É normal que o desafio de conectividade rural no Brasil seja tratado como uma questão de infraestrutura. Na prática, faltam cabos, torres e até rodovias para que esse "apagão" seja sanado.

Na visão da espanhola Sateliot, porém, o desafio passa pela forma como as redes são construídas.

A empresa, fundada em 2018, concluiu recentemente uma prova de conceito em parceria com o CPQD (antigamente conhecido como Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicação), para validar uma tecnologia capaz de conectar dispositivos de internet das coisas (IoT) diretamente a satélites de baixa órbita, sem a necessidade de equipamentos proprietários ou adaptações específicas para comunicação espacial - de olhos bem abertos ao agro.

O teste foi realizado em uma área sem cobertura celular e teve como foco inicial uma aplicação voltada ao rastreamento bovino.

A iniciativa marcou a primeira demonstração comercial de conectividade em uma rede não terrestre (NTN) realizada no País, e abre caminho para o início da operação comercial da tecnologia nos próximos meses.

“Comprovamos não apenas que a tecnologia funciona em condições reais, mas também que pode ser implementada usando dispositivos padrão e a infraestrutura existente das operadoras”, afirmou Gianluca Redolfi, diretor comercial da Sateliot, em entrevista ao AgFeed.

A empresa opera com o que define ser a "primeira constelação de satélites de baixa órbita compatível com os padrões globais de telecomunicações definidos pelo 3GPP" - organismo responsável pelas especificações utilizadas pelas redes móveis ao redor do mundo.

Segundo Redolfi, a aposta da companhia sempre foi transformar a conectividade via satélite em um serviço mais democrática, e não em uma tecnologia restrita a nichos específicos.

“Uma tecnologia não existe de verdade até que possa ser adotada em massa. O que descobrimos é que a chave está nos padrões. Não adianta criar um sistema totalmente diferente. É preciso que ele funcione dentro do ecossistema que já existe", disse.

Na prática, essa constelação de satélites em órbita baixa da Terra (LEO), funciona como "torres de celular no espaço", estendendo a cobertura das operadoras de redes móveis para que dispositivos de IoT comerciais sem modificações se conectem mesmo em áreas remotas.

A principal diferença em relação a serviços de internet via satélite mais conhecidos do público, como a Starlink, por exemplo, é que se elimina a necessidade de antenas ou equipamentos específicos para conexão.

“Você não precisa comprar um dispositivo para satélite. É o mesmo dispositivo que já vem sendo usado pelas operadoras de telecomunicações e que agora também pode funcionar fora da área de cobertura”, acrescentou Redolfi.

A empresa estima que essa característica pode reduzir significativamente as barreiras de entrada para aplicações em setores que operam em regiões remotas, como agropecuária, logística, mineração, óleo e gás e monitoramento ambiental.

Embora o primeiro teste brasileiro tenha sido realizado com foco na pecuária, a Sateliot afirma que sua atuação está concentrada na oferta da conectividade, enquanto as aplicações finais ficam a cargo de parceiros e desenvolvedores.

“Se eu consigo medir alguma coisa, eu consigo melhorar”, afirmou Redolfi. “Na pecuária isso pode significar acompanhar posicionamento e saúde dos animais. Na agricultura, pode ser irrigar no momento certo, detectar vazamentos ou monitorar pragas. Existem inúmeras possibilidades", afirmou.

Para a empresa, o Brasil aparece como um dos mercados mais promissores justamente pela combinação entre extensão territorial e relevância econômica das atividades realizadas fora dos centros urbanos.

“Grande parte da produção acontece onde não existe cobertura celular adequada”, afirmou o executivo.

Do lado brasileiro, segundo Gustavo Lima, diretor de inovação e tecnologia do CPQD, o interesse pela tecnologia surgiu há alguns anos, quando o avanço das chamadas redes não terrestres começou a ganhar força dentro da indústria global de telecomunicações.

“O CPQD acompanha esse movimento há dois ou três anos. Quando identificamos que a Sateliot estava buscando parceiros para desenvolver aplicações e validar a tecnologia, entendemos que havia um encaixe muito interessante”, afirmou.

A colaboração entre as duas organizações começou há cerca de um ano e meio e evoluiu para uma série de testes realizados tanto na Espanha quanto no Brasil.

De acordo com Lima, o objetivo inicial foi avaliar a viabilidade de aplicações de IoT em áreas completamente desprovidas de cobertura celular.

“O Brasil tem cerca de 23% do território coberto por redes móveis. Todo o restante é o que chamamos de deserto digital”, afirmou.

Foi nesse contexto que surgiu a primeira aplicação voltada à rastreabilidade bovina. A ideia é aproveitar das mais de 230 milhões de cabeças de gado bovinas em um momento onde as pressões sanitárias e ambientais (consequentemente de rastreabilidade) pesam sobre os pecuaristas.

“Existe hoje um prêmio para quem consegue comprovar a origem desse gado. Dependendo do mercado, isso pode representar algo entre R$ 100 e R$ 300 por animal", estimou Lima.

O projeto ainda está em fase inicial, e o CPQD trabalha atualmente no desenvolvimento de protótipos que poderão futuramente ser transformados em produtos pela indústria nacional.

“Nós desenvolvemos a tecnologia, mas não somos fabricantes. O próximo passo é justamente buscar parceiros industriais para escalar essas soluções”, explicou, citando que uma ideia é arrumar uma empresa que fabrique brincos que possam se conectar aos satélites da Sateliot.

Apesar do foco inicial no gado, tanto a empresa espanhola quanto o CPQD enxergam oportunidades em diversos outros segmentos.

Na logística, por exemplo, a proposta é manter caminhões, cargas e equipamentos conectados mesmo durante trajetos que atravessam regiões sem cobertura celular.

"Talvez um caminhão passe 80% ou 90% do tempo dentro da área de cobertura, mas existem momentos em que ele fica horas ou até dias sem sinal, e é aí que os satélites entram", afirmou Redolfi.

Monitoramento ambiental, acompanhamento de barragens, controle de queimadas, infraestrutura de energia, mineração e operações de óleo e gás também aparecem entre os mercados considerados prioritários.

Para Lima, o principal diferencial está na viabilização econômica de projetos que antes não conseguiam sair do papel.

"A comunicação via satélite existe há décadas, mas a diferença é que agora ela chega com um custo muito mais baixo. Isso transforma aplicações que antes eram inviáveis em oportunidades reais de negócio", projetou.

A expectativa da Sateliot é iniciar sua operação comercial no Brasil entre setembro e outubro deste ano.

Resumo

  • Sateliot e CPQD validam no Brasil tecnologia que conecta dispositivos IoT a satélites sem antenas ou equipamentos proprietários
  • Teste focou rastreabilidade bovina em áreas sem sinal celular, e operação comercial deve começar entre setembro e outubro
  • Empresa espanhola mira agro, logística e mineração com proposta de levar conectividade ao "deserto digital" brasileiro

Gustavo Lima, diretor de inovação e tecnologia do CPQD