Uma das mais tradicionais empresas do mundo no setor de motores e soluções de energia vem cada vez mais prestando atenção no potencial de crescimento do agronegócio.
A presença da americana Cummins em feiras agrícolas, não só da Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), mas até em eventos regionais do Centro-Oeste, é o sinal de que a estratégia vem dando resultado.
A empresa atua em diferentes segmentos ligados a geração e gestão de energia, mas 32,3% da receita global – que foi de quase US$ 34 bilhões em 2025 – vem da fabricação e venda de motores, onde a marca é bastante reconhecida. Já os geradores de energia hoje respondem por 22,3% do faturamento da companhia.
Estes dois pilares – motores e geradores – estão bastante relacionados ao desempenho do agronegócio no Brasil.
“A Cummins aqui (no Brasil) tem mais de seis décadas no mercado e o off-highway (fora de estrada, que inclui máquinas e veículos pesados) sempre foi muito importante. Olhando para ele, só agrícola e construção representam 26% das vendas”, afirmou Maurício Biadola, diretor de vendas off-highway da Cummins Brasil, em entrevista ao AgFeed.
Na prática, ele diz que 11% da receita com motores tem relação com o agro. Os equipamentos são usados principalmente em pulverizadores e colheitadeiras.
Em 2025, apesar de todas as dificuldades que o setor de máquinas agrícolas enfrentou, o diretor da Cummins garante que as vendas de motores para o agro aumentaram. Houve uma alta de 25% na comparação com o ano anterior.
Já em 2026, Biadola admite, a fabricante de motores também começou a sentir os efeitos da maior cautela dos produtores para investir em maquinário, em meio ao cenário de crédito restrito e margens apertadas.
“Este ano a gente está sentindo mais uma acomodação no volume”, disse o executivo. Neste cenário, para 2026, as vendas de motores para uso agrícola devem ficar mais “flat”, na visão dele.
A expectativa futura, porém, é otimista. A previsão é crescer 24% até 2030. E boa parte deste crescimento deve vir da entrada da Cummins no mercado de tratores.
“O trator é uma fatia gigantesca, representa 80% do mercado agrícola. Então, a gente vai fortalecendo cada vez mais, expandindo as vendas do Brasil”, ressaltou.
Nos motores dos pulverizadores, a Cummins diz ter uma participação de mercado de 50%.
Para os tratores, a empresa está validando um motor estrutural com a XCMG. Há chances de que ele já esteja rodando no mercado brasileiro a partir de 2028.
O trabalho é de adaptação para as características necessárias nos tratores, na chamada estrutura monobloco, por isso houve um esforço de desenvolvimento por parte da Cummins, algo que foi liderado pela engenharia do Brasil. Um motor parecido está sendo desenvolvido para tratores na Argentina e na Europa.
Geradores em alta
O outro pilar que vem surfando a onda do agro na Cummins é o chamado “power generation”, com soluções de geradores de energia para fazendas e agroindústrias.
“Quando eu falo de grupos geradores, do que a gente vende dentro do mercado brasileiro, o segmento de agronegócio consome 30% da minha produção”, revelou Cora Reis, gerente executiva de vendas da Cummins Power Generation, que também conversou com o AgFeed.
Ela diz que a presença na Agrishow é importante para conversar com clientes do Brasil e também de outros países, mas lembra que as feiras regionais também ganham importância, já que em lugares mais distantes como Tocantins e Pará, por exemplo, existe uma maior necessidade do uso de geradores e baterias, em função da dificuldade de acesso às linhas de transmissão, em alguns locais.
“A gente entrou com o produto de geração de energia aqui no Brasil há mais de 50 anos, já atendia o agro. O que a gente percebe é que nos últimos 15 anos, o setor agro está mais tecnológico e por isso hoje ele demanda mais energia”, avalia Cora.
No topo da demanda estão os geradores que dão suporte aos trabalhos nas fazendas, principalmente aos sistemas de irrigação.
“Tem uma pequena parte que consegue pegar energia da concessionária porque tem linhas de transmissão. Mas grande parte, para a colheita, a irrigação, muitas vezes em lagos que tem dentro das fazendas, requerem geração de energia porque não tem linha de transmissão”, descreve.
A executiva relata que também tem crescido a demanda dos chamados “microgrids”, em que o agricultor tem o painel solar ligado ao gerador e, muitas vezes, a baterias.
Também são clientes da Cummins em geradores grandes cooperativas que precisam do equipamento para manter a temperatura nos silos, indústrias de proteína animal, em função de câmaras frias, entre outros.
Na avicultura, a presença do gerador para casos de interrupção no fornecimento de energia é a garantia de sobrevivência dos pintinhos nas granjas.
Diferente do setor de motores, no caso dos geradores, a Cummins diz que está conseguindo ajustar a estratégia para seguir crescendo em receita no agronegócio, mesmo no período mais desafiador.
