Foi um sonho, que durou cerca de oito anos e acabou de forma pragmática. Em 2018, quatro empreendedores visionários se juntaram para construir o que pretendia ser “a Tesla dos tratores”. Sem recursos para continuar sonhando, entregaram seu projeto para uma gigante da maquinaria pesada.

Anunciada na semana passada, a aquisição da Monarch Tractor pela gigante das máquinas pesadas Caterpillar marca o desfecho melancólico de uma das startups mais badaladas do agronegócio na última década.

A agtech sediada na Califórnia ganhou visibilidade prometendo tratores elétricos e autônomos acessíveis. Seu produto original foi o MK-V — um trator totalmente elétrico, com opção de motorista.

Seu público-alvo eram pequenas e médias propriedades rurais produtoras de culturas especiais, como vinhedos, pomares e laticínios. Sua tese era de que esses produtores não deveriam ser forçados a optar entre eletrificação, autonomia e uma máquina de uso geral – a Monarch entregaria tudo junto, com um só produto.

Mas a companhia encontrou sua maior resistência exatamente onde a indústria agrícola é tradicionalmente implacável: a escalabilidade da manufatura. O projeto atraiu investidores e clientes nos Estados Unidos e fora dele, mas a Monarch se mostrou incapaz de transpor a barreira entre o design de software de ponta e a realidade logística de fabricar máquinas pesadas em grande volume.

A verticalização do modelo de negócios da Monarch, que insistia em controlar desde o design da placa eletrônica até a linha de montagem, provou ser insustentável frente aos desafios de produção global.

Os bastidores dessa derrocada, segundo reportagem do site TechCrunch, apontam que o colapso da Monarch foi precipitado pela desintegração de suas operações produtivas.

A empresa manteve, durante anos, um acordo de terceirização da produção industrial com a chinesa Foxconn, a mesma a quem a Apple confia a produção de seus iPhones.

A ruptura da parceria com a Foxconn, que desistiu de manter as operações de montagem dos tratores em uma antiga planta da GM planta em Ohio, deixou a Monarch órfã de escala em um momento crítico.

O último romântico

A startup já vinha, então, sofrendo com dificuldades financeiras e problemas com clientes e revendedores. E fazia uma tentativa desesperada de pivotar para um modelo de licenciamento de software que, na prática, reconhecia a inviabilidade da estrutura original como fabricante.

A FoxConn chegou a produzir centenas de máquinas, mas a qualidade deixou a desejar. Concessionários e produtores chegaram a ir à justiça contra a Monarch por conta de problemas na tecnologia de operação autônoma.

Até mesmo Carlo Mondavi, o mais notório dos fundadores da agtech, chegou a se queixar da forma com que a Monarch respondia a essas queixas. Ao comentar, nas redes sociais, uma postagem de um vinicultor que reclamava de falta de “confiabilidade” das máquinas, ele expôs suas diferenças com os sócios na abordagem das soluções.

Neto de Robert Mondavi, mítico produtor que colocou a Califórnia no mapa mundi dos vinhos de qualidade, Carlo empenhou seu sobrenome no negócio e foi, durante muito tempo, um de seus principais promotores.

Em uma entrevista ao AgFeed em julho de 2023, ele fez uma defesa quase romântica de uma agricultura sem o uso de insumos químicos e afirmou que uma das missões da Monarch era ajudar os produtores a caminharem nessa direção.

“Nós somos uma empresa movida a impacto. Para nós, impacto significa substituir o maior número possível de tratores a diesel por elétricos e remover a pegada de carbono no mundo todo”, disse ele na ocasião.

Na conversa, ele destacou a capacidade técnica e de gestão dos seus cofundadores – compartilhavam com ele o sonho Praveen Penmetsa, CEO da empresa, com passagens pela indústria aeroespacial e as aplicações de tecnologia como GPS e robótica na agricultura, Mark Schwager, ex-parceiro de Ellon Musk na Tesla, e Zachary Omohundro, PhD em robótica pela Universidade Carnegie Mellon e mestrado em Engenharia Elétrica. “São todos caras incrivelmente brilhantes”, afirmou Carlo.

No comentário recente, ele já via os antigos parceiros de outra maneira. Disse que deixou a empresa “devido a diferenças fundamentais de abordagem" após ele mesmo constatar problemas nos tratores da Monarch em sua propriedade e nas fazendas de amigos.

