A GDC Alimentos, dona da marca Gomes da Costa e controlada pelo grupo espanhol Nauterra, adquiriu por R$ 135 milhões uma fábrica de farinha de peixe em Itajaí (SC) que pertencia à empresa Farol. A companhia é controlada pelo Grupo Patense, de Patos de Minas (MG), que está em recuperação judicial desde 2024.

A operação foi autorizada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão antitruste federal, no último dia 5 de março, segundo publicação do Diário Oficial da União (DOU). O ato de concentração sumário não teve objeções.

A negociação também foi aceita no mês passado pelo juiz José Humberto da Silveira, da 1ª Vara Cível da Comarca de Patos de Minas, onde corre o processo de RJ do Grupo Patense.

A fábrica, que fica em um imóvel de 11 mil metros quadrados em Itajaí, tinha sido leiloada em março, dentro do processo de RJ do Patense, e teve como única interessada a GDC – que já havia feito oferta vinculante de stalking horse, para garantir um valor mínimo de leilão.

No âmbito da RJ, os ativos do grupo mineiro têm sido fatiados em diferentes UPIs (Unidades Produtivas Isoladas), o que está previsto pela legislação que rege o instrumento para companhias em crise.

Assim, quem compra a UPI não leva junto todos os ônus da empresa que está vendendo o ativo.

A GDC adquiriu a “UPI Kenya”, que abrange somente a fábrica de farinha de peixe em Itajaí - a antiga Kenya, que tinha sido comprada pelo Patense em 2021.

Outras plantas do grupo também foram fatiadas em UPIs e estão sendo, aos poucos, leiloadas. Em janeiro passado, por exemplo, a multinacional americana Darling Ingredientes comprou três fábricas do Patense, por R$ 560 milhões.

Localizadas em Patos de Minas (MG), Itaúna (MG) e Adamantina (SP), as unidades – que faziam parte da “UPI Bovinos” – processam subprodutos do abate de bovinos podendo transformá-los em ração, gorduras e colágeno.

Retorno ao setor

A compra da fábrica de Itajaí marca o retorno da GDC ao negócio de produção de farinhas e óleos destinados à alimentação animal, do qual havia saído em 2023, quando vendeu a empresa BFP Bioprodutos de Pescado justamente ao Grupo Patense.

A BFP era um braço da GDC voltado à produção, operação e comercialização de farinha e óleo de peixe e, em Itajaí (SC), tinha uma unidade que processava mais de 40 mil toneladas de bioprodutos de peixes por ano

A nova transação com o Patense, porém, não se trata de mera coincidência, mas sim de uma tentativa da empresa dona da marca Gomes da Costa de reaver débitos com o grupo mineiro.

Isso porque na época, a GDC vendeu a companhia por US$ 15,6 milhões. O pagamento deveria ser feito em 60 parcelas mensais, mas o Patense deixou de honrar os valores devidos no início de 2024.

Assim, a empresa dona da Gomes da Costa resolveu executar a dívida de uma só vez, cobrando R$ 64 milhões.

Depois que o Patense entrou em RJ, a GDC foi arrolada entre os credores quirografários, com R$ 60,9 milhões a receber – a terceira maior credora da companhia.

Os credores quirografários, no entanto, não têm prioridade no recebimento de dívidas, estando atrás dos credores trabalhistas, que são os primeiros a receber.

Nesse contexto, a GDC admite que a operação de compra da UPI Kenya, além de ser uma oportunidade estratégica para os negócios da companhia, “se apresenta como possibilidade de garantir que créditos no âmbito da Recuperação Judicial sejam em alguma medida recuperados.”

Máquina de M&As frustrada

Quando o Patense entrou com pedido de recuperação judicial, acumulava uma dívida de R$ 1,3 bilhão e listou como requerentes 12 empresas e nove pessoas físicas.

O número elevado de envolvidos ajuda a explicar a situação. Nos anos que antecederam a crise, o grupo se transformou em uma verdadeira máquina de M&As, comprando empresas em série. Foram pelo menos sete aquisições entre 2019 e 2021.

A estratégia, porém, se mostrou equivocada – algo reconhecido pelo próprio grupo Patense ao protocolar o pedido de RJ junto à Justiça mineira, no fim de agosto de 2024.

Nos documentos enviados à Justiça, a companhia admite ter adquirido “inúmeras” sociedades que acabaram demandando "investimentos além do esperado, levando-as a não performar da maneira que se anunciava".

A deterioração operacional foi agravada por fatores de mercado, segundo o Patense: queda de cerca de 40% nos preços de gorduras e proteínas, aumento “exponencial” das despesas fixas, além de elevada alavancagem e custo financeiro pressionado pela alta da Selic. O resultado foi o default.

Boa parte da dívida passa pela Faria Lima. Entre 2022 e 2023, o grupo realizou quatro emissões de CRA, que somaram quase R$ 770 milhões, todas com participação da securitizadora Ecoagro, uma das maiores do segmento.

Hoje, a Ecoagro é a principal credora do Patense, com R$ 317,6 milhões a receber, seguida pela Bunge (R$ 78,4 milhões) e pela GDC (R$ 60,9 milhões).

Completam o top 5 a Caixa Econômica Federal, com R$ 42,8 milhões, e a consultoria Alvarez & Marsal, especializada em reestruturações de empresas, com R$ 42,4 milhões a receber. Ao todo, as dívidas do Grupo Patense hoje somam R$ 1,1 bilhão.

Resumo

  • GDC, dona da Gomes da Costa, compra fábrica do Grupo Patense em Santa Catarina
  • Operação necessitou aporte de R$ 135 milhões pela GDC
  • Negócio marca volta da GDC ao setor de alimentação animal