De um ano para cá a multinacional francesa Danone tem acelerado sua agenda de investimentos e M&As.
A primeira, há um ano, foi a belga Akkermansia, especializada em saúde intestinal. Depois a americana Kate Farms, focada em fórmulas nutricionais à base de plantas. Em setembro do ano passado, inaugurou seu laboratório global OneBiome em Paris. A unidade é um novo centro de pesquisa dedicado à ciência do microbioma do intestino.
Em março deste ano foi a vez da britânica Huel, de nutrição funcional adquirida por cerca de 1 bilhão de euros, e na véspera, a multinacional francesa anunciou mais uma aquisição: a australiana Made Group, num negócio de US$ 1,4 bilhão voltado ao mercado de proteínas e nutrição saudável.
A sequência de movimentos ajuda a explicar para onde a companhia quer ir nos próximos anos: saúde, proteína, microbioma e alimentação funcional.
Mas, para executar essa estratégia, a Danone diz depender cada vez mais de algo muito menos futurista ou dependente de tendências de mercado: o leite produzido dentro da fazenda.
"A agricultura é o nosso principal driver de descarbonização", afirmou Mário Rezende, vice-presidente de operações e sustentabilidade da Danone no Brasil, durante encontro com jornalistas realizado na terça-feira, 23 de junho, em São Paulo.
A declaração ajuda a entender por que, ao mesmo tempo em que investe bilhões em empresas de nutrição ao redor do mundo, a companhia lançou uma nova etapa de suas metas de sustentabilidade para 2030 tendo a agricultura regenerativa como um dos principais pilares.
Segundo a empresa, mais de 60% do leite utilizado atualmente pela operação brasileira já vem de propriedades inseridas em práticas regenerativas. Entre 2020 e 2025, a companhia afirma ter reduzido em 50% suas emissões de CO₂ e em 43% as emissões de metano no Brasil, desempenho superior à meta global de redução de 30% do gás.
Agora, a missão passa a ser ampliar esse trabalho. Até 2030, a Danone pretende que 45% dos seus principais ingredientes estratégicos sejam provenientes de fazendas envolvidas em agricultura regenerativa.
Ao mesmo tempo, a companhia também quer avançar na redução de açúcar do portfólio focado em adultos - o infantil já teve a meta alcançada -, ampliar ações ligadas à gestão hídrica, aumentar o uso de embalagens recicladas e reduzir desperdícios ao longo da cadeia.
Em relação ao adoçante, a meta é que, até o fim da década, 88% dos volumes vendidos de produtos lácteos e à base de plantas para adultos de consumo diário tenham 10 gramas ou menos de açúcares totais por 100 gramas de produto.
Diante disso, a produção rural se relaciona com as canetas emagrecedoras (medicamentos da classe GLP-1) pelo impulso de consumo que as proteínas devem ganhar.
"As pessoas que estão na jornada do GLP-1 perdem músculos e massa e nosso portfólio interessa nessa reposição. No fim, investimos em tecnologia para trazer mais saúde", disse Camilo Wittica, vice-presidente de assuntos jurídicos e corporativos da Danone.
O movimento ajuda a explicar por que marcas ligadas a proteínas vêm ganhando espaço dentro do portfólio da empresa, assim como também explica o motivo do leite continua ocupando uma posição central na estratégia da multinacional.
Segundo Wittica, a companhia utiliza tecnologias de separação por membranas para extrair diferentes frações do leite e direcioná-las para aplicações específicas, incluindo produtos proteicos como o YoPRO.
E essa aposta já entrou faz uns meses no operacional da Danone aqui no País. Em outubro passado, o AgFeed noticiou que a unidade de Poços de Caldas (MG) da empresa, principal unidade brasileira, focada na produção de produtos lácteos e bebidas à base de plantas, já estava sendo adaptada para atender o avanço das categorias proteicas.
A fábrica tem capacidade instalada para produzir cerca de 30 mil toneladas por mês, na época, operava com aproximadamente 40% de ociosidade.
A empresa projetava ampliar em cerca de 50% a capacidade de fabricação de produtos proteicos na unidade, numa estratégia justamente ancorada na leitura de que essas categorias - proteínas, nutrição funcional e bem-estar - devem crescer acima dos produtos lácteos tradicionais nos próximos anos.
