Ribeirão Preto (SP) - Saído diretamente da cidade de Omaha, a maior do estado americano de Nebraska, onde fica a sede da Lindsay, uma das maiores empresas globais de equipamentos para irrigação, para o poeirento interior paulista, o executivo americano Brian J. Magnusson bate ponto na Agrishow, a maior feira de máquinas agrícolas da América Latina, há cerca de 15 anos.
A cada edição que participa, vem sentindo um aumento na procura dos agricultores por pivôs e outras ferramentas de irrigação.
“Há uma década, irrigação ainda era um conceito mais novo. Hoje, todos conhecem, entendem o valor e buscam tecnologia de ponta e vêm à Lindsay para ver o que há de mais avançado”, relatou em entrevista ao AgFeed.
No ano passado, as vendas no Brasil contribuíram para que a comercialização internacional do negócio de irrigação da companhia crescesse 39%, chegando a US$ 294,2 milhões.
Ao todo, o negócio de irrigação vendeu US$ 568 milhões no ano passado, 11% a mais que em 2024. O ano fiscal da companhia se encerra em agosto de cada ano.
A operação brasileira hoje é o principal negócio da empresa fora da América do Norte – a Lindsay está presente também em outros 10 países.
“Nós estamos vendo um aumento de interesse no mercado no Brasil. Por aqui, os agricultores estão realmente entendendo o valor e o retorno em investimentos que a irrigação podem gerar”, disse Magnusson.
Para este ano, a expectativa é de crescimento, ainda que fatores como guerra no Oriente Médio, juros ainda altos e dificuldades financeiras dos produtores tragam muitas incertezas para a empresa.
“Não tem como prever o que vai acontecer, infelizmente. A projeção de curtíssimo prazo está muito prejudicada. Mas o que a gente vê é que a força de nossa marca têm aumentado”, relata Claudio Candido Lima, que atuava como CEO da Lindsay no Brasil e, recentemente, assumiu o posto de VP de Irrigação para América Latina da marca.
“Felizmente, o interesse e a quantidade de cotações já está superando o ano passado”, emendou o diretor comercial, Cristiano Trevisam.
Nos balanços iniciais do ano fiscal de 2026, a Lindsay tem reportado queda de vendas no Brasil.
Mas, apesar dos fatores cíclicos, que interferem na operação brasileira, o board global da Lindsay vê espaço até mesmo para um crescimento ainda maior da operação no Brasil.
“Acreditamos que o potencial do Brasil nos próximos 20 anos é de se tornar o maior mercado de irrigação do mundo. É inevitável”, diz Magnusson.
Para justificar sua tese, o executivo americano argumenta que o país hoje tem uma vasta quantidade de áreas plantadas, mas que uma pequena parcela dessas áreas é irrigada.
“O Brasil é provavelmente o maior ou certamente um dos mercados de crescimento global mais rápido. A quantidade de áreas plantadas no Brasil é enorme, mas hoje apenas uma pequena porcentagem dela é irrigada”, analisa Magnusson.
Além disso, o executivo destaca que as mudanças climáticas, que vêm aumentando a variabilidade das safras, também têm impulsionado a demanda por irrigação.
“É por isso que acreditamos que o potencial do Brasil nos próximos 20 anos é de se tornar o maior mercado de irrigação do mundo. É inevitável.”
Os argumentos de Magnusson batem com os números de um levantamento realizado pela Embrapa, publicado pelo AgFeed no final de 2024, que mostrou haver então no Brasil 33.846 equipamentos pivôs de irrigação instalados, cobrindo uma área de 2.200.960 hectares.
Em um ano, segundo o estudo, houve um acréscimo de 140.842 hectares e 3.807 dispositivos.
No total, considerando todas as tecnologias disponíveis, a agricultura nacional tem 9,2 milhões de hectares irrigados.
De acordo com os pesquisadores da Embrapa, o País poderia chegar a pelo menos 30 milhões de hectares irrigados sem causar danos à natureza.
Para capturar esse crescimento, a Lindsay aposta na expansão e qualificação da rede de distribuição, considerada um dos principais ativos da empresa no país.
Hoje, são 22 distribuidores dos produtos da empresa – entre eles estão cooperativas como Coplacana, Cocari, Coamo e Cocamar – que juntos somam mais de 200 pontos de atendimento.
A atuação é nacional e acompanha a própria dinâmica climática do país, com força no Sudeste nas culturas de citros, café e grãos, em Mato Grosso e Goiás no Centro-Oeste, no Rio Grande do Sul na região Sul e no Matopiba na região Nordeste “Hoje temos pivôs até em Roraima, onde chove bastante”, conta Claudio Candido Lima.
A empresa mantém uma fábrica em Mogi Mirim (SP) e sede administrativa em Campinas (SP), com possibilidade de novos investimentos industriais dependendo da evolução da demanda, segundo o VP da empresa na América Latina.
Do ponto de vista comercial, os executivos da Lindsay avaliam que, mesmo com o cenário macroeconômico desafiador, a irrigação continua sendo prioridade para muitos produtores.
“Temos visto os clientes, muitas vezes, preferindo fazer um investimento em irrigação do que fazer uma renovação de máquinas, porque a irrigação efetivamente mexe com a produtividade”, argumenta Claudio Candido Lima.
Essa dinâmica ficou evidente no período recente, emenda o VP, depois de o Banco Central ter dado sinais de que não iria, no curto prazo, fazer novos cortes na taxa Selic em função do agravamento do conflito no Oriente Médio. A Lindsay registrou, na sequência, aumento no volume de pedidos.
“O produtor entendeu o seguinte: se eu não vou ter o custo da oportunidade lá na frente, preciso investir porque, quando chegar o momento do plantio, o pivô precisa estar instalado”, diz. “O produtor tenta achar o momento certo de investir. Mas sabe que não pode deixar de investir.”
Cristiano Trevizam, diretor comercial da Lindsay na América Latina, destaca que a dinâmica dos produtores que adotam irrigação acaba sendo diferente dos agricultores que não adotam.
“A inadimplência é menor que 0,5%, segundo informações de bancos parceiros que temos. Isso acontece porque o produtor tem mais estabilidade de produção”, estima.
Resumo
- Americana Lindsay aposta em estratégia de longo prazo no Brasil, visando gap de áreas irrigadas
- Companhia registrou estabilidade nas vendas, que contribuíram positivamente para resultado global em 2025
- Expectativa para 2026 é de crescimento, ainda que fatores macro interfiram na projeção