Em momentos de incerteza, informações bem analisadas, de forma técnica e criteriosa, tornam-se ainda mais essenciais. Parece desnecessário afirmar algo que soa tão óbvio e esperado do ponto de vista empresarial, mas não é o que se observa na pecuária de corte. Produtores e técnicos de campo têm sido bombardeados por informações e recomendações que podem comprometer os resultados nas fazendas.

Pessoas influentes e de grande exposição midiática estão difundindo estratégias que negligenciam a complexidade existente por trás da gestão de propriedades pecuárias. Mesmo embasados em conceitos corretos, acabam pecando pela superficialidade do que propõem. Observam corretamente; decidem equivocadamente.

O exemplo mais comum é a sugestão de que o sistema de produção deve se adaptar à realidade comercial do momento, geralmente com foco nas relações de troca ou na fase do ciclo pecuário. Sem a devida análise, esse raciocínio parece até fazer sentido, levando muitos produtores a flertar com tais ideias.

Mas basta redobrar a atenção para entender que o sistema de produção é dependente de decisões formadas e executadas a médio e longo prazo, enquanto decisões comerciais são formuladas para atender do curto ao médio prazo. Em síntese, é mais sensato adaptar a estratégia comercial ao sistema de produção do que o contrário.

No caso da pecuária, os defensores de uma maior flexibilidade técnica do projeto, de acordo com os preços do momento, baseiam-se no comportamento do ciclo pecuário para propor ações. Ironicamente, os movimentos mais acentuados do ciclo sempre foram causados justamente pela falta de estratégia técnica de longo prazo: ora foco na produção de bezerros, ora na compra de animais.

Mesmo que outros fatores interfiram – como a disponibilidade de caixa – o estímulo/desestímulo na produção de bezerros sempre foi a principal base do ciclo pecuário. Enfim, sem o devido planejamento, o produtor pode perder tanto na fase de baixa como na fase de alta.

Circulam também propostas ainda mais arriscadas do ponto de vista técnico. Nesses casos, defendem que a melhor alternativa para o produtor seria reduzir a oferta para garantir melhores preços no futuro.

O raciocínio é coerente com as leis de oferta e demanda, mas falha significativamente em termos de viabilidade. Baseia-se no pressuposto de que os pecuaristas poderiam, de forma consciente, coordenar-se para controlar a oferta em um mercado com tantas variáveis como o da pecuária de corte. Trata-se de um erro.

O controle da oferta ou da demanda nunca foi viável, nem quando conduzido pelo Estado através da força. A histórica falência de todas as ditaduras que tentaram conduzir as economias de forma planejada é a prova dessa inviabilidade.

Em ambos os casos, para ficar apenas nesses exemplos, as opções dependem de lotações e produtividades mais baixas, seja pela redução de oferta ou pela possibilidade de alterar a quantidade de gado comprado de acordo com as relações de troca do momento.

Além de trabalhar com ociosidade no sistema de produção, o foco em compra de animais de menor valor de mercado tende a comprometer o desempenho zootécnico, reduzindo ainda mais a competividade da pecuária.

Sem uma visão geral da composição dos custos de produção, é difícil perceber o impacto negativo de produzir menos. Em produtividades menores, as despesas por unidade produzida – cabeças ou arrobas – acabam sendo mais baixas em comparação às despesas em produtividades mais altas.

Por unidade produzida, os gastos considerando apenas os insumos, na recria e engorda de baixa tecnologia, equivalem a cerca de 60% do que se gasta com a mesma atividade conduzida com alta tecnologia.

No entanto, por hectare, o lucro da baixa tecnologia é cerca de 15% quando comparado ao da alta tecnologia. A diluição dos custos fixos e indiretos, assim como o efeito da escala, são essenciais para a lucratividade da pecuária.

É fato que as boas estratégias de comercialização são essenciais. E é fato também que as atuais incertezas do mercado são consideráveis.

Por um lado, temos a oferta global de carne bovina em queda, com o Brasil cada vez mais consolidado como fornecedor confiável e apto a se adaptar aos mercados mais exigentes.

