Se o segundo trimestre trouxe os holofotes para uma deterioração da carteira rural do Banco do Brasil e o terceiro consolidou o agro como principal vetor de pressão sobre o lucro, o quarto trimestre encerrou 2025 com a confirmação de que este foi o ano mais desafiador para o crédito rural da instituição na última década.
No balanço divulgado ao mercado na noite desta quarta-feira, 11 de fevereiro, o BB informou que sua carteira de agronegócio fechou em R$ 406,1 bilhões, crescimento de 2,1% em 12 meses e de 1,8% em relação ao último trimestre. O setor representa cerca de 1/3 da carteira total, de R$ 1,2 trilhão.
Do lado da qualidade do crédito, a deterioração seguiu no fim do ano. A inadimplência acima de 90 dias da carteira agro encerrou dezembro em 6,09%, mostrando um avanço constante entre os trimestres: de 3,16% no segundo trimestre para 4,84% no terceiro tri. Na carteira total, o indicador é menor, em 5,17%.
A inadimplência da carteira de pessoas físicas é similar à do agro, em 61,25%. A carteira PJ tem 3,63% de atrasos.
O avanço confirma que a deterioração do crédito rural não foi pontual. Ao longo do segundo semestre, operações que estavam sob pressão (atrasos de até 60 dias) migraram para atraso efetivo.
No balanço, o banco reforça que o movimento ainda reflete os efeitos da safra 2024/25, os pedidos de recuperação judicial no setor e a necessidade de reclassificação de risco sob as novas regras contábeis.
Em dezembro, dos R$ 406,1 bilhões da carteira agro, R$ 31 bilhões estavam no estágio 3, faixa que concentra operações já consideradas problemáticas, com atraso superior a 90 dias. No trimestre anterior, esse saldo era de R$ 25,6 bilhões. Ou seja, em três meses, o estoque de crédito problemático cresceu 21%.
Ao mesmo tempo, o estágio 2, que reúne operações ainda adimplentes, mas com aumento significativo de risco, encolheu de R$ 18 bilhões para R$ 14,8 bilhões. Longe de indicar melhora, o movimento sugere migração para o estágio 3: parte das dívidas que o BB considerava de um risco médio se transformaram em inadimplência efetiva no quarto trimestre.
O estágio 1, considerado saudável, concentra R$ 360,3 bilhões, cerca de 88% da carteira. São contratos em dia e sem deterioração relevante desde a concessão. Ainda assim, mesmo nesse bloco houve aumento da perda esperada, reflexo de um ambiente de risco mais elevado.
Com a piora na qualidade do crédito, o agro seguiu como principal vetor de pressão sobre as provisões. A perda esperada total da carteira rural chegou a R$ 39,1 bilhões em dezembro, ante R$ 33,5 bilhões em setembro. Agora, as provisões representam 9,6% da carteira.
A PDD total de toda a carteira do banco é de R$ 66,3 bi - o que faz do agro o responsável por mais da metade das provisões.
No estágio 3, por exemplo, dos R$ 31 bilhões classificados como problemáticos, R$ 24 bilhões já estão cobertos por provisões, o equivalente a 77% de cobertura. No estágio 2, mesmo sem inadimplência consolidada, a cobertura alcança 42,8%, refletindo a expectativa de que parte dessas operações ainda possa migrar para atraso.
O Banco do Brasil ainda cita no balanço que acelerou a reestruturação das dívidas rurais com base na Medida Provisória 1.314/2025, mesma norma que fez o banco apertar o laço em relação às perdas provisionadas.
O BB cita que em outubro iniciou os programas BB Regulariza Dívidas Agro e BNDES Liquidação de Dívidas Rurais, voltados à liquidação ou amortização de operações de custeio, investimento e CPR de produtores afetados por eventos climáticos entre 2020 e 2025. Até dezembro, foram contratados R$ 22,6 bilhões, distribuídos em mais de 15 mil produtores.
A estratégia é dar tempo ao produtor para reorganizar o fluxo de caixa e, ao mesmo tempo, conter a escalada da inadimplência.
Durante a COP 30, em Belém, o vice-presidente de Agronegócios do banco, Gilson Bittencourt, afirmou ao AgFeed que a expectativa da instituição era que a medida provisória ajudasse a melhorar o cenário ao permitir que produtores reequilibrem suas finanças.
Segundo ele, a maior parte dos produtores segue adimplente, mas há concentrações regionais e por cultura em que o aperto de caixa ficou mais evidente. O executivo citou uma combinação de fatores: parcelas de custeio prorrogadas por quebra climática, investimentos feitos em máquinas agrícolas no auge dos preços, arrendamentos contratados quando as margens estavam elevadas e financiamentos assumidos com juros mais baixos no passado.
“Tem um conjunto, especialmente produtores de maior porte, que pode ter juntado vários desses fatores e que agora está com o fluxo de caixa mais apertado”, disse Bittencourt na ocasião.
Na prática, o banco tenta evitar que dívidas pressionadas se transformem em calotes definitivos. Ao alongar prazos e reforçar garantias, a instituição busca estabilizar a carteira sem ampliar ainda mais o estoque de operações acima de 90 dias.
O BB registrou lucro de R$ 5,7 bilhões no trimestre, uma baixa de 40% em um ano. No acumulado de 2025, o lucro líquido bateu R$ 20,7 bilhões, queda de 45%.
Resumo
- Carteira agro do BB fecha 2025 em R$ 406,1 bilhões, mas inadimplência acima de 90 dias sobe a 6,09%
- Perda esperada da carteira rural atinge R$ 39,1 bilhões, ou 9,6% do total, e já responde por mais da metade da PDD do banco, que soma R$ 66,3 bilhões
- Banco acelera renegociações via MP 1.314/2025 e contrata R$ 22,6 bilhões em programas de regularização, enquanto lucro anual recua 45%, para R$ 20,7 bilhões