Enquanto a maior parte da indústria de máquinas agrícolas vive um período de queda de vendas, com a retração dos investimentos por parte dos produtores das principais culturas agrícolas, uma fabricante do interior paulista vem, abrindo mercados e vendo o caixa crescer longe dos holofotes.
Com sede na pequena Pindorama, já há alguns anos a Indústrias Colombo trilhou um caminho de “comer pelas beiradas”, investindo em diversificação e apostando em cultivos menos badalados, mas nem por isso menos lucrativos.
“A gente está muito posicionado em algumas culturas específicas de nicho. E alguns desses nichos vieram bem”, resume Neto Colombo Neto, COO e representante da terceira geração da família fundadora da companhia, que tem nos produtores de amendoim seus principais clientes.
O bem, em números, pode ser traduzido em um crescimento de 12% em 2025, ano em que o segmento de máquinas agrícolas encolheu no País. A receita da empresa saltou de R$ 533 milhões em 2024 para R$ 601 milhões no ano passado, puxada principalmente pelo desempenho de equipamentos para a cafeicultura, além do crescimento da área plantada com amendoim no Brasil.
Assim, se os resultados estão vindo, empresa vai mantendo o olhar apurado para identificar novos mercados ainda pouco explorados e com potencial inclusive para exportações.
Na Agrishow 2026, por exemplo, a Colombo apresenta um produto inédito voltado para a cultura da pimenta-do-reino, especiaria que tem o Brasil como segundo maior produtor e exportador mundial, com 125 mil toneladas colhidas por ano, segundo o IBGE.
No ano passado, até novembro, as exportações do produto movimentaram quase US$ 300 milhões (Cerca de R$ 1,5 bilhão no câmbio atual).
A inovação desenvolvida pela empresa e comercializada com a marca MIAC, empresa do grupo voltada para suas máquinas e implementos agrícolas, é uma recolhedora trilhadora, primeiro equipamento no mundo a trazer mecanização para a colheita da pimenta-do-reino, hoje feita de forma totalmente manual.
A cultura ocupa em torno de 50 mil hectares no País, concentrados sobretudo nos estados do Espírito santo, Bahia e Pará. “Quando a gente olha no mercado brasileiro, é uma área pequena, mas que é uma área em que existe uma uma demanda específica pra colher que ninguém estava olhando”, explica Neto.
O executivo avalia que esse tipo de cultura, com maior valor agregado, permite avançar mais longe da concorrência e oferecer ao produtor soluções que o ajudem a capturar margem na produção e solucionar outro problema recorrente, que é a falta de mão de obra para o trabalho no campo.
Também no pós-colheita, afirma, o produtor terá benefícios porque poderá colher o grão já mais seco, permitindo economias no transporte e no processo de secagem.
“A gente vai começar a explorar esse mercado aqui no Brasil e, num segundo momento, o mercado de exportação”, diz. Já atuando como uma multinacional – com filiais nos Estados Unidos e na Argentina e vendas para cerca de 60 países, que já respondem por quase 20% da receita do grupo –, a Colombo acredita que o novo produto pode ter mercado em outros grandes produtores da especiaria, como o Vietnã, maior produtor mundial, China, Indonésia e Índia.
Uma força do café
A recolhedora de pimenta-do-reino foi desenvolvida a partir de um equipamento semelhante produzido pela empresa para a colheita do café conilon – as duas culturas guardam semelhanças, sendo cultivadas nas mesmas regiões, às vezes sobrepostas, e em terrenos mais acidentados, o que exige maquinário diferente, por exemplo, do utilizado no café do tipo arábica.
Tanto na pimenta quanto no café conilon, o processo de colheita é feito com o corte dos galhos, que caem sobre uma lona estendida sobre as ruas entre as linhas de plantas. Os implementos da MIAC, tracionados por trator, passam recolhendo essas lonas.
Já para o café arábica, a empresa também fez lançamentos no último ano, com equipamentos que ajudam na varrição e recolha dos grãos que caem no chão após a passagem das derissadeiras, que utilizam varetas vibratórias fazer os grãos se soltarem dos pés de café.
“A gente hoje é líder de mercado, sendo amplamente reconhecidos na parte de recolhimento de café de chão”, pontua Neto. “Muito do nosso crescimento nos últimos anos foi puxado pelo bom momento da cultura e pelos lançamentos que fizemos nessa área entre 2024 e 2025”.
Assim, mesmo em uma grande cultura, o grupo segue a estratégia de encontrar nichos, atuando em etapas do cultivo menos atendidos pelas gigantes do setor de máquinas.
No caso de feijão, por exemplo, o foco está em oferecer mecanização para o pequeno e o médio produtores. Também na Agrishow deste ano, a MIAC vai apresentar uma plataforma de corte compacta.