A questão é que uma maior demanda por proteína normalmente significaria também uma necessidade maior de matéria-prima. Na visão da Danone, porém, o caminho não está necessariamente em ampliar a quantidade de vacas ou expandir áreas produtivas, mas sim em produtividade.
Hoje a companhia capta aproximadamente 500 mil litros de leite por dia junto a cerca de 230 produtores rurais. Aproximadamente 70% dessa base é formada por pequenos produtores, que no caso da Danone, produzem até mil litros de leite por dia.
"A nossa aposta é que através do Flora, através da transferência de tecnologia, eu consiga aumentar a produtividade e eficiência das fazendas usando os mesmos recursos", afirmou Rezende.
Desses fornecedores, 148 já participam da Jornada Flora, programa de agricultura regenerativa lançado pela companhia no final de 2023. Na meta para 2030, a empresa projeta alcançar 45% do volume dos principais ingredientes diretos chave provenientes de fazendas envolvidas em agricultura regenerativa.
Segundo os executivos, o projeto busca atuar simultaneamente em três frentes: redução de emissões, aumento da renda dos produtores e melhoria do bem-estar animal. Os números atuais do programa já ilustram esse apetite por aumentar a produção sem necessariamente crescer a bacia leiteira.
Enquanto a produtividade média da pecuária leiteira brasileira gira em torno de seis litros por animal por dia, propriedades que passaram pelo processo de tecnificação apoiado pela Danone conseguem alcançar patamares próximos de 24 litros por vaca diariamente.
O ganho ocorre através da adoção de tecnologias de manejo, nutrição, conforto animal e melhorias estruturais dentro das propriedades. Boa parte dessas transformações passa por sistemas mais intensivos de produção, como o compost barn, modelo que vem crescendo entre os fornecedores da companhia.
Mas a estratégia vai além da porteira e, dentro da Jornada Flora, a Danone criou uma central de compras para aquisição conjunta de insumos, buscando utilizar seu poder de negociação para reduzir custos dos produtores.
"Centralizando a compra dos principais insumos - principalmente aqueles ligados à nutrição e alimentação - repassamos para os produtores descontando do preço do leite. Nosso poder de negociação, obviamente, vai ser maior do que se eles comprassem diretamente", contou Taisa Costa, gerente sênior de sustentabilidade da companhia.
A companhia também desenvolveu mecanismos para facilitar o acesso ao crédito rural. Uma das iniciativas envolve contratos formais de fornecimento de leite, utilizados pelos produtores como garantia para obtenção de financiamento bancário.
Em parceria com o Banco do Brasil, a empresa estruturou uma linha específica para fornecedores do programa, que tomam empréstimos a juros abaixo do mercado. O volume disponibilizado passou de R$ 25 milhões em 2023 para R$ 50 milhões em 2024 e R$ 100 milhões em 2025.
Rezende afirmou que a Danone é uma das poucas empresas do setor que faz a compra de leite com um contrato que explicita o volume que será comprado. "Aquilo, no fundo, é um recebível. O produtor pode ir ao banco e pegar uma linha de crédito diferenciada, e isso dá uma tranquilidade para o produtor", cita.
A lógica por trás do programa, segundo ela, é fazer sustentabilidade e produtividade caminharem juntas.
"Não adianta olhar só para práticas de campo. Elas precisam ser combinadas com aumento de bem-estar animal e capacidade do produtor de continuar investindo", acrescentou Taisa Costa.
A executiva argumenta que a agricultura regenerativa adotada pela Danone possui uma abordagem mais ampla do que apenas práticas agronômicas. Além da redução de emissões, a companhia acompanha indicadores ligados à sucessão familiar, renda dos produtores, acesso a tecnologia e condições de produção.
Resumo
- Danone acelera aposta em saúde e nutrição com aquisições bilionárias e foco em proteínas, microbioma e bem-estar
- Pecuária de leite vira peça-chave da estratégia ESG; mais de 60% do leite já vem de fazendas regenerativas
- Relação com produtores envolve programa Flora, linhas de crédito com o BB e transferência de tecnologia