Aproveitando tanto uma janela de captação que voltou a se abrir e uma demanda de alguns investidores buscando alocar capital em Fiagros, a gestora Oby Capital voltou ao mercado.

A casa, criada há cinco anos em Ribeirão Preto (SP) e que hoje já soma R$ 2 bilhões sob gestão - com foco em fundos de renda fixa mas também com carteiras de ações e previdência -, está em busca de R$ 125 milhões para um novo fundo para alocar no agro.

A Oby já possui um veículo (Fiagro Lavoura, negociado pelo ticker LAFI11) de R$ 90 milhões, esse listado na B3 e que opera na estratégia buy to lease - a gestora compra a terra, arrenda para um terceiro (um produtor ou usina, no caso do fundo), e ele tem a opção de compra depois de alguns anos.

A ideia, segundo explicou Fabrício Echeverria, um dos sócios-fundadores da Oby, é replicar a estratégia nesse novo fundo. A diferença é que, ao invés de listado, será cetipado (aquele que negocia suas cotas num balcão organizado na B3 e não no pregão tradicional. A XP é a distribuidora do fundo e o público-alvo são investidores qualificados.

"Tem muitos investidores batendo à porta. Com o fundo listado ficamos conhecidos pela tese, e do lado dos fazendeiros, tem gente com patrimônio imobilizado, alavancado e com necessidade de liquidez. Acompanhando o momento da Selic alta, é propício", disse Echeverria, que também atua como CEO da Oby.

Segundo ele, a oferta até poderia ser maior, mas a casa prefere construir a tese lentamente com várias emissões menores no decorrer dos próximos meses. A escolha por não fazer um follow-on no LAFI11 e optar por um novo fundo, sem negociação no balcão tradicional, veio por observar investidores do varejo ainda assustados com o noticiário do agro.

"A XP nos propôs uma emissão cetipada para evitar essa 'ansiedade', mesmo com um produto que trata de terras, comprada sem deságio e volatilidade. Como gestora até preferimos listar, mas existe essa outra demanda também", acrescentou o executivo.

Marina Braga, gestora de portfólio da Oby Capital, acrescenta que há uma diferença na remuneração. Enquanto o retorno para os investidores do LAFI11 está atrelado ao indicador IPCA, o novo fundo está atrelado ao CDI. 20% das cotas do novo Fiagro serão subordinadas e compradas pelos próprios gestores e consultores da Oby.

O prospecto da emissão do fundo conta com um pipeline de possíveis ativos a serem investidos que inclui 5 mil hectares distribuídos entre o interior de São Paulo e Minas Gerais. As áreas somam R$ 387 milhões em valor de mercado (por isso a ideia é investir em apenas três fazendas no novo fundo), e são destinadas ao cultivo de cana-de-açúcar.

Mais uma vez, a ideia do novo fundo é replicar o que a gestora faz no Fiagro Lavoura. No fundo listado, o patrimônio conta com a Fazenda Lambari, uma área de 692,2 hectares de área total localizada na cidade de Sertaneja (PR).

As outras propriedades são arrendadas para usinas: a Fazenda Santa Fé, em Pirangi (SP), com 124 hectares de área total, é operada pela Usina Nardini e a Fazenda Santa Helena, em Jardinópolis (SP), tem 189 hectares e é arrendada para a Bazan.

As unidades foram compradas por R$ 45 milhões, R$ 11,5 milhões e R$ 22 milhões, respectivamente. Segundo a própria gestora, os valores de avaliação atual das unidades trazem avanços de quase duas vezes no preço pago nas duas primeiras unidades e de 50% a mais na terceira.

A remuneração do LAFI11 está numa faixa entre IPCA + 11% ou 12% e o novo fundo busca um retorno de CDI + 5,5% ao ano.

Echeverria cita que essa região - interior de São Paulo, norte paranaense e sul de Minas Gerais -, é onde a Oby enxerga menor risco frente a outras regiões agrícolas do Brasil. "Tem muita usina em volta em meio a uma disputa dos usineiros de quem compra mais terra. Ao mesmo tempo, possui toda a logística e infraestrutura do estado de São Paulo", diz.

Isso minimiza o risco do arrendatário optar por não comprar a terra ao final do contrato, segundo ele. "Entendemos que áreas de grãos em outros estados não têm uma liquidez tão alta, pois há poucos compradores potenciais. São culturas que exigem áreas maiores".

"Terras em São Paulo têm chance maior de potenciais interessados e a cultura [da cana] vem junto com isso, fazendo a liquidez ser maior e a área ser mais bem precificada numa eventual necessidade de venda. Se a opção de compra não for exercida, nós vamos a mercado, com risco muito menor", prosseguiu.

Marina Braga relembra que o fato da gestora ter nascido em Ribeirão Preto - apesar de ter hoje sede em São Paulo e outro escritório em Brasília (DF) - ajuda na expertise com as usinas.

A própria história dos fundadores ajuda a explicar o movimento. Marina Braga é da cidade de origem da empresa e acumula passagens por outras gestoras, como a também ribeirão-pretana FG/A, com atuação central no agro, e por bancos como o Goldman Sachs, onde sempre acompanhou de perto o setor.

Echeverria já atuou no BV, foi vice-presidente do Citi em Nova Iorque e diretor do UBS antes de fundar a Oby, em 2021. Outro fundador é Camilo Cavalcanti, que construiu sua carreira na área de gestão de fundos da Caixa, onde passou mais de uma década.

Até agora, a gestora não se vê atuando na vertical de crédito no agro, mas o CEO não descarta a possibilidade no futuro. "A gente entendia que o risco não compensava e agora vemos um pouco da ressaca disso no restante do mercado. Avaliamos a possibilidade, mas queremos construir uma tese de segurança no agro", disse.

Resumo

  • Oby busca R$ 125 milhões para novo Fiagro focado em compra e arrendamento de terras. Meta é comprar três propriedades
  • Gestora aposta em terras do cinturão sucroenergético de São Paulo para reduzir risco e dar liquidez
  • Outro fundo da casa, esse listado, já soma R$ 90 mi e opera na mesma tese