“Eu queria resolver esses problemas por meio de mudanças no hardware, enquanto o CEO acreditava que eles poderiam ser resolvidos melhor por meio de software”, escreveu. “Eu acreditava firmemente em um caminho diferente, mas acabei sendo bloqueado e afastado”.

A armadilha

O fato é que a dependência do modelo verticalizado, que exigia capital intensivo em cada uma de suas etapas, revelou-se uma armadilha, especialmente em um cenário onde a capitalização começou a secar.

Essa vulnerabilidade estratégica foi reconhecida, tarde demais, pelo próprio comando da empresa. Em uma entrevista recente ao site AgFunder News , o CEO Praveen Penmetsa refletiu sobre os erros que levaram ao fim da jornada independente.

"Nós deveríamos ter pivotado com mais força e mais rapidez", admitiu ele, reconhecendo que a insistência em manter o controle total da manufatura, em vez de focar no que a empresa fazia de melhor — a inteligência de dados e o software de automação —, foi um erro crasso de julgamento.

Segundo Penmetsa, o foco excessivo em ser uma montadora de tratores consumiu o capital que deveria ter sido alocado para acelerar a tecnologia de plataforma, uma lição amarga sobre o custo de subestimar a complexidade do setor de máquinas agrícolas.

A Monarch chegou a oferecer um serviço de assinatura de software conhecido como WingspanAI, mas o grosso da receita vinha do próprio trator, vendido através de concessionárias e por um preço (Cerca de US$ 90 mil) superior aos dos seus concorrentes de mesmo porte movidos a diesel.

Assim, a empresa foi perdendo o charme que outrora encantou o mercado ao ser pintada como uma revolução na indústria de máquinas agrícolas.

Atalho tecnológico

A proposta original, que vendia a Monarch como a "Tesla do Agro", conseguiu levar a empresa a captar mais de US$ 250 milhões em aportes ao longo de sua curta vida.

Na sua última rodada de investimentos, em julho de 2024, levantou US$ 133 milhões junto a um grupo de investidores coliderado por casas conceituadas de venture capital, como a Astanor Ventures e a HH-CTBC Partnership.

A empresa já apresentava, ali, sintomas da crise financeira que menos de dois anos depois resultaria na sua venda. Ainda assim, a rodada foi uma das maiores já registradas na área de robótica agrícolas e fez com que a Monarch fosse avaliada em mais mais de US$ 500 milhões.

Desde a primeira captação gigantes do setor de máquinas e tecnologia, como a CNH Industrial e a Trimble, investiram recursos e confiança na startup, sinalizando uma aposta na eletrificação e na autonomia como um caminho sem volta.

Esses investimentos sinalizaram, da mesma forma, o apetite das grandes montadoras por atalhos tecnológicos: ao invés de desenvolverem internamente, preferiram alimentar startups que pudessem ser, no futuro, integradas ou adquiridas.

No caso da CNHi, essa intenção era clara. Mas foi frustrada. Em seu balanço do quarto trimestre do ano passado, a montadora registrou esse investimento na linha de baixas contábeis, com um valor de US$ 62 milhões.

Cabe agora à Caterpillar definir o futuro da marca e da tecnologia da Monarch. A gigante das máquinas, com presença bem mais relevante na construção civil do que no agro, arrematou os ativos tecnológicos e o conhecimento acumulado pela agtech, possivelmente interessada, também, em encurtar caminhos no desenvolvimento de soluções de eletrificação e autonomia para suas máquinas, sobretudo as de menor porte.

Nas mãos de uma grande montadora, com receita anual de mais de US$ 60 bilhões, capacidade de investimento e atuação global, o projeto dos fundadores ganha uma nova dimensão e será testado em uma escala bem maior.

A empresa ainda não se manifestou sobre a aquisição e seus planos para o que trouxe da Monarch.

A Caterpillar tem sua marca associada à robustez e durabilidade de seus produtos. Não estará buscando a “Tesla dos tratores”, mas uma tecnologia que a ajude a desenhar o futuro das suas máquinas sem perder seus atributos.

Resumo

  • Startup Monarch Tractor, que prometia ser a “Tesla dos tratores”, fracassou ao não conseguir escalar a produção
  • Problemas com manufatura, ruptura com a Foxconn e dificuldades financeiras aceleraram a queda
  • A Caterpillar assume ativos e tecnologia, mirando eletrificação e autonomia em suas máquinas