O fim da tormenta das RJs ainda não aparece no horizonte para o agro brasileiro - e os ventos do Oriente Médio empurraram a luz do fim do túnel mais para longe.

O aumento dos pedidos de recuperação judicial no agro ainda não ficou para trás e, na leitura de Fabiana Alves, CEO no Brasil e diretora-geral para a América do Sul do Rabobank, está mais para o meio do caminho do que para o fim.

O que vem pela frente, na visão dela, é um cenário ainda de deterioração antes de qualquer acomodação. “Vai piorar antes de melhorar”, disse, ao descrever um cenário que combina choque de curto prazo com problemas estruturais mal resolvidos.

À frente da operação brasileira do Rabobank, um dos principais financiadores do agro no mundo, a executiva acompanha de perto um setor que saiu de dois anos de margens elevadas direto para um ambiente de compressão e, em muitos casos, sem ter ajustado a forma de gerir o próprio risco.

Apesar de citar, sem entrar em detalhes, que os níveis de inadimplência da instituição estão “bem melhores que a média do mercado”, Alves fez um diagnóstico dos por quês de acreditar nessa demora para o problema se esvair.

Do lado macroeconômico, citou uma taxa Selic que não caiu tanto como o mercado esperava, o que só prolonga o cenário de crédito ainda seletivo.

Para piorar, o produtor de grãos ainda encontra preços de commodities pressionados. Mas, para ela, o cenário recente ganhou uma camada extra com o ambiente externo.

“A guerra trouxe insegurança no supply chain, com impacto em fertilizantes, diesel e abastecimento”, afirmou a executiva, que conversou com o AgFeed durante a edição 2025 do Congresso Brasileiro de Direito do Agronegócio, realizado nesta segunda-feira, 30 de março, em São Paulo.

Ainda assim, reduzir o problema ao macro seria simplificar demais. O ponto central, na avaliação da executiva, está dentro da porteira, na governança do produtor.

Ela avalia que o País dá incentivos para que o produtor opere como pessoa física, o que, na contramão, gera um “desincentivo” à governança apropriada.

“Você tem um produtor operando com duas, três safras no caixa, pagando conta velha, conta nova, controlando tudo no livro caixa. Ele não sabe qual é a lucratividade real do negócio”, diz.

A CEO cita que era de se esperar que após anos de margens brutas próximas aos 45%, era de se esperar que os produtores se preparassem para a volatilidade, o que não ocorreu.

É nesse ponto que as recuperações judiciais entraram com força e acabaram atraindo profissionais mal-intencionados para esse “mercado”.

“A RJ é legítima, mas tem gente posicionando como um instrumento financeiro. Passou de uma falta de ética e beira a imoralidade, com advogados que misturam essa propaganda para entrar em recuperação com aspectos, inclusive, religiosos”, contou.

“Como representante de um banco internacional, eu sei o que é explicar que no Brasil tem um sujeito indo a público, na televisão e nas mídias sociais, fazendo propaganda de RJ”, completou.

Os dados do Serasa Experian referentes a 2025 revelaram que foram quase 2 mil pedidos de RJ no setor, um aumento de 56% em um ano e recorde histórico para o País.

2025 em alta no Rabobank

Apesar desse pano de fundo, Fabiana Alves afirma que o banco teve um 2025 robusto.

A carteira agro cresceu cerca de 10%, acima do inicialmente projetado, em um ano que ela classifica como “espetacular” em termos de resultado e controle de inadimplência.

Hoje, a operação soma cerca de US$ 12 bilhões (cerca de R$ 63 bi pela cotação atual) no Brasil e US$ 17 bilhões na América do Sul. No cargo desde 2023, a meta é atingir US$ 20 bi no continente sob sua gestão, conforme ela revelou em sua entrevista ao AgLíderes, o videodcast do AgFeed, em setembro do ano passado.

Para 2026, o discurso muda de velocidade, mas ainda deve ser de crescimento. “A gente continua crescendo, mas com muito mais seletividade”, afirmou.

Ao mesmo tempo, não projeta que a inadimplência da carteira cresça. Segundo ela, diferentemente de outros mercados, o problema no Brasil demora a sair do sistema. “A inadimplência aqui é cumulativa. Você não tem um outflow relevante. O que entra demora para sair”.

Durante outro painel no Congresso, o juíz do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás Thiago Castelliano mencionou que cada vez mais surgem processos com pedidos de alongamento de dívidas por parte dos produtores e criticou uma falta de diálogo por parte de bancos e instituições financeiras nesses casos.

Fabiana Alves discorda da generalização e diz que o alongamento pode ser uma opção, desde que o contexto seja levado em conta. “Alongamento por quê? Porque o produtor tomou um risco de crescimento vendo que o preço das commodities estava nas alturas e arrendou a área inadequada? O que aconteceu para agora você precisar de alongamento?”, indagou.

“Porque vamos combinar, depois de dois anos de 45% de margem bruta, havia um caixa para se preparar para esses momentos”, prosseguiu.

Ao mesmo tempo, o banco tenta usar o crédito como instrumento de indução e isso passa por duas agendas que, na visão dela, estão cada vez mais conectadas: gestão financeira e sustentabilidade. Independente da guerra momentânea e dos juros - que sobem e descem -, Alves cita que a volatilidade climática é uma nova realidade e que isso deveria aumentar a governança dos produtores.

“O produtor que não colocar agenda climática como prioritária será visto com mais risco pelas instituições financeiras”, disse. Isso ocorre não só por uma questão reputacional, mas porque o risco climático já impacta diretamente produtividade, custo e previsibilidade de receita.

Alves disse que os bancos estão intensificando o monitoramento de áreas com dados geográficos, climáticos e de produção, e citou que seguro e crédito tendem a andar cada vez mais lado a lado. “Nos EUA, o crédito rural é lastreado pelo seguro. Hoje, o risco climático deixou de ser tema voluntário”, concluiu.

Resumo

  • Com pedidos de RJ no agro em alta, Rabobank vê cenário piorando antes de melhorar, pressionado por juros elevados, crédito seletivo e guerra impactando custos
  • Problema vai além do macro: falhas de gestão e baixa governança dentro das fazendas agravam a crise, com produtores sem controle claro de custos e lucratividade após anos de margens elevadas
  • Banco teve 2025 forte, com carteira agro crescendo cerca de 10% e atingindo aproximadamente US$ 12 bilhões no Brasil (US$ 17 bilhões na América do Sul), mantendo inadimplência controlada.