A competividade para produzir fertilizante no Brasil sempre foi um desafio – não é à toa que o País é grande importador do produto – mas em tempos de guerra no Irã a situação vem ficando mais crítica, gerando reflexos até em gigantes, líderes de mercado, como a Mosaic.
A empresa fez mudanças importantes nos últimos meses que marcam uma estratégia de usar mais matéria-prima importada, a venda ou paralisação de fábricas minas no País, com foco na “otimização de resultados”. Os movimentos surpreenderam o mercado e inclusive chegaram a suscitar rumores de que a companhia estaria cogitando até mesmo deixar o mercado brasileiro.
Essa questão foi feita diretamente pelo AgFeed, em entrevista exclusiva com o country manager da Mosaic, Eduardo Monteiro. A resposta foi contundente:
“Não, o nosso compromisso com o Brasil é inabalável”, afirmou. “As mudanças que nós fizemos são pontuais em termos de diversificação de portfólio, para aumentar nosso nível de retorno. Porém, nosso compromisso de longo prazo permanece, aumenta, e o nosso desafio agora é ampliar nossa participação nesse mercado”.
As ações “pontuais” mencionadas pelo executivo são consistentes, porque incluem venda de ativos e paralisação da produção de alguns itens dentro do Brasil.
A primeiro delas foi a venda da única mina de potássio do Brasil, o complexo Taquari-Vassouras, no estado de Sergipe. Como mostrou o AgFeed, a VL Mineração (hoje chamada Stratos), controlada por Valere Batista, irmã de Joesley e Wesley, da JBS, concluiu a aquisição da mina em novembro do ano passado, por US$ 27 milhões.
“Aquela mina de potássio, para que a gente continuasse extraindo, demandaria um investimento importante para aumentar sua vida média útil. Então, a gente encontrou um potencial comprador que estava propenso a fazer esse investimento. Era um site em que o investimento demandado traria uma taxa de retorno inferior àquilo que a gente entende que deveria ser. E foi por isso que a gente optou por vender”, explicou Eduardo Monteiro.
Na prática, com este movimento, a Mosaic deixou de produzir 500 mil toneladas de cloreto de potássio. Uma parte era usada pela própria empresa, nos seus produtos, e outra era comercializada no mercado.
“Em termos de relação comercial, a gente tem a opção de comprar deles (Stratos) ou trazer das nossas minas de potássio lá do Canadá. Ali é uma mina que, regionalmente, atende o Nordeste. Então, para demandas pontuais no Nordeste, desde que justifique o seu meio logístico, a gente compra deles. Agora, para o restante do Brasil, a gente está trazendo tudo do Canadá”, pontuou.
Em dezembro de 2025, a Mosaic tomou mais uma decisão no sentido de interromper parte da produção de fertilizantes. Comunicou ao mercado uma “parada temporária” na fabricação de superfosfato simples (SSP) em Araxá, Minas Gerais, e na unidade chamada de Fospar, em Paranaguá (PR).
Eduardo Monteiro revelou ao AgFeed que a paralisação em Paranaguá foi mesmo temporária. Teria ocorrido entre dezembro do ano passado e março deste ano. “Na Fospar, nós voltamos. Em Araxá, não voltamos porque a situação só se deteriorou”, disse.
Nas operações em Minas Gerais, a decisão foi mais radical. No início deste mês, a Mosaic anunciou que estava não apenas paralisando, mas também colocando à venda a planta de Araxá.
Neste local, a Mosaic produzia 1 milhão de toneladas de SSP, que agora serão importadas de unidades da empresa de fora do Brasil, como Peru e Canadá.
“Era um site produtivo que já vinha passando por desafios financeiros importantes, porque a mina de Araxá já estava completamente exaurida e o minério que a gente trazia era de outra localidade, de Patrocínio (MG). E, para você movimentar esse minério, tem um custo logístico importante”, lembrou Monteiro.
A matéria-prima fundamental para fazer o SSP é o enxofre. Segundo o executivo, antes mesmo da guerra, o preço desse derivado do petróleo já vinha subindo.
“O enxofre que, historicamente, custava US$ 100 por tonelada. Ali em dezembro, quando a gente anunciou a paralisação temporária, era independente da guerra, tinha chegado a um patamar de US$ 550”.
A alta vinha ocorrendo porque a fabricação de baterias para carros elétricos passou a demandar muito mais enxofre, globalmente. E, se de um lado havia aumento na demanda, de outro ocorreu um impacto na oferta. A Rússia, que antes exportava, passou a importar, em função dos efeitos da guerra com a Ucrânia.
