Quando Isabella Fernandes e o pai, Fernando, compraram o projeto de uma costela bovina na lata, imaginavam um negócio de nicho voltado ao varejo gourmet.
Pouco mais de dois anos depois, a empresa ocupa uma fábrica de 2 mil metros quadrados, cresce mais de 300% em um ano, já faturou no primeiro trimestre de 2026 mais do que em todo o ano passado e agora usa a certificação halal como passaporte para acelerar sua internacionalização.
A trajetória da Costelata - o nome já diz muito: costela na lata - também foge do roteiro tradicional das empresas de alimentos. A companhia nasceu apostando em uma proteína pronta, sem conservantes e de longa vida útil, pensada inicialmente para abastecer supermercados e regiões onde a logística refrigerada representa um desafio. Mas o mercado levou a empresa por um caminho diferente.
"Miramos onde vimos e acertamos onde não vimos", resumiu Isabella Fernandes, CEO da companhia, em entrevista ao AgFeed.
Lançada oficialmente em janeiro de 2024, a marca estreou com a costela bovina enlatada como principal produto. A ideia havia surgido alguns anos antes, quando os Fernandes conheceram o chef de cozinha Charles Chiapetti, que desenvolveu a tecnologia anos antes.
A família decidiu adquirir o projeto e estruturar uma pequena fábrica em Itaipava (RJ), apostando em uma proteína premium produzida apenas com carne, sal e páprica. A proposta ia além da curiosidade de colocar uma costela dentro de uma lata. Segundo a CEO, o diferencial principal era um dos principais entraves do setor de distribuição de alimentos: a refrigeração.
"Nós acreditávamos muito numa proteína sem obstáculo logístico. Pensávamos em atender mercados de difícil acesso e situações onde a cadeia refrigerada fosse um problema", afirma Isabella.
A percepção ganhou força logo nos primeiros meses da operação. Durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, a empresa conseguiu doar alimentos que chegavam a regiões isoladas justamente por não dependerem de refrigeração.
Mesmo assim, o grande ponto de inflexão da companhia aconteceu por acaso.Entre janeiro e março de 2024, a Costelata concentrou seus esforços no varejo e conseguiu colocar seus produtos em redes como a carioca Zona Sul. Hoje, os produtos da empresa já estão em redes como o Grupo Pão de Açúcar e redes mais premium como a Santa Luzia.
O que ajudou a escalar a operação foi a participação em uma feira supermercadista no Rio de Janeiro, onde a Costelata levou uma costela desfiada apenas para servir como degustação aos visitantes.
Foi ali que alguns representantes da distribuidora Rio Quality enxergaram uma oportunidade que nem a própria empresa havia percebido.
Segundo Isabella Fernandes, o mercado de food service buscava um fornecedor de costela desfiada premium. Os produtos disponíveis apresentavam maior teor de água e menor rendimento, abrindo espaço para um novo competidor focado em qualidade.
A demanda fez a empresa mudar um pouco seus planos. Entre março e outubro daquele ano, a Costelata desenvolveu sua linha de desfiados e decidiu trocar uma fábrica de apenas 180 metros quadrados por uma unidade de aproximadamente 2 mil metros quadrados em Três Rios, no interior do Rio de Janeiro.
A estrutura atual foi desenhada já prevendo novas expansões. A CEO explica que hoje, metade da planta permanece disponível para futuras ampliações, enquanto a área já ocupada ainda possui capacidade para elevar significativamente a produção apenas com ganhos de produtividade.
Ela cita que a instalação recebe uma carreta por dia com cargas de carne, vinda de fornecedores como Frisa, JBS e MBRF. Da fundação para cá, a empresa saiu de seis funcionários - incluindo a própria Isabella e seu pai - para mais de 100 colaboradores em menos de dois anos.
A empresa não divulga os números de faturamento, mas cita que entre maio de 2025 e maio de 2026, o faturamento avançou 310%.
Apenas no primeiro trimestre deste ano, a empresa já superou toda a receita obtida ao longo de 2025. Já para o fechamento de 2026, a expectativa é quadruplicar o faturamento do ano anterior. Hoje, embora a costela em lata continue representando a identidade da marca, os produtos desfiados respondem pela maior parte das vendas, e por canal, a maior parte do faturamento está no food service.
Ao invés de buscar presença nacional rapidamente, a companhia optou por abrir novos estados apenas quando conseguia garantir abastecimento contínuo, a fim de evitar rupturas, disse a CEO. Além da Rio Quality, no Rio, no Sul trabalha exclusivamente com a SOS Distribuidora nos três estados.
A empresa já possui distribuidores em boa parte do Brasil, enquanto São Paulo permanece como um mercado em construção devido ao seu tamanho e necessidade de múltiplos parceiros. Agora, o próximo ciclo de crescimento passa pelo mercado internacional.
Nas últimas semanas, a empresa obteve a certificação halal, processo iniciado ainda em 2025 e que exigiu revisão de fornecedores, adequações produtivas, protocolos específicos de limpeza e segregação de matérias-primas. A ideia não é só para atender um mercado gigante no Oriente Médio, explicou a executiva, mas também para melhorar processos internos de rastreabilidade, qualidade e segurança alimentar.
Essa relação com os muçulmanos começou, segundo ela, quando um árabe procurou a empresa interessada em um projeto para produção de aproximadamente 800 mil latas destinadas a ações humanitárias em regiões afetadas por guerras e insegurança alimentar.
Foi essa conversa que apresentou à Costelata o universo halal. "Aí fomos expostos a esse mercado. Depois entendemos que o halal vai muito além do consumidor muçulmano. Existe todo um conceito ligado ao abate consciente, rastreabilidade e qualidade que conversa muito com o que já fazíamos", afirma.
Hoje, a empresa participa de feiras e rodadas de negócios em mercados como Estados Unidos, Canadá, México, França e Oriente Médio enquanto desenha sua estratégia internacional.
O ritmo de crescimento também deve mudar a estrutura financeira. Até agora, toda a expansão foi sustentada com capital próprio dos sócios: Isabella e seu pai. Mas a CEO admite que esse modelo pode não acompanhar os próximos passos.
Segundo ela, a empresa começa a discutir a possibilidade de abrir espaço para novos investidores, especialmente para financiar equipamentos e ampliar a capacidade produtiva conforme a demanda internacional avance.
"A gente sempre cresceu com recursos próprios, mas entendemos que, para continuar acelerando nesse ritmo, principalmente pensando em exportação, vai chegar o momento de buscar uma injeção de capital", afirmou.
Resumo
- Costelata cresceu 310% em um ano, ampliou sua fábrica para 2 mil m² e já faturou no primeiro trimestre de 2026 mais do que em todo o ano passado
- Empresa mudou o foco do varejo gourmet para o food service após identificar demanda por costela bovina desfiada premium, hoje principal motor das vendas
- Com certificação halal, a companhia acelera planos de exportação e avalia captar investimentos para ampliar a capacidade produtiva e sustentar a expansão internacional