Uma das maiores empresas do mundo na fabricação de peças, tecnologias e serviços, a Bosch está testando uma ferramenta que pode ser decisiva para diminuir os níveis de emissão de CO2 de máquinas agrícolas e, consequentemente, acelerar a jornada de descarbonização do agro.

A companhia desenvolveu um sistema de retrofit de máquinas capaz de transformar colhedoras movidas a diesel em máquinas “flex”, que operam diesel e etanol simultaneamente.

A solução está sendo testada nesta safra em seis usinas de cana-de-açúcar espalhadas pelo Brasil.

De acordo com Matheus Pintor, chefe comercial da divisão de inovação e novos negócios da Bosch, o sistema consegue substituir até 60% do diesel por etanol sem comprometer a potência do motor.

“A gente brinca que o etanol é o futuro, mas ele também é o presente”, disse ao AgFeed Matheus Pintor, head comercial da área de dual fuel da Bosch.

A lógica da companhia partiu de uma provocação relativamente simples: como colocar o etanol nas máquinas que estão rodando campo rapidamente, sem depender da troca de toda a frota?

A resposta, segundo Pintor, da própria operação das usinas sucroenergéticas.

Isso porque uma única colhedora de cana pode consumir entre 100 mil e 120 mil litros de diesel por ano. E ao mesmo tempo, as usinas produzem o próprio etanol que podem utilizar como combustível. “Eles estão produzindo o próprio combustível que vão utilizar no sistema”, resume Pintor.

Dessa forma, a Bosch decidiu criar um kit complementar acoplado ao equipamento original. A empresa não fabrica motores, mas atua há décadas em sistemas de injeção, eletrônica embarcada e tecnologias flex fuel.

Na prática, o motor segue sendo originalmente diesel. O que o retrofit faz é adicionar um sistema da Bosch que injeta etanol junto ao combustível fóssil – o equipamento nunca opera com 100% de etanol, funcionando via diesel ou diesel combinado de etanol.

A limitação, segundo a Bosch, está ligada à preservação da potência original da máquina. “Nosso objetivo era garantir exatamente a mesma performance do motor. Para isso, chegamos a taxas de substituição de até 60%. Se a gente não estivesse preocupado com a potência, poderia se fazer uma substituição maior”, diz Pintor.

Curiosamente, o agro não foi o ponto de partida do projeto. O executivo da Bosch explica que a tecnologia começou a ser desenhada para caminhões gigantes de mineração, os chamados fora de estrada, usados para transportar centenas de toneladas de minério.

De acordo com o executivo, a Bosch iniciou os primeiros testes em bancada ainda no ano passado, usando motores de grande porte do setor mineral.

“O motor de mineração que usamos tinha 85 litros. O da colhedora é de 9 litros. São proporções completamente distintas mas tendo o know-how da tecnologia a gente consegue fazer adaptações”, afirmou.

Nesta safra de cana, a empresa levou a solução para operações reais em campo. Os testes estão acontecendo em diferentes regiões produtoras para validar desempenho em condições variadas de clima e terreno. Pintor prefere não revelar os nomes das usinas que estão participando do piloto, mas afirma que são de “diferentes portes”.

A escolha pelo retrofit também conversa com uma questão econômica, avalia Pintor. Isso porque trocar integralmente uma frota de colhedoras pode levar anos ou até uma década, dependendo do ciclo de renovação das usinas.

“Uma colhedora pode ter vida útil de cinco, sete ou até dez anos. Esperar a renovação completa da frota atrasaria muito a descarbonização da cadeia como um todo”, disse Pintor.

A proposta da Bosch é justamente antecipar essa transição usando máquinas que já estão em operação.

O movimento acontece em um momento de pressão crescente por metas ambientais tanto no agro quanto na mineração.

Grandes companhias do setor sucroenergético assumiram metas públicas de descarbonização para os próximos anos – e décadas. É o caso, por exemplo, da Tereos, que planeja zerar suas emissões de gases do efeito estufa até 2050.

Embora o foco inicial do projeto esteja nas colhedoras de cana, a Bosch enxerga potencial para levar a tecnologia a outras culturas e equipamentos agrícolas.

Motores de tratores, por exemplo, aparecem como candidatos naturais a receber a tecnologia pela similaridade técnica, avalia Pintor.

“O conceito é altamente replicável”, diz o executivo da Bosch. “Quando a gente olha para tecnologia como um todo, ela é altamente replicável em colheita de grãos, em outros tipos de equipamento, inclusive em motores maiores ou até menores.”

Pintor salienta, no entanto, que eventuais usos em outras máquinas requerem ainda avaliação. “Tudo vai depender, obviamente, de equipamento a equipamento”, diz.

A criação do kit diesel-etanol faz parte de um pacote de investimentos anunciados pela companhia recentemente. A Bosch captou R$ 521 milhões recentemente junto ao Finep e ao BNDES para reforçar linhas de pesquisa e desenvolvimento no Brasil, com foco no agro. Do montante total, R$ 9,2 milhões foram destinados ao projeto do retrofit diesel-etanol.

Resumo

  • Bosch está testando retrofit de máquinas utilizadas por companhias do setor sucroenergético
  • Com nova tecnologia, companhia promete substituir até 60% de uso do combustível fóssil por etanol
  • Piloto está sendo feito com seis usinas de cana-de-açúcar na safra atual