A expressão "autoajuda" (self-help initiatives) costuma ser utilizada por analistas de instituições financeiras para descrever um conjunto de ações estratégicas que dependem exclusivamente da gestão interna para melhorar o desempenho pelas companhias sob seu escrutínio.

Nesta terça-feira, 16 de junho, ela apareceu de forma recorrente em relatórios de instituições financeiras, numa espécie de resumo das percepções recolhidas na véspera durante o Investor Day, evento realizado pela JBS em Nova York.

A companhia aproveitou a oportunidade para enviar uma mensagem clara ao mercado. Em um cenário em que o ciclo da carne bovina na América do Norte, um de seus principais mercados, ainda pressiona as margens, a maior produtora de proteínas do mundo sinalizou que sua prioridade é a execução operacional e a disciplina financeira.

O discurso agradou analistas de grandes instituições, que veem na diversificação global da empresa o amortecedor necessário para atravessar o que a firma americana BMO Capital Markets classificou como o "ponto mais baixo do ciclo de lucros" em 2026.

Durante a apresentação aos analistas, os executivos da JBS, liderados pelo CEO global, Gilberto Tomazoni, detalharam a estratégia que, segundo eles, tem como objetivo ampliar a margem Ebit em 300 pontos-base até 2027.

Um dos principais pontos apontados pelos relatórios publicados depois do encontro é a integração e racionalização das operações nos Estados Unidos. O fechamento da planta de Souderton, no estado americano da Pensilvânia, foi citado pelo Bradesco BBI como uma decisão "estrutural e não apenas cíclica", que visa eliminar unidades de baixa margem e logística complexa.

Além disso, a empresa também está integrando as estruturas de compra de gado nos EUA para reduzir a complexidade.

Também foram destacados o foco em produtos de maior margem, como a marca Just Bare, com base em carne de frangos para o mercado americano, que saltou de 1% para 13% de market share em 3 anos, e o investimento de US$ 170 milhões em uma nova planta de salsichas em Iowa.

Já o relatório da BMO ressaltou o uso de tecnologias como Inteligência Artificial, visão computacional e robótica na Seara e na Pilgrim’s Pride para melhorar rendimentos e automação.

De olho na alavancagem

O ponto de maior atenção nas análises foi a gestão do endividamento. Com a alavancagem líquida aproximando-se do teto da política da companhia, a JBS anunciou uma redução de US$ 400 milhões em seu plano de Capex para 2026, revisando o montante para US$ 2,0 bilhões.

Os analistas do Barclays destacaram que essa decisão é fundamental para manter a alavancagem dentro da meta de ficar 2 a 3 vezes na relação entre dívida líquida e Ebitda. Em seu relatório, a instituição pontua que a JBS está "moderando o capex para garantir que a alavancagem permaneça abaixo de 3x".

Já o BofA Global Research observou que a alavancagem está entrando em uma "zona de atenção", justificando o adiamento de projetos de crescimento de longo prazo para preservar o balanço. Segundo o BofA, a gestão reiterou o desejo de manter dividendos anuais de US$ 1 bilhão, mas ressalvou que isso dependerá de a alavancagem estar em uma "posição confortável".

Apesar dos desafios de curto prazo, foi consenso entre os analistas a visão de que a JBS permanece subvalorizada. O Bradesco BBI, que mantém a JBS como sua única recomendação de compra (outperform) no setor de proteínas, estabeleceu o preço-alvo mais otimista, de US$ 22,00 para os papéis listados em Nova York no final do ano, o que representa um potencial de alta de 80% sobre as cotações atuais – nesta terça-feira, as ações da empresa era negociada a US$ 12,30 às 16h (horário de Nova York), com alta diária próxima de 1%.

O banco justifica a visão com o potencial de re-rating (reavaliação) da empresa após a listagem nos EUA e a inclusão em índices como o Russell e, futuramente, o S&P 500.

Outras instituições seguem linha semelhante, mas prevendo valorizações um pouco menores. O Morgan Stanley indica um preço-alvo de US$ 21,00 para dezembro de 2026, com aposta na "autoajuda" operacional e na diversificação geográfica como as chaves para superar o ciclo de baixa da carne bovina americana.

No BofA Global Research, a recomendação de compra trazia preço-alvo de US$ 20,00 e na BMO Capital Markets, US$ 18,00, projetando retomada de crescimento em 2027.

Ao cortar o Capex e focar na estratégia de "autoajuda", a companhia tenta provar ao mercado americano que pode entregar resultados previsíveis mesmo no topo do ciclo de custos do gado. Para os analistas, o "desconto" com que a JBS negocia em relação a pares como Tyson Foods e Hormel Foods tende a diminuir à medida que a execução do plano de eficiência avance e a estrutura de capital se mantenha protegida.

A comparação de múltiplos entre a JBS e seus principais concorrentes globais revela que a companhia brasileira continua sendo negociada com um desconto significativo, o que sustenta a tese de "re-rating" (reavaliação) defendida pelos analistas.

Enquanto a JBS apresenta múltiplos de EV/EBITDA na casa de 5,1x a 5,7x para o horizonte de 2026/2º27, Tyson e Hormel são negociados em patamares muito superiores, chegando a 9,8x e 14,0x, respectivamente.

Para o Morgan Stanley, a JBS está bem posicionada para uma expansão de múltiplos à medida que o mercado reconhece a estabilidade gerada pela diversificação. A instituição espera que a empresa utilize sua escala para ganhar participação de mercado em produtos de valor agregado e ressalta que a JBS tem demonstrado uma disciplina de capital superior em comparação a ciclos anteriores, priorizando o balanço em detrimento de aquisições agressivas no curto prazo.

Resumo

  • Em encontro com analistas em NY, JBS reforça estratégia para ampliar margens com ganhos de eficiência e integração das operações nos EUA.
  • Entre os pontos destacados está a redução do Capex em US$ 400 milhões para preservar alavancagem e fortalecer o balanço
  • Analistas veem potencial de valorização das ações após listagem nos EUA e foco em disciplina financeira