Quando se fala em picapes da Volkswagen, é impossível não pensar na tradicional Saveiro. Lançada em 1982 pela montadora alemã, a caminhonete compacta rapidamente conquistou o mercado e se transformou em um sucesso de vendas, tanto no uso urbano quanto no campo.
Quatro décadas e meia após sua estreia, com mais de 1,9 milhão de unidades produzidas, a Saveiro deve sair de linha entre o fim de 2026 e o começo de 2027, segundo informações da imprensa automotiva.
A expectativa do mercado é de que a Volkswagen coloque em seu lugar uma nova picape, conhecida até agora pelo nome Tukan, ampliando a disputa em um segmento cada vez mais estratégico no Brasil.
O movimento reforça uma transformação silenciosa da montadora alemã nos últimos anos: a aproximação cada vez maior com o agronegócio.
“O agro é estratégico para a Volkswagen”, afirma Leonardo Tosello, diretor de vendas da Volkswagen do Brasil, em entrevista ao AgFeed durante a Agrishow, maior feira de máquinas agrícolas do País, realizada no início do mês em Ribeirão Preto (SP).
Tosello explica que, em função da relevância para a marca, a montadora alemã estruturou há cerca de cinco anos um plano de atuação voltado especificamente ao agro, envolvendo desde presença em feiras, passando pelo patrocínio de eventos como o Circuito Sertanejo, festival itinerante do gênero musical, até o desenvolvimento de produtos e soluções financeiras adaptadas ao produtor rural.
“Criamos um plano 360° para nos aproximarmos do agro. Estamos nas principais feiras do setor e em ambientes onde o agro está presente. Mas quem realmente consegue chegar perto do produtor é a nossa rede de concessionárias”, diz Tosello, em referência à grande rede de mais de 500 concessionários espalhados por todo o País que a Volkswagen mantém.
Essa rede serve como apoio até mesmo para a presença da marca nas feiras agropecuárias espalhadas pelo Brasil. Na Agrishow, por exemplo, a própria Volkswagen ficou responsável pelo estande, mas, em geral, a marca utiliza sua rede de mais de 500 concessionários espalhados pelo País, que participam dos eventos com apoio financeiro da montadora.
Em paralelo, a Volkswagen vem acelerando o desenvolvimento de produtos a partir das experiências práticas no campo.
Um dos exemplos citados por Tosello é o Polo Robust, lançado em 2024, uma versão adaptada do automóvel urbano voltada ao uso rural.
“Fizemos muitos testes em áreas sucroalcooleiras no interior de São Paulo e vimos, por exemplo, que o carro raspava muito embaixo em estradas rurais. A partir disso, aumentamos a suspensão para adequar o produto”, afirma Tosello.
Além do Polo Robust, o executivo diz que a Volkswagen considera as picapes Saveiro e Amarok como parte do que chama internamente de “trio agro” da marca.
No ano passado, a Saveiro ficou atrás apenas da Strada, da Fiat, entre os comerciais leves mais vendidos, segundo dados da Fenabrave, com 67,7 mil unidades emplacadas. Já a Amarok registrou 2,7 mil vendas no período.
Entre os automóveis, o Polo liderou o ranking geral de vendas, com 122,6 mil unidades emplacadas no ano passado. O levantamento não diferencia a versão Robust das demais configurações do modelo.
Parcerias
A ofensiva da Volkswagen no agro também passa por soluções financeiras e comerciais para que os produtores consigam adquirir de diferentes formas os veículos da montadora. “São formas de aproximar a Volkswagen do produtor e facilitar o acesso ao crédito”, avalia Tosello.
A marca firmou, no início do ano passado, uma parceria com a agfintech Grão Direto para que os produtores conseguissem adquirir automóveis via contratos barter, ou seja, a partir da entrega de commodities.
Recentemente, um segundo passo foi dado nesse sentido com a entrada da marca na plataforma digital E-agro, do Bradesco, em março, marcando também o início das vendas de automóveis no marketplace do banco.
Outra frente foi a inclusão da Saveiro na linha de financiamento BNDES Finame, do banco público de fomento, voltada à aquisição de bens de produção fabricados no Brasil.
Tosello diz que a empresa também vem ampliando negócios com cooperativas agroindustriais. Uma das principais parceiras citadas pelo executivo é a Coamo, a maior cooperativa agroindustrial do Brasil, de Campo Mourão (PR), que recentemente realizou uma grande aquisição do Polo Robust para equipes de campo.
“A Coamo foi a primeira cooperativa a comprar em grande volume o nosso Polo Robust”, afirma o executivo.
Esse exemplo confirma a percepção de Tosello de que não são apenas as picapes que acabam chamando a atenção da cadeia do agro como um todo.
A Volkswagen também vendeu unidades do sedan Virtus, costumeiramente utilizado no meio urbano, para serem utilizadas por cooperativas em visitas técnicas e suporte comercial nas propriedades rurais.
“O Virtus é um carro visto muito mais como um carro de cidade, carro executivo, mas eles compraram porque queriam um carro para seus representantes comerciais pudessem visitar as propriedades rurais e fazer todo o suporte da operação rural”, afirma.
Embora a Volkswagen ainda não confirme oficialmente detalhes sobre futuros lançamentos, Tonello afirma que a montadora incluiu o segmento de picapes dentro do ciclo de investimentos de R$ 20 bilhões previstos para a América do Sul até 2028, sendo R$ 16 milhões no Brasil.
O pacote, anunciado em duas etapas entre 2024 e 2025, prevê 16 novos produtos para a América Latina.
“Vamos ter uma ofensiva de picapes que trará atributos muito alinhados às expectativas do mercado agro”, afirma Tosello.
Questionado sobre quais atributos pesam mais na comunicação com o produtor rural, o diretor de vendas da marca afirma que a Volkswagen aposta principalmente em confiança, durabilidade e pós-venda amparada pela rede de cerca de 150 concessionárias.
“O produtor vê o veículo como ferramenta de trabalho. Ele precisa confiar que o carro vai funcionar e que qualquer problema será resolvido rapidamente”, diz.
Tosello afirma que a Volkswagen também acompanha de perto o cenário mais desafiador vivido pelo agronegócio nos últimos anos, a “tempestade perfeita” que combinou preços agrícolas, maior dificuldade de crédito e aumento dos pedidos de recuperação judicial.
“Nós sabemos das dificuldades que o agro enfrenta. Por isso, trabalhamos junto com o Banco Volkswagen para criar soluções de financiamento e garantir acesso ao crédito”, afirma.
Em 2025, o Banco Volkswagen teve lucro líquido consolidado de R$ 1,06 bilhão, alta de 30,1% em um ano. A carteira de operações de crédito e arrendamento mercantil somou R$ 54 bilhões. Desse montante, R$ 364,1 milhões correspondem à crédito rural. Ao todo, a instituição diz que tem 94% de adimplência geral.
Já o lucro global do Grupo Volkswagen, que abrange todas as marcas do grupo como Volkswagen, Audi, Porsche, Lamborghini, entre outras, recuou 53% em relação a 2024, somando 8,9 bilhões de euros.
A receita com vendas do grupo seguiu estável, ficando em 321,9 bilhões de euros. No mercado brasileiro, houve alta de 8,4% nas vendas, somando 446.888 unidades entregues.
Resumo
- Volkswagen "acelera" estratégia para chegar mais próxima dos produtores rurais e, com isso, vender mais
- Montadora está prestes a aposentar picape Saveiro, que está há 45 anos no mercado
- Empresa vem intensificando presença em feiras e também no meio digital