Cerca de um ano atrás, ao conversar com o AgFeed durante a Agrishow, Ronis Paixão, CEO da Casale, projetou para 2025 um crescimento de 30% na receita, graças ao que chamou de cenário de "astros alinhados" na pecuária.

Ele estava equivocado. O alinhamento foi tão perfeito, com preços da arroba do boi em alta favorecendo investimentos de pecuaristas, que ele voltará à feira em Ribeirão Preto, no final deste mês, comemorando uma alta de 45% do faturamento no ano passado.

Chegará lá, no entanto, com um discurso mais conservador e dando início a uma nova fase da empresa de máquinas e equipamentos voltados para a pecuária.

Será a primeira Agrishow da Casale sem Casales na diretoria, após a conclusão de um processo de sucessão na gestão da companhia, com a saída de Jaqueline Casale, filha do fundador Celso Casale, que por mais de uma década ocupou a diretoria comercial e de marketing,

“Temos uma visão boa de ano, mas não com a mesma expectativa que tínhamos no ano passado. O crescimento deve vir, só que menor”, afirma Paixão, em nova entrevista ao AgFeed

No mix, o faturamento fica próximo aos 70% no corte e 30% nos produtores de leite. Dentre clientes de destaque, a empresa atende a Agrindus, no leite, e a JBJ, confinamento de Júnior Batista, da familia dona da JBS

Embora a pecuária siga sustentada por fundamentos positivos, como um mercado interno aquecido e uma arroba projetada em patamares elevados, fatores como juros altos e custo de insumos ainda pesam nas decisões de investimento. O ambiente ainda marcado por crédito caro e agora incertezas com a guerra no Oriente Médio dão o tom das projeções mais contidas para este ano.

“A agricultura sofre mais com esse contexto, mas nós da pecuária somos 'vizinhos'. Diesel, fertilizantes, tudo isso impacta o setor como um todo. Ao mesmo tempo, o mercado interno continua aquecido no consumo de carne e, olhando o mercado futuro a arroba está em R$ 380, o que traz condições favoráveis para confinamento", diz o executivo.

Ao mesmo tempo, a Casale busca capturar esse movimento com novos produtos. Para 2026, a empresa prepara uma série de pré-lançamentos, com foco em ampliar soluções dentro da propriedade rural, incluindo equipamentos voltados à distribuição de insumos orgânicos e melhorias em linhas já existentes. A ideia é trazer soluções para os "grandes pecuaristas".

A calibragem das expectativas para o ano acontece em paralelo à mudança relevante na estrutura da empresa. Jaqueline Casale deixou a diretoria para assumir uma cadeira no conselho consultivo da companhia.

O movimento marca mais uma etapa de um processo de sucessão que vem sendo desenhado há cerca de 12 anos. Até agora, o marco mais notável dessa trajetória havia sido a passagem de bastão no cargo mais alto da companhia: em 2023, Mario Casale, irmão de Jaqueline, também foi para o conselho, sendo substituído pelo atual CEO, Ronis Paixão.

“A gente começou a sucessão há 12 anos. Não é algo rápido, é um processo que exige muito esforço, mas é feito para dar longevidade”, afirma o executivo.

"Eu e meu irmão nos unimos há alguns anos para fazer uma transformação na gestão. Naquele momento, no início da década, a empresa tinha nome, know-how nos misturadores de ração, mas havia trabalho a ser feito, construir um processo de governança juntos", acrescenta Jaqueline Casale. 

Para seu lugar na diretoria comercial a empresa elegeu Marcio Loureiro, na empresa há cinco anos e que atuava, até então, como um "número dois" de Jaqueline.

Com isso, a Casale agora não tem mais ninguém da família fundadora em posições de diretoria, somente no conselho, ao lado de membros independentes.

A chegada de executivos de fora da família fez parte desse movimento. O próprio Ronis Paixão entrou na empresa nesse contexto, participando da construção da nova cultura organizacional e da profissionalização da gestão.

“Foi importante ter alguém de fora para ajudar nessa transição, trazendo uma visão mais estruturada, baseada em dados e governança, sem perder a essência da empresa”, afirmou o CEO.

Do ponto de vista operacional, essa mudança veio acompanhada de uma estratégia de expansão comercial e fortalecimento da presença no mercado.

Nos últimos anos, sob o comando de Jaqueline na diretoria comercial, a Casale ampliou sua rede de distribuição, estruturou canais de revenda em todo o Brasil e iniciou movimentos no exterior, com operações na Bolívia e no Uruguai.

Ao mesmo tempo, reforçou o pós-venda como pilar do negócio, segundo ela, criando centros de distribuição - um em Goiânia (GO) e outro em São Carlos (SP) - e postos avançados de peças, buscando aumentar a capilaridade e o nível de serviço ao cliente.

“Quando a gente desenvolve um revendedor, o primeiro ponto é o serviço: pós-venda, assistência e peças. Isso virou um valor central”, diz Jaqueline.

Outro ponto relevante do período em que ela liderou as tratativas comerciais foi a entrada mais forte no mercado da pecuária leiteira. "Conseguimos diversificar ainda mais o portfólio para produtores de outros tamanhos. Para mim, a Jaqueline contribuiu muito nessa história com o relacionamento com clientes", afirma o CEO Ronis Paixão.

A empresa também avançou na digitalização das operações comerciais, com uso mais intensivo de dados e ferramentas de inteligência de mercado para apoiar a tomada de decisão, cita a nova conselheira.

Seu irmão, Mario, além de conselheiro já há alguns anos, atua como líder da "CasaleTech", o programa de aceleração de startups da empresa.

No ano passado, ele revelou ao AgFeed que a empresa preparava um braço de CVC (Corporate Venture Capital), e planejava realizar aportes em startups do setor - tanto da pecuária quanto agricultura.

Resumo

  • Casale projeta 2026 mais moderado após crescer 45%, com juros altos e guerra pesando no cenário macro
  • Empresa avança em sucessão, com saída de Jaqueline Casale da diretoria comercial, passando para o conselho
  • Companhia quer aproveitar bom momento da pecuária para manter crescimento, com lançamento de novos produtos