Com largura de 4,20 metros – menos de um terço dos equipamentos tradicionais –, ela foi projetada para operar, acoplada a colhedoras automotrizes, em áreas menores ou com terrenos irregulares. Para ampliar a precisão do corte e reduzir perdas durante a operação, utiliza sensores “copiamento” de solo, permitindo maior proximidade do corte em relação ao terreno.
As maiores máquinas produzidas pela MIAC são as colhedoras de amendoim, outro nicho em expansão no Brasil e com grande potencial exportador, já aproveitado pela companhia.
Em 2025, segundo dados da Conab, houve uma expansão significativa, de quase 25%, na área plantada com a leguminosa. E a Colombo se aproveitou também desse aumento para ampliar vendas no segmento.
Segundo ele, parte desse avanço da cultura deveu-se às baixas cotações da soja, já que os dois grãos costumam ser utlizados em processos de rotação com a cana-de-açúcar.
“Se o preço da soja está ruim, o produtor opta pelo amendoim em alguma parte, em uma área específica da propriedade dele”, diz Neto Colombo.
Em 2026, por sua vez, ele espera uma redução de área de amendoim, o que, segundo afirma, “é um ajuste muito natural, porque foi um crescimento muito rápido de um ano para o outro, por uma questão de oferta e demanda global”.
Investimentos na produção
O preço de uma colhedora de amendoim pode chegar à casa dos R$ 600 mil e está no topo do catálogo da MIAC, que começa equipamentos na faixa de R$ 40 mil.
No total, a empresa fabrica cerca de 3 mil itens por ano, considerando todos os portes e culturas. E está se preparando para ampliar essa produção.
Para 2026, segundo Neto, a Indústrias Colombo prevê um investimento de R$ 30 milhões na expansão da capacidade fabril d na modernização das duas unidades industriais, em áreas como robotização de solda e de usinagem,.
Além disso, centro de desenvolvimento da empresa já trabalha, de acordo com Neto, nos lançamentos de produtos para os próximos anos. “Vamos entrar em outros nichos também, em outros mercados, que não podemos revelar por enquanto”.
Em outra frente, o grupo vem buscando ampliar os negócios da Aemco, empresa que produz peças de transmissão para máquinas agrícolas. Desde o ano passado, a companhia tem intensificado a prospecção de mercados externos.
“Historicamente, a gente exportava muito pouco disso, mas existe um rol de fabricante de equipamento na Argentina e nos Estados Unidos que hoje compram essas caixas de transmissão, direta ou indiretamente, da China”, diz o executivo.
A Aemco tenta se posicionar como uma alternativa de fornecimento para essas indústrias, usando para isso um argumento geopolítico: está mais próxima delas fisicamente e fora da discussão polarizada que se acirrou entre chineses e americanos.
“O fabricante americano vai poder contar com uma empresa americana, que é a nossa e que está lá (o grupo mantém uma filial comercial nos EUA). E fabricação vai ser no Brasil, não vai ser do outro lado do mundo”, afirma.
Segundo Neto, no último ano e meio o grupo vem se apresentando como um potencial fornecedor e começando a construir alguns relacionamentos, na expectativa de converter em vendas em breve.
Ele explica que essa conversão demanda tempo, entre negociações, validações e homologações das peças. Hoje, a maior parte desses contatos está na fase de validação.
A principal dificuldade é competir com os chineses no preço, mas Neto Colombo afirma que as vantagens logísticas têm conseguido equilibrar a disputa. Além disso, o modelo verticalizado na Aenco, que controla desde a fundição e usinagem das peças ao tratamento térmico e a injeção de plástico, garante custos mais competitivos.
“Já temos escala por sermos líderes no mercado brasileiro”, completa.
A Aemco contribui com cerca 30% da receita da Indústrias Colombo. Além disso, funciona como um “hedge” para o grupo em períodos em que o mercado de máquinas novas está mais fraco, como o atual.
Nesses momentos, a empresa amplia as vendas de peças no mercado secundário, para produtores que, ao invés de trocar o equipamento, opta por reformar o antigo. “Isso traz um equilíbrio para a receita da companhia, que é estratégico para a gente”,
Por isso, a empresa também vai aproveitar a Agrishow para fazer lançamentos de peças ainda inéditas no seu portfólio, de forma a ampliar o nível de oferta aos produtores, com alternativas a produtos que hoje precisam ser importados.
“O setor agro, de maneira geral, passa por uma situação delicada e esses momentos são importantes para os fabricantes de equipamentos agrícolas terem a possibilidade de passar a comprar alguns itens localmente, ao invés de importar”, defende.
Resumo
- Indústrias Colombo cresce mesmo com crise ao focar em nichos como amendoim, café e pimenta-do-reino
- Empresa lança equipamento inédito para mecanizar colheita da pimenta e amplia presença internacional
- Estratégia inclui diversificação, peças (Aemco) e investimentos de R$ 30 milhões em produção