Rio Verde (GO) - O conflito no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, de cara, mexeu negativamente com o agronegócio em dois pontos principais: o aumento no preço dos fertilizantes e do valor do óleo diesel (ambos por consequência da alta do petróleo).
Há, contudo, um terceiro efeito, de certa forma cascata, que tem mexido com outro elemento do mercado de insumos: os defensivos agrícolas. A incerteza quanto ao fim do conflito tem feito os produtores acelerarem suas compras nos últimos dias, segundo diretores e gerentes de multinacionais ouvidos pelo AgFeed .
Na Tecnoshow Comigo 2026, o clima que se viu nos primeiros dias da feira foi de grande movimento nos estandes de empresas como Bayer, Corteva, Basf, Syngenta e Sumitomo, e um certo marasmo em meio às instalações das companhias de máquinas agrícolas.
“Para nós tem sido dias muito positivos, com muitos agricultores visitando o nosso estande. Já mostra um ano que está com vendas acelerando mais do que no mesmo momento no ano passado”, disse William Weber, diretor comercial para Área Norte, região que envolve os estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Pará e Matopiba, na Corteva.
Na avaliação de Weber, o movimento se dá inclusive fora da feira, com as últimas três semanas marcadas por antecipação de negócios. “Ele tem feito isso para minimizar riscos futuros de aumentos de preços”, acrescentou.
Valdumiro Garcia, gerente de Marketing Regional da Ihara, explica que por mais que o efeito no preço seja mais sentido nos fertilizantes - já que grande parte dos nitrogenados no Brasil vem do Irã e passa pelo estreito de Ormuz (que vive em um cenário de abre e fecha), os defensivos químicos também podem ver seu preço aumentar por um efeito indireto.
Um petróleo mais caro mexe com toda a cadeia de produção de matérias-primas que dão origem às formulações químicas das multinacionais.
Para piorar, cerca de 40% do petróleo consumido na China vem justamente do Irã. E os principais sintetizadores atuais de ingredientes ativos para os agroquímicos são a China e a Índia.
"Claro que eles não vão parar de produzir, mas as fontes alternativas ao petróleo também sobem, e o custo de produção do ativo sobe e isso vai ser repassado para o produtor”, disse Garcia, da Ihara.
Lá no gigante asiático, inclusive, há uma situação nunca antes vista devido às condições impostas pela guerra. Em entrevista recente ao AgFeed, o sócio-fundador e presidente do Conselho de Administração da AgriConnection, Daniel Dias, contou que percebeu em uma viagem recente ao país que os fabricantes chineses estão "perdidos" diante da falta de uma previsibilidade sobre o fornecimento das suas principais matérias-primas, oriundas do setor petroquímico.
"O pessoal fala que a guerra está afetando o preço do fertilizante e é verdade. Mas os defensivos agrícolas também são muito afetados, porque a cadeia de produção de fungicidas, inseticidas e herbicidas é toda atrelada à cadeia da petroquímica", ressaltou.
"E o chinês está incrédulo, atônito, não sabe como precificar, porque não sabe se esse preço vai subir ou se vai cair, se essa guerra vai ser mais longa, se vai ser mais curta".
Por lá, a maior parte das indústrias do segmento trabalha no sistema "back to back", ou seja, vendem seus produtos e usam o caixa para depois comprar mais matéria-prima. Mas, sem conseguir uma precificação, ficam paralisadas por temor de, na hora de entregar, o preço pelo qual vendeu já não ser suficiente para repor os estoques de insumos.
Do outro lado do Atlântico, esse imbróglio tem acelerado as vendas. De acordo com Garcia, da Ihara, tanto a venda direta quanto a venda para revendas e distribuidores está levemente acelerada frente à mesma época do ano passado.
Na região de Rio Verde, onde costuma ser mais acelerado, ele acredita que o mercado deve já ter rodado 25% até agora.
No Mato Grosso, deve estar beirando os 50%, ele acredita. “Hoje os pacotes estão sendo ofertados com uma variação pequena em relação ao ano passado né, e a nossa recomendação é que o produtor faça essa tomada de decisão o mais breve possível” disse.
A própria Comigo, organizadora da Tecnoshow, ressaltou que a venda de insumos por parte da cooperativa está caminhando para empatar em número de negócios com o ano passado.
Na edição 2025 da feira, dos cerca de R$ 10 bilhões em negócios, R$ 1 bilhão foi originado na venda de insumos por parte da Comigo. “Nós viemos para a feira com uma condição de preço diferente do preço de reposição.
Isso reforça que tem negócio atrativo, e quem para quem tem demanda, o local e momento de comprar - não tenho dúvida - é agora”, disse Cláudio Teoro, diretor de insumos da cooperativa em uma coletiva realizada na quarta-feira, 8 de abril.
Delcides Netto, diretor de Vendas Região Norte da Basf, disse que para além da procura pela compra de defensivos, muitos produtores buscam orientação sobre o que fazer neste momento ao chegar nos estandes.
“Esse momento de incertezas tem trazido o agricultor para entender junto aos fornecedores qual tomada de decisão faria sentido. Existe uma preocupação de respeitar o momento financeiro que o agro vive, mas também com a premissa de proteger um nível de produtividade que possibilite ele atravessar esse momento com rentabilidade”, relatou.
Para além do produtor, a própria indústria está preocupada. Weber, da Ihara, cita que não é usual que as indústrias estoque essas matérias primas vindas da Ásia. Para piorar, cita que há uma “infeliz coincidência” entre o momento em que a guerra eclode e o calendário agrícola da América Latina.
“O agricultor ainda não sinalizou para os fornecedores qual será a demanda, então não existe tomada de posição na indústria química para essa matéria-prima”, afirmou.
“Hoje tanto a indústria fornecedora quanto o agricultor estão correndo um risco de tomar uma alta de precificação. Um cessar-fogo ou algo do tipo não significa que tudo voltará ao normal amanhã. Existe um tempo de acomodação”, continuou o gerente da Ihara, que citou que qualquer discurso de “compre se não acaba”, seria especulativo por parte do setor.
Netto, da Basf, ainda relembra que uma situação que já era difícil de margens apertadas e crédito escasso, agora ainda piora. “Ele já não tinha uma relação favorável na relação de troca, e os últimos acontecimentos deixaram tudo ainda mais desafiador”, pontuou.
Esse cenário pode abrir uma brecha para ampliar o uso de defensivos - e também fertilizantes - biológicos na próxima safra. Isso porque os insumos necessários para produção desses produtos se encontram disponíveis aqui mesmo no Brasil, sem envolver comércio internacional e frete marítimo.
Valdumiro Garcia cita que os biológicos podem atuar como uma “ferramenta muito importante de consórcio no tratamento para o produtor nesse momento”.
Ele cita que uma alternativa para fugir da dependência dos nitrogenados seria o cultivo de milho já no verão, inclusive pela demanda crescente das usinas de etanol de cereais.
Resumo
- Guerra eleva custos via petróleo e pressiona defensivos, levando produtor a antecipar compras
- Incerteza trava indústria na Ásia e acelera demanda no Brasil, segundo relatos de diretores de Basf, Corteva e Ihara
- Alta nos químicos pode abrir espaço para biológicos, com insumos locais e menor dependência externa