O country manager da Mosaic diz que, historicamente, o enxofre representava um terço do preço do MAP (um importante fertilizante fosfatado).
“Para você fazer uma tonelada de MAP você precisa de 400 quilos de enxofre, então é um item relevante. Mas quando bateu os 500 dólares (preço do enxofre), essa relação de preço estava muito próxima a 1 para 1. E por que o preço do MAP não tinha subido na mesma proporção? Porque as commodities agrícolas, como soja e milho, dão o tom também da formação dos preços de insumos. E naquele momento, você não tinha um espaço significativo (para subida de preço)”, ressaltou Monteiro.
Quando veio a guerra no Irã, o cenário ficou ainda mais complicado. Segundo ele, no Brasil é possível encontrar oferta de enxofre a US$ 1,3 mil por tonelada.
“Essa situação temporária, que já era desafiadora e que nos causava prejuízo, passou a ser muito maior. Isso só antecipou a nossa decisão de paralisar, aí sim de forma permanente, e disponibilizar o ativo para a venda”, contou o executivo.
Monteiro diz que os movimentos em Sergipe e Minas Gerais estão “atrelados a uma estratégia de otimização de resultados, onde a Mosaic está analisando sua carteira de ativos”.
“Somos uma empresa de capital aberto, precisamos prestar contas aos acionistas e estamos fazendo isso. Agora em nenhum momento isso significa que a gente está deixando o Brasil”.
Ele pontua que os recursos com a venda da mina de potássio, por exemplo, foram reinvestidos no negócio, com a ampliação do portfólio de bioinsumos no Brasil.
Mercado em queda
A Mosaic avalia que paralisação em Araxá não deve trazer mudança significativa na participação de mercado no Brasil.
“A gente está tirando 1 milhão de toneladas de capacidade de super simples. A gente tem minas aqui no Brasil e tem também produção fora do Brasil, nos Estados Unidos. A gente tem minas de fósforo no Peru. Então, dentro desse contexto, nós não pretendemos perder a nossa participação”, afirmou o country manager.
Ele admite, no entanto, que haverá um processo gradativo de substituição destes 1 milhão de toneladas por produtos de outras localidades, inclusive de terceiros, não apenas da Mosaic, algo que “não pode ser feito do dia para a noite”.
A expectativa de manter o market share também está relacionada a um sentimento no mercado de que, este ano, com preços tão altos e disponibilidade limitada, o total de entrega de adubos no Brasil possa ficar abaixo de 2025.
“O que a gente observa é um atraso importante de mercado em relação ao que a gente deveria vender e o que está sendo comprado. Por quê? Porque hoje você tem preços muito altos, relações de troca muito baixas, e isso vem inibindo a vontade do produtor em tomar suas decisões. A situação econômica do produtor brasileiro, perante essa relação de troca, também indica que, este ano, nós teremos fatalmente uma redução de tecnologia”, avalia.
Monteiro alerta que é necessário muito cuidado por parte do agricultor. Ele diz que a safra recorde do último ciclo foi acompanhada de um recorde nas entregas de adubos. Reduzir tecnologia agora pode significar ter menos receita, “o que pode afundar ainda mais o agricultor”.
Ele não arrisca dizer de quanto deve ser a redução do mercado de fertilizantes do País, porque ainda é cedo. “Mas, potencialmente, essa redução que a gente fez na nossa produção (da Mosaic) será absorvida pelo mercado no primeiro momento”.
O fato é que as importações de determinados produtos já vêm caindo em 2026. No total, a queda de janeiro a meados de abril é de apenas 2% porque o cloreto de potássio não está sendo tão impactado pela guerra, a conta ainda fecha, por isso houve alta de 10%.
No caso da ureia, fertilizante que depende dos derivados de petróleo do Oriente Médio e é muito necessário na segunda safra de milho do Brasil, o recuo foi de 12%.
O alerta mais significativo são as importações do fosfatado MAP (que depende do enxofre), que caíram 30%. Entre os fatores que contribuem para esse cenário está a decisão da China de proibir exportações de fósforo e de ácido sulfúrico, produto fundamental para produzir fertilizante fosfatado.
Outro fator de incerteza, lembrou o executivo, é a disponibilidade de crédito, que também poderá impactar o mercado de adubos este ano.
A estimativa é de que 42% do volume inicial esperado para a safra 2026/2027 de soja já tenha sido comercializado. O cálculo leva em conta as 49 milhões de toneladas do ano passado. Por isso, se o mercado for menor, esse percentual aumenta.
