A Boa Safra começou 2026 reforçando uma tese que a companhia vem tentando construir há alguns anos: depender menos da soja nos períodos em que a oleaginosa está fora do calendário agrícola - em especial o primeiro e o segundo trimestre.
Pela primeira vez na história da empresa, culturas como milho, trigo, feijão e forrageiras superaram a soja em faturamento, ao mesmo tempo que a empresa da família Colpo comemora carteira recorde de pedidos, o que sinaliza um ano de crescimento na receita.
No balanço divulgado há pouco, na noite desta nesta terça-feira, 13 de maio, a companhia reportou receita líquida de R$ 132 milhões no primeiro trimestre, alta de 19% frente ao mesmo período de 2025.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) ficou em R$ 9,8 milhões no primeiro trimestre de 2026, revertendo o resultado negativo de R$ 15,4 milhões registrado um ano antes. A margem Ebitda foi de 7%.
O lucro líquido ficou em R$ 27,3 milhões, crescimento de 62% na comparação anual. O número, contudo, foi inflado por um efeito não recorrente ligado à venda das cotas remanescentes que a empresa ainda possuía do SNAG11, o Fiagro da Suno Asset.
Desconsiderando esse efeito, o "lucro líquido ex-SNAG11", ficou em R$ 3,7 milhões, uma queda de 36% em um ano.
“O resultado de R$ 3,7 milhões nesse trimestre não é o número que enche o olho, mas é pela razão do negócio. Temos aumentado o mix de outras culturas para que o período de janeiro a junho seja mais relevante na empresa, mas mesmo assim, o faturamento que mostramos é menos de 5% do que geralmente é a receita do ano", afirmou o CEO da companhia, Marino Colpo, em conversa com jornalistas para apresentar o resultado.
A principal notícia positiva do trimestre veio da carteira de pedidos. A Boa Safra encerrou março com R$ 1,5 bilhão em pedidos contratados, um recorde histórico e cerca de R$ 100 milhões acima do registrado ao final do primeiro trimestre do ano passado.
“A carteira de pedidos não deixa de ser uma espécie de guidance para o que vai ocorrer ao longo do ano”, prosseguiu Colpo. “Estamos bem satisfeitos com o número mesmo diante das dificuldades do setor". O número final de vendas, contudo, não se baseia só na carteira de pedidos.
Em 2025, por exemplo, a receita total da empresa foi de R$ 2,6 bilhões. Além de a carteira continuar a ganhar clientes no decorrer do ano, existem pedidos feitos "de última hora", o que acaba ajudando ainda mais o resultado final.
Mesmo com o cenário já dado de crédito restrito, Marino Colpo citou que a companhia tem ganhando participação de mercado por uma percepção de segurança financeira junto aos clientes e revendas.
“Muitos produtores têm visto a Boa Safra como porto seguro diante do cenário e a nossa vantagem competitiva que temos é a solidez no balanço”, disse o executivo.
Ele explica que parte desse avanço vem de uma estratégia iniciada há cerca de cinco anos, quando a empresa decidiu reduzir dependência das grandes revendas e ampliar sua presença regional.
Desde então, a companhia praticamente triplicou sua base de canais comerciais. O número de revendas clientes saiu de 308 em 2021 para 996 em 2025.
Apesar do avanço visto em outras culturas no trimestre, a soja continua sendo a estrela do negócio. Felipe Marques, CFO da empresa, citou que a Boa Safra aumentou sua área plantada de 275 mil para 320 mil hectares na comparação anual, enquanto a capacidade instalada em soja atingiu 280 mil big bags.
Segundo ele, a expansão busca dar mais flexibilidade operacional em um cenário climático mais desafiador para sementes, algo que deve reduzir a oferta de sementes no mercado.
“Nunca vivemos um ano com restrição de oferta tão forte como vimos na nossa história pós-IPO”, afirmou.
Segundo ele, diferentemente de fertilizantes ou defensivos, onde a oferta global pode até travar, ficar mais lenta ou mais cara, os produtos chegam ao produtor. Já as sementes dependem exclusivamente da produção realizada no ciclo atual.
O executivo explicou que o início da colheita em 2026 foi marcado por excesso de chuvas e uma seleção mais rígida da matéria-prima recebida dos produtores parceiros.
“Houve muita coisa descartada. Fomos criteriosos na entrada da matéria-prima. Se não tinha nossa validade, nem aparecia no balanço”, disse.
Segundo ele, a companhia mudou sua estratégia operacional neste ano justamente para evitar repetir o que ocorreu em 2025, quando internalizou volumes maiores e posteriormente precisou descartar sementes por problemas de qualidade.
Apesar do trimestre sazonalmente mais fraco para geração de resultados, a Boa Safra encerrou março mantendo uma posição robusta de liquidez, mesmo com um aumento na dívida.
O caixa e as aplicações financeiras da companhia totalizaram R$ 777 milhões ao fim do primeiro trimestre, acima dos R$ 663 milhões registrados um ano antes. Ao mesmo tempo, a dívida líquida consolidada avançou de R$ 519 milhões para R$ 848 milhões na comparação anual.
Segundo a Boa Safra, o movimento reflete principalmente o crescimento das receitas e, consequentemente, da necessidade de capital de giro, além do pagamento de juros e do reperfilamento da dívida para prazos mais longos.
Do total da dívida, apenas R$ 62 milhões vencem em menos de um ano, enquanto a maior parte das obrigações está concentrada em prazos superiores a 37 meses ( especialmente acima de 60 meses).
Um maior custo financeiro também pesou no resultado. As despesas financeiras cresceram 78% no trimestre, chegando a R$ 79,3 milhões.
O principal impacto, de acordo com a Boa Safra, veio de juros de empréstimos tomados, que saltaram de R$ 18,6 milhões para R$ 57,6 milhões relativos a CRAs emitidos em 2025.
Esse aumento do custo da dívida foi um dos fatores que pressionaram o lucro operacional recorrente da companhia no trimestre, segundo o próprio balanço.
O fluxo de caixa operacional ficou negativo em R$ 99,7 milhões, piora de 11% frente ao consumo de R$ 90,1 milhões registrado um ano antes. O consumo se dá pela sazonalidade: é de janeiro a março que a empresa começa a formar estoques da nova safra.
A própria expansão de vendas também tem sua parte nisso. A Boa Safra cita que, em 2023, quando tinha capacidade produtiva de 200 mil big bags e receita líquida acumulada de R$ 1,8 bilhão (nos doze meses até março daquele ano), a necessidade de capital de giro representava 8% da receita.
Agora, com capacidade ampliada para 280 mil big bags e receita acumulada de R$ 2,6 bilhões nos últimos 12 meses, essa proporção caiu para 4%.
Resumo
- Receita da Boa Safra cresceu 19% no trimestre e carteira de pedidos bateu recorde de R$ 1,5 bilhão
- Pela 1ª vez, milho, trigo, feijão e forrageiras superaram a soja em faturamento no início do ano
- Empresa elevou área plantada de soja para 320 mil hectares e vê restrição inédita na oferta de sementes