Os resultados mais uma vez enfraquecidos da carteira de crédito rural do Banco do Brasil pressionaram novamente o lucro da instituição no primeiro trimestre de 2026, que foi de R$ 3,4 bilhões, queda de 53,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O agro não foi o único vetor a atrapalhar os resultados do banco. A XP Investimentos, por exemplo, em relatório assinado por Bernardo Guttmann, Matheus Guimarães e Guilherme Meneghetti, destaca que, no primeiro trimestre de 2026, os créditos atrasados iniciais de pessoas físicas avançaram mais de 2% na comparação anual, sinalizando pressão adicional à frente.
Ainda assim, as casas do mercado financeiro são unânimes em apontar o setor como principal drive de deterioração dos números do banco, percepção admitida pelo próprio BB ao justificar o aumento das provisões para perdas associadas ao risco de crédito.
O montante saltou de R$ 11,5 bilhões no início de 2025 para R$ 16,8 bilhões no primeiro trimestre deste ano.
“As perdas esperadas refletiram, principalmente, o aumento da inadimplência nas operações com produtores rurais. Diante desse cenário, implementamos medidas efetivas de enfrentamento, tais como a revisão de fluxos de cobrança, aprimoramento das garantias e priorização de desembolsos conforme a matriz de resiliência”, disse o BB ao analisar o desempenho.
Entre janeiro e março deste ano, a carteira de crédito rural até avançou 3%, encerrando o primeiro trimestre com R$ 418,4 bilhões. O nível de inadimplência, porém, continuou acelerado: nos atrasos acima de 90 dias, a taxa passou de 6,09% no quarto trimestre de 2025 para 6,22% no início deste ano.
Entre as linhas de crédito, no custeio agropecuário, a inadimplência acima de 90 dias já supera os dois dígitos e atingiu 10,56% em março. Nas operações de BNDES/Finame Rural, o índice ficou em 5,58%, enquanto no Pronamp chegou a 4,10% e, no Pronaf, a 2,74%.
A XP também está atenta ao comportamento de alguns vetores que já vinham pressionando o agro e, até aqui, não mudaram muito, como o aumento dos pedidos de recuperação judicial e os riscos relacionados à safra 2026/2027.
"O ritmo dos pedidos de recuperação judicial (RJs) continua se intensificando, mesmo após as medidas educativas implementadas no setor e em um período ainda marcado pelo recesso do Judiciário", avalia a XP.
De acordo com a gestora, após uma estabilização temporária em trimestres com menor volume de vencimentos, o número de recuperações judiciais voltou a ganhar tração no período recente.
"Somente em abril, que marca o início da temporada anual de vencimentos, o volume financeiro de RJs atingiu cerca de R$ 650 milhões, quase metade do observado em todo o 2T25, sinalizando uma dinâmica de crédito mais desafiadora à frente", diz a XP.
Para a Genial Investimentos, a normalização do agro “dificilmente” ocorrerá antes do segundo semestre de 2026, o que impacta diretamente, por ora, os resultados do BB.
Em análise dos resultados assinada por Eduardo Nishio, Alan Frydman e Vitor Sousa, a casa justifica sua tese ressaltando que os principais vetores de pressão seguem sem sinais claros de reversão no curto prazo.
"As recuperações judiciais no agro continuam elevadas; o fluxo de novos casos segue pressionado; grande parte dos vencimentos até julho ainda está associada a safras anteriores a jul/25, consideradas de pior qualidade; deterioração adicional observada também nas carteiras de Pessoa Física e Pessoa Jurídica", disse a gestora.
A Genial avalia que uma melhora mais consistente tende a se concentrar apenas na segunda metade de 2026, à medida que produtores rurais regularizem posições para acessar novas linhas de crédito, o ciclo da safra normalize gradualmente e a originação volte a ganhar tração em um ambiente menos estressado.
Já a XP demonstra preocupação com o andamento da safra 2026/2027 e afirma enxergar “clara deterioração na assimetria de risco” dos produtores rurais.
Por um lado, avalia a corretora, o cenário geopolítico “tende a pressionar os preços de fertilizantes para cima, movimento que pode ser agravado por uma janela de importação mais curta”.
Por outro, a valorização cambial combinada à expectativa de uma safra forte no Brasil deve continuar pressionando os preços agrícolas.
Na avaliação da XP, esse conjunto de fatores comprime as margens dos produtores, com impactos diretos e indiretos sobre o Banco do Brasil, especialmente por meio de uma originação mais fraca e da potencial deterioração da qualidade do crédito.
"Vemos espaço limitado para uma redução relevante de provisões ao longo do ano, mesmo considerando que as safras mais recentes possuem maior participação de colaterais reais e que a originação recente parece ter sido mais seletiva. Ainda que esse cenário já esteja refletido no novo guidance, entendemos que o risco de deterioração adicional não é desprezível", diz a casa.
A XP mantém recomendação neutra para o BB, com preço alvo de R$ 25. A Genial continuou com sua recomendação de "manter", com preço alvo de R$ 23,50.
As ações do BB na B3 abriram o pregão com forte queda, mas houve reversão do movimento ao longo da manhã desta quinta-feira. Por volta das 12h25, os papeis do banco apresentaram leve alta de 0,05%, cotadas a R$ 20,76 cada.
Resumo
- Banco do Brasil tem queda de 53% no lucro líquido no primeiro trimestre de 2026, somando R$ 3,4 bilhões
- Crédito rural foi um dos principais vetores de pressão do resultado
- Casas do mercado financeiro não veem melhora da situação no curto prazo