Rio Verde (GO) - O cenário macro atual do agro está dado para 2026. Some-se o crédito (ainda) restrito, o avanço da inadimplência no campo, as margens apertadas dos produtores de grãos a uma guerra no Oriente Médio que encareceu, numa tacada só, os preços do frete marítimo, dos fertilizantes e dos químicos.

Até mesmo quem é gigante reconhece os desafios. "Nós estamos num momento muito difícil para o setor industrial como um todo. Mas o agro especificamente, está com um momento muito difícil, com uma paridade de troca bem diferente de anos anteriores", disse Claudio Teoro, diretor de insumos da Comigo, a maior cooperativa de Goiás e uma das maiores do País em faturamento.

A dificuldade do futuro dá sequência a um passado curto de robustez. Em 2025, a Comigo registrou um faturamento recorde de R$ 14,1 bilhões, crescimento de 25% em um ano. O resultado bruto superou R$ 1 bilhão e foram R$ 793 milhões em sobras aos cooperados.

Ainda sem projetar queda ou crescimento para 2026, a cooperativa faz algumas apostas para atravessar o ano.

A principal delas é a nova esmagadora de soja em construção em Palmeira de Goiás, um projeto de R$ 1,5 bilhão que deve praticamente dobrar a capacidade industrial da cooperativa e reposicionar sua atuação dentro da cadeia.

“A indústria Palmeira é o talvez o maior investimento em uma esmagadora do País nesse momento. Somado a isso, em 2026 nos já construímos uma loja nova e ampliamos mais duas, além de estarmos terminamos três armazéns”, disse o presidente executivo da Comigo, Dourivan Cruvinel.

A nova planta adicionará 6 mil toneladas por dia à capacidade de processamento da cooperativa, que hoje gira em torno de 5,5 mil toneladas diárias. A Comigo tem como meta anual a construção de uma nova loja e a ampliação dos armazéns se dá justamente para abastecer a nova indústria. Hoje, a cooperativa recebe cerca de 20% de toda a soja de Goiás.

A nova unidade deve entrar na primeira fase operacional neste ano, mas a expectativa é que a planta ajude a dobrar o faturamento da companhia quando operar a todo vapor. O plano da Comigo é ultrapassar os R$ 30 bi em receita no começo da próxima década.

A escolha por uma construção fora de Rio Verde justamente para aproveitar ganhos logísticos com a ferrovia Norte-Sul, operada pela Rumo. O movimento em Palmeira de Goiás amplia a produção de óleo e farelo e abre caminho para um próximo passo já desenhado internamente: o avanço na produção de biodiesel.

Conforme revelado em primeira mão pelo AgFeed em novembro de 2025, o próximo grande investimento da Comigo será a construção dessa usina em Rio Verde, que deve se iniciar, a princípio, só daqui alguns anos.

"Temos que rodar a planta (esmagadora de soja) primeiro, é muito investimento para fazer de uma vez”, disse Antonio Chavaglia, presidente do Conselho de Administração da Comigo, na época.

Apesar desse plano de expansão, o curto prazo impõe desafios. A própria cooperativa reconhece que o ambiente para o produtor que abastece suas unidades e armazéns - e, por consequência, para os negócios - é mais delicado em 2026.

A combinação de preços mais baixos da soja, juros elevados e um aumento no endividamento recente tem levado a uma postura mais conservadora no campo.

Esse cenário ficou evidente ao longo da edição de 2026 da Tecnoshow Comigo, principal vitrine da cooperativa e uma das maiores feiras agrícolas do país.

Os números da feira mostram um ambiente mais vazio e com menos apertos de mão. O número de visitantes caiu de 140 mil em 2025 para 120 mil em 2026, segundo a própria cooperativa. Já o montante de negócios recuou 30% neste ano em relação ao ano anterior.

Em 2025, a Comigo divulgou uma estimativa de "mais de R$ 10 bilhões" em negócios, o que faria o número deste ano ser próximo dos R$ 7 bilhões. Antes da feira começar, a expectativa era "empatar" com o visto no ano passado.

Na quarta-feira, dia 8, na metade da feira, Claudio Teoro chegou a insinuar que era possível que a cooperativa não divulgasse o número de negócios ao final da semana, assim como foi feito na Expodireto, realizada há algumas semanas.

Porém, na sexta-feira, 10 de abril, Chavaglia fez questão de ilustrar o que chamou de "a realidade de um ano difícil".

Segundo ele, a comercialização de insumos, tanto por parte da cooperativa quanto por parte dos expositores, veio em linha com o ano passado. "Essa é a principal demanda do produtor nessa época. Ano passado a nossa venda superou R$ 1,2 bilhão e nada mudou neste ano, assim como na venda de carros e caminhonetes", disse o presidente do conselho da cooperativa.

O que mudou, segundo ele, foi a comercialização de máquinas e equipamentos agrícolas. Quem andava pela feira podia ver a dicotomia entre o movimento visto  nas "ruas dos insumos" - onde se concentravam estandes de empresas como Bayer, Basf, Corteva e Syngenta - e as grandes quadras dedicadas à fabricantes como John Deere e Case IH.

"Tivemos uma queda impressionante pela incerteza econômica e pela comercialização da safrinha de milho, que ainda traz muita insegurança. A queda, nesse caso, foi de cerca de 50%. Os empresários estavam preparados para essa comercialização menor pela performance das feiras anteriores", acrescentou Chavaglia.

Claudio Teoro relembra que produtores se endividaram nos últimos anos com uma soja em patamares superiores aos R$ 150 por saca e, agora, precisam pagar os vencimentos com a mesma saca perto dos R$ 100.

"Imagina que ele tinha uma parcela de máquina que representava 10 mil sacas de soja por ano, só que teve essa queda no preço, e ao mesmo tempo o juro continuou alto. É isso que deixou produtores com grau de dificuldade acentuado", pontuou.

Resumo

  • Com guerra, crédito escasso e margem apertada, Comigo aposta em nova indústria para atravessar 2026
  • Faturamento da cooperativa foi recorde em R$ 14,1 bilhões no ano passado, e planta em Palmeira de Goiás deve dobrar montante nos próximos anos
  • Edição 2026 da Tecnoshow Comigo terminou com menos público e volume de negócios 30% menor, indicando produtor mais cauteloso

Presidente do conselho de administração da Comigo, Antonio Chavaglia, discursa em coletiva de encerramento da Tecnoshow Comigo 2026