Enquanto os principais concorrentes enfrentam dificuldades para aumentar a produção, a pecuária brasileira vive um bom momento com os sistemas mais tecnificados registrando boas rentabilidades.

Os preços médios mensais do boi passaram o recorde histórico, em dólares, no decorrer de abril. E, ainda assim, está entre os preços mais baixos do mundo, em comparação com as pecuárias mais competitivas.

A expectativa em relação à produção de carne bovina para 2026 divide opiniões. Ainda assim, mesmo entre os que acreditam em leve aumento na produção do ano, a oferta seria insuficiente para atender a demanda crescente no mercado internacional e garantir a disponibilidade interna.

Do outo lado, nas vendas externas, pesam o impacto da política de salvaguarda chinesa e os desafios logísticos impostos pela guerra no Oriente Médio. Mesmo que a quantidade exportada se mantenha, é essencial levar em consideração que há um aumento significativo nos custos com as exportações, consequência de aumento de tarifas (no caso da carne extracota para China), uso de rotas alternativas, seguros de cargas, custo dos fretes, custo de contêineres, prejuízos causados pelo redirecionamento de cargas no início do conflito etc.

O aumento nos custos impacta a precificação da carne exportada. O Real valorizado também impacta a remuneração dos frigoríficos e, consequentemente, a precificação do boi.

No mercado interno, os frigoríficos enfrentam um dos piores momentos – senão o pior – em termos de margens na operação envolvendo cortes desossados, comportamento que não ocorre quando se analisa o mercado de carcaças, ou seja, carne com osso.

Hoje, no entanto, a maior parte da carne chega ao consumidor desossada a partir do frigorífico e não nos mercados, como era a realidade de anos atrás.

Estimativa da Athenagro aponta que mais de 75% da carne bovina seja desossada nos frigoríficos, embalada diretamente ou enviada em peças maiores para manipulação e porcionamento nos pontos de vendas.

Esse cenário impõe limite à precificação do boi, o que tem refletido nos contratos futuros negociados na B3. As oscilações nos contratos têm mantido os preços do segundo trimestre pouco acima dos negociados para o segundo semestre.

Diante de todas essas variáveis, o produtor precisa analisar detalhadamente os seus resultados e decidir. Mesmo com os preços frustrantes dos contratos negociados no mercado futuro, a pergunta que precisa ser respondida em cada propriedade é: vale a pena vender por estes preços? O resultado remunera de acordo com o planejamento de longo prazo?

É importante que cada fazenda elabore parâmetros próprios de referência para identificar se o negócio é bom ou não naqueles valores de mercado. As referências podem ser lucro por hectare, retorno sobre o valor da terra, porcentagem de lucro sobre o valor em rebanho, demais indicadores tradicionalmente usados na gestão financeira etc..

Para garantir as margens, o mercado de opções na B3 é uma boa alternativa aos pecuaristas. Numa analogia simplista, seu funcionamento é parecido com o de um seguro. Paga-se um valor para garantir (segurar) determinado ativo. Nesse caso, o ativo é o direito de vender a arroba do boi gordo a determinado preço. O custo dessa operação, evidentemente, precisa ser levado em consideração na análise.

Se o preço do boi subir mais do que o valor contratado através do mercado de opções, será melhor ainda.

Recentemente, dada a natureza dos questionamentos em palestras e reuniões, a Athenagro tem se posicionado no sentido de reforçar que, na produção rural, o lucro deve ser construído e garantido a partir do sistema de produção e não apenas pelas estratégias comerciais.

Apesar de extremamente importantes, os preços em determinados momentos não devem redefinir, isoladamente, a estratégia técnica do empreendimento. É essencial manter o foco.

A opção de desacelerar ou mudar o escopo do projeto pode levar a resultados ainda piores do que aparentam.

Isso vale tanto para os momentos de euforia quanto para os momentos de desestímulo. Cada passo precisa ser detalhadamente planejado. É preciso ter o pé no chão.

Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária.