovinos.

Segundo o USDA (Departamento de Agricultura dos EUA), o rebanho americano já caiu, em número de cabeças de gado, 13% desde 2019, chegando a 27,9 milhões de animais, o menor nível desde os anos 1950. No ano passado, a produção recuou 4%, enquanto o preço da carne bovina saltou 75%, segundo dados do Federal Reserve.

Além da JBS, a Tyson Foods também fechou duas unidades, uma em Lexington (Nebraska) e outra em Rome (Georgia), e a Cargill encerrou as atividades de sua fábrica de em Milwaukee (Wisconsin).

O segmento de carne bovina nos EUA ainda enfrenta um outro desafio neste ano: o surto de mosca-das-bicheiras, que afeta principalmente a parte sul do país. De acordo com o Serviço de Inspeção de Saúde Animal e Vegetal, do USDA, já são mais de 30 casos confirmados.

Palhares avalia que esse cenário deve postergar o processo de recomposição de rebanho por ainda mais tempo. O Santander cita que o risco associado à praga está na logística, custos com biossegurança, mortalidade animal, zonas de quarentena e possíveis restrições à movimentação de animais vivos - em especial o fluxo de gado de reposição do México.

Diferentemente da febre aftosa, doença mais contagiosa, a doença não é transmitida pela carne nem pelo contato direto entre animais.

A propagação ocorre quando moscas adultas são atraídas por feridas ou orifícios corporais e depositam ovos, as larvas alimentam-se de tecido vivo antes de caírem no solo e emergirem como novas moscas, criando um potencial ciclo de amplificação em ambientes de alta densidade, como confinamentos, explicou o banco no relatório.

A operação de frangos também não vive seus melhores dias. A Pilgrim's, inclusive, também listada nos EUA, teve sua recomendação cortada pelo Santander. O movimento foi o mesmo - de Outperform para neutro -  e houve redução do preço-alvo de US$ 56 para US$ 37,50.

De acordo com Palhares, a divisão começou 2026 com dificuldades: interrupções na expansão e preços fracos. Nos cálculos do analista, os preços do frango estão 10% menores por lá na comparação anual.

"A recuperação dos lucros tem sido mais lenta do que o esperado, e a dinâmica de oferta e demanda de aves nos EUA permanece desequilibrada, levando-nos a reduzir nossa estimativa de Ebitda para 2026 em 22%, para US$ 1,5 bilhão", escreveu no relatório.

Olhando para o segundo trimestre, o Ebitda projetado está 16% abaixo do esperado pelo mercado. "Embora esperemos uma retomada do consumo no terceiro trimestre, impulsionada pelos preços recordes da carne bovina, observamos que o estoque de frango congelado tem aumentado mês a mês desde abril, indicando que a oferta provavelmente está crescendo em ritmo superior ao da demanda", continuou.

Olhando a empresa de forma global no acumulado de 2026, a projeção do banco é que a JBS registre uma receita de US$ 89 bilhões (cerca de R$ 460 bilhões pela cotação atual), um leve aumento em relação a 2025 mas abaixo do consenso de analistas, que fica na faixa dos US$ 93 bilhões.

Para 2027 e 2028, contudo, o Santander espera retração nas vendas: US$ 87,4 bi no ano que vem e US$ 86,6 bi em 2028.

O Ebtida (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação), que tenta ilustrar um lucro operacional e a capacidade da empresa de gerar caixa, deve cair de US$ 6,4 bilhões no ano passado para US$ 5,4 bilhões neste ano, segundo estimativas do Santander.

Resumo

  • Santander corta recomendação da JBS para neutra e reduz preço-alvo após piora das perspectivas para 2026
  • Banco vê ciclo desfavorável na carne bovina dos EUA e recuperação mais lenta do esperado no mercado de frango
  • stimativas de receita e Ebitda foram revisadas para baixo, e ação é vista sem gatilhos de curto prazo