“A gente sentiu nesses últimos quatro anos, com uma taxa de juros subindo, a gente teve uma questão cambial e isso fez com que eu tivesse que mudar um pouco a minha estratégia. Isso fez com que o agricultor, muitas vezes, não ampliasse a sua frota ou não renovasse a sua frota. Então nós focamos parte da nossa estratégia para o segmento de locação”, explicou.
A executiva diz que em 2025 registrou um crescimento nas vendas de 20% sobre o ano anterior. Em 2026, a previsão é avançar neste mesmo ritmo.
“A gente percebeu um crescimento do setor de locação. Então eu baixo um pouco a minha venda para o agricultor, mas eu aumento a minha venda para as empresas que locam os geradores”.
Outra estratégia tem sido o que a Cummins chama de “retrofit”, uma espécie de reforma do gerador para aqueles clientes que estejam adiando o investimento em novos equipamentos.
Reis fala que a rede de distribuição de polos agrícolas como Sinop (MT), Rio Verde (GO) e Campo Grande (MS) tem conseguido atender à maior demanda por esse serviço.
“Mas a gente está em um ano de eleição, vai ter aquela espera sobre qual vai ser a taxa de juros, a gente sabe que para o segmento agro em si, e para os geradores, o terceiro e o quarto trimestre vão ficar um pouco stand-by”, admitiu.
Um fator que pode impulsionar as vendas, segundo Cora, é a chegada do “super El Niño”. Eventos climáticos acabam refletindo na demanda por geradores.
Soluções sustentáveis
Muitos itens do portfólio da Cummins vêm sendo adaptados para dar maior mobilidade dentro das fazendas ou para oferecer melhor desempenho em relação às metas de descarbonização.
Neste aspecto, Cora Reis se mostra animada com um lançamento previsto para 2027 no Brasil. É o chamado BESS (Battery Energy Storage System), um banco de baterias que já chegou a alguns países da América Latina com 50 hertz e será lançado no mercado brasileiro com 60 hertz.
“A sobra de energia solar, que hoje esse agricultor por algum motivo não usa, ele armazena na bateria e quando ele tiver baixa de produção solar, ele pode usar o banco de bateria.
Ele é fácil de locomoção dentro de um caminhão, dentro de uma fazenda”, pontua.
A vantagem seria zerar emissões de gases poluentes ao usar as baterias, reforçando o apelo não apenas de eficiência financeiro, mas também ligado à sustentabilidade.
Nos motores, a Cummins também vem trabalhando em tecnologias alternativas para reduzir emissões.
Maurício Biadola diz que o motor tradicional a diesel nos últimos anos já foi aprimorado e hoje tem “98% de redução das partículas de poluição”.
Na Agrishow do ano passado, a fabricante também apresentou um motor conceito a etanol, que vem sendo testado com clientes.
“Ele (motor a etanol) é um exemplo de economia circular, porque ele usa o combustível que a usina gera, que vem das plantações de cana”, ressaltou.
A empresa também diz que seus motores a gás podem funcionar a biometano, mas por enquanto não há máquinas agrícolas rodando com o modelo no agro brasileiro.
“A gente já tem aplicação hoje com caminhão de lixo, já é uma tecnologia que está aplicada no on Highway. Ela pode migrar para o off Highway, assim como faz sentido o etanol. É uma economia também circular muito parecida”, afirmou Biadola.
O diretor acredita que no futuro também chegará ao Brasil uma plataforma global da Cummins, chamada Helm, que permite diferentes adaptações em uma mesma base de motor. “Ele vai se adequar ao tipo de combustível que você vai usar”.
No biodiesel, os motores da empresa estão adaptados para o B20 (no Brasil a mistura obrigatória segue em 15% no diesel), mas já está sendo desenvolvido o produto que chegará no futuro a funcionar com o B100.
“Por enquanto, o foco maior que está vindo do mercado, é o etanol”, admitiu Maurício. Ele acredita que quando a empresa chegar aos tratores, em 2028, há chances de já contar com o motor movido ao biocombustível também.
Tanto os motores quanto os geradores da Cummins são produzidos hoje na fábrica brasileira, que fica em Guarulhos (SP).
Os executivos afirmam que há capacidade instalada para ampliar produção, caso o mercado agro volte a reaquecer de forma mais intensa, como ocorreu após a pandemia, sem a necessidade de novos investimentos.
Os aportes da companhia têm se concentrado principalmente em pesquisa e desenvolvimento. Na área de motores, segundo Biadola, são R$ 50 milhões por ano.
Resumo
- Multinacional americana Cummins, de soluções de geração de energia, aumentou em mais de 20% as vendas de motores e geradores em 2025, com demanda do agronegócio
- Em 2026, negócio de geradores deve seguir crescendo no mesmo patamar, com a venda para locadoras, enquanto agricultores adiam novos investimentos
- Expectativa é aumentar vendas de motores para uso agrícola com a entrada no segmento de tratores, prevista para 2028