Nesta mesma época de 2025 já haviam sido vendidos 57% dos adubos para o plantio, que começa em setembro.
Segundo Monteiro, em sua maior parte, os agricultores que já compraram são aqueles mais estruturados financeiramente, que fazem gestão de risco e não dependem tanto de financiamento.
Agora, deve vir uma demanda de quem depende das linhas de crédito, em momento de maior rigor por parte dos bancos, em função de todas as instabilidades do mercado.
“A nossa preocupação recorrente é a concentração. É natural que o agricultor queira esperar, mas por toda a conjuntura que foi desenhada, por mais que o conflito acabasse hoje, a gente já consegue identificar que tem alguns impactos importantes nas refinarias no Oriente Médio. Elas são responsáveis pela produção de gás natural, para produzir amônia e ureia, e enxofre, para produzir fertilizantes fosfatados”, ressaltou.
“Não conseguimos afirmar que, a guerra acabando agora, os preços vão ser corrigidos automaticamente. Nossa visão é que não. Demandará um tempo. E quando você olha o ciclo de fabricação dos nossos produtos, pode demandar de 3 a 4 meses, nesse prazo, a safra do Brasil já foi”.
Quando a guerra começou, o preço do MAP era de US$ 630. Hoje já está acima de US$ 900. “E toda semana aumenta”.
Em relação, ao crédito, dentro da Mosaic, ele afirma que a estratégia também tem sido ser mais criterioso.
“A gente tem procurado fortalecer a nossa relação com os nossos parceiros comerciais que têm uma solidez financeira maior. Temos feito escolhas mais seletivas e, fatalmente, diminuindo volumes com aqueles com situação financeira mais fragilizada”.
A empresa garante não registrar aumento na inadimplência. No ano passado, diz Monteiro, “teve apenas três casos de recuperações judiciais que nos impactaram, dois deles segurados. No universo em que você tem 1.600 recuperações judiciais e que você representa de 17% a 20% de mercado, é muito pouco”.
Apesar disso, ele diz que eventualmente a decisão tem levado a fazer escolhas que resultam em vendas menores, mas por uma questão estratégica, de não se expor a determinados riscos.
Terras raras e bioinsumos
Um outro ativo da Mosaic que foi paralisado é a mina de Patrocínio, em Minas Gerais. Mas ao contrário de Araxá, o local não foi colocado à venda. Pelo contrário, a mina pode representar uma oportunidade futura de negócio para a multinacional.
“O minério que Araxá utilizava vem da mina de Patrocínio, uma mina que a gente apenas paralisou. Ela não está disponível para venda porque a gente tem dois projetos importantes de estudos de viabilidade econômica de exploração de nióbio e de terras raras, que, combinados com fertilizantes, tem um valor importante a ser descoberto, a ser explorado”, contou Monteiro.
Ele diz que os estudos de viabilidade no local estão em fases iniciais. A multinacional americana não informa quais os prazos para que as avaliações sejam finalizados e as operações sejam retomadas em Patrocínio, mas é fato que a exploração de terras raras está entre os projetos prioritários no Brasil.
Em março deste ano, um comunicado global da Mosaic informou que a empresa, em conjunto com Rainbow Rare Earths Limited, realizou “uma análise econômica preliminar que teve um resultado favorável”. Por isso, as companhias fecharam um acordo para avançar com um projeto de terras raras, em Uberaba, Minas Gerais.
Após o estudo de viabilidade definitivo, será criada uma joint venture para começar a construção de uma unidade em 2027, com previsão de início da produção em 2030.
“Antes de a gente encerrar essa avaliação (em Patrocínio), não vamos tomar uma decisão. Mas a mina está lá, tem reserva de fósforo, e a gente pode usar essa reserva de fósforo, inclusive futuramente, para as nossas operações”, admitiu.
Em Patrocínio, será mantida uma estrutura mínima, por enquanto, “para ter a manutenção do site requerido para que não comprometa a integridade operacional”.
O mesmo deve ocorrer em Araxá até que um possível comprador assuma o local. “A única diferença é que, em Patrocínio, nós não vamos nos desfazer do ativo, não é nosso objetivo”.
A operação da Mosaic no Brasil segue com tamanho expressivo. Há unidades produtivas de fertilizantes que funcionam normalmente em Cajati (SP), Catalão (GO), Paranaguá (PR), Tapira (MG) e Uberaba (MG). Também há misturadoras em Candeias (BA), em Palmeirante (TO), Rio Verde (Goiás), Rondonópolis (MT) e Sorriso (MT).
Em Tocantins, a unidade foi inaugurada em julho de 2025 com intenção de chegar a 1 milhão de toneladas de fertilizantes produzidos por ano em 2027.
Na conversa com o AgFeed, o country manager da Mosaic admitiu que o mercado mais desafiador poderá alterar o ritmo do “ramp up” em Palmeirante, mas por enquanto as previsões estariam mantidas.
“Inicialmente, nosso compromisso inicial era fazer aproximadamente 500 mil toneladas. Fizemos muito próximo disso, um pouquinho menos, mas a diferença não é tão material. Direcionalmente, a meta de 1 milhão de toneladas não muda. O que pode acontecer, dependendo do tamanho de mercado este ano, é postergar parte de 2027 para um pedaço de 2028”, disse.
O principal foco da multinacional no momento é o pilar chamado de “Mosaic Biosciences”, de bioinsumos, lançado no Brasil em 2023, um pouco depois dos Estados Unidos.
A receita que já vem sendo alcançada com os bioinsumos no Brasil não é divulgada. No balanço global, do quarto trimestre de 2026, a empresa informou que a Mosaic Biosciences mais que dobrou o faturamento, “chegando a US$ 68 milhões, com previsão de dobrar novamente em 2026”.
Ainda assim, é um resultado tímido, considerando que a receita total da empresa no trimestre foi de US$ 2,97 bilhões. No Brasil, quando lançado o projeto, os executivos da Mosaic disseram ao AgFeed que o plano era chegar em US$ 100 milhões em 2030, mas os resultados obtidos até agora não têm sido divulgados.
“O que eu posso dizer é que a gente entregou exatamente o que se comprometeu e com uma tendência de alta”.
Indagado sobre a meta de US$ 100 milhões, Monteiro afirmou: “As nossas ambições cresceram”.
“O Brasil é um dos maiores mercados de insumos agrícolas do mundo e nós, como o maior player de nutrição e com nossas ambições crescentes de bionutrição, só este ano estaremos lançando três novos produtos”, destacou.
Na Agrishow 2026, a Mosaic deve lançar um produto que aparece na linha do Bioscience, porém não é um biológico. Trata-se do organomineral BioBlend.
“É uma mistura de fertilizante mineral com carbono que faz com que a microbiota do solo se regenere, a planta seja capaz de aprofundar sua raiz, se alimentar melhor e, consequentemente, produzir melhor”, explicou.
Na visão da empresa, em momento de escassez e possível redução do consumo de fertilizantes tradicionais, este tipo de produto pode ser um aliado para amenizar o impacto ao agricultor.
Ele lembrou que a venda de ativos ajudou a financiar a expansão da plataforma de bioinsumos, que já conta com 7 produtos registrados. Uma das novidades recentes também foi a entrada no mercado de fertirrigação, com a linha chamada HydroBalance.
“A gente precisa apresentar melhores taxas de retorno dos ativos que a gente tem investido aqui. Então a gente foi seletivamente excluindo os ativos que tinham as menores taxas, de forma que os ativos que permanecem são os ativos que têm as melhores taxas”.
“Estamos diversificando nossa atuação do biológico, que ainda é pequeno, indo para a fertirrigação, que ainda é pequena, mas que tem níveis de retorno melhores. Eles não vao me dar uma resposta imediata. Mas é uma questão de 5 anos para ser relevante e mudar o patamar de rentabilidade do nosso negócio de distribuição”.
Outra vantagem do biológico – para quem fabrica e para o cliente – é o fato de a produção ser feita no Brasil, com insumos disponíveis aqui, diferente do tradicional NPK.
Lançamentos recentes no mercado brasileiro foram feitos com parceiros locais, mas no Paraguai, por exemplo, a Mosaic acaba de lançar o PowerCoat, um produto líder de vendas em outros países, de tecnologia da própria empresa, mas que no Brasil ainda não chegou em função da legislação. A empresa aguarda a regulamentação da nova lei de bioinsumos.
O executivo diz que a Mosaic do Brasil vem crescendo mais do que a operação de outros países, até mesmo da China, e espera acelerar esse desempenho em 2026. A estratégia é cada vez mais foco em “portfólio de performance e não de commodity” no País.
Resumo
- Mosaic vende ativos, reduz produção local e passa a importar mais matérias-primas para tentar otimizar resultados
- Empresa afasta rumores, reforça compromisso com o Brasil e aposta em bioinsumos e fertirrigação como vetores de crescimento
- Guerra, crédito restrito e preços altos pressionam o mercado, com risco de queda no uso de fertilizantes