A jornada da gigante global de defensivos e sementes Syngenta – e do mercado de insumos em geral – mostra que será mais uma vez desafiadora em 2026.
Os preços das commodities seguem em níveis mais baixos, a oferta de crédito ao agricultor ainda é restrita e os juros permanecem altos, uma combinação que, segundo o presidente da área de proteção de cultivos da Syngenta no Brasil, André Savino, leva “muito mais a um ciclo de eficiência do que um ciclo de expansão”, no agronegócio.
“Continua sendo um ano de ajuste, 2026 não é um ano que vai ser muito forte”, afirmou o executivo, em entrevista ao AgFeed.
Ele explica que são três os fatores fundamentais que permitiram o crescimento mais expressivo anos atrás – preço agrícola alto, disponibilidade de dinheiro no mercado e custo de capital mais baixo.
“O preço das commodities dita a rentabilidade do agricultor, que é a grande máquina propulsora, que vai demandar ou vai expandir área plantada, vai demandar produtos”, diz. Foi o que ocorreu, por exemplo, entre 2020 e 2022.
O ciclo atual traz um cenário inverso para os três itens mencionados, portanto, já teria virado ficção pensar que o mercado de defensivos agrícolas voltaria a crescer dois dígitos, todo ano, no Brasil.
“No ambiente que a gente está hoje, com alto custo desse capital, 15% é selic, se você tomar dinheiro emprestado, se você financiar, é mais caro. Há muito pouco recurso do governo para o agro, só em alguns segmentos escassos, então, a gente está num momento de ajuste. Se a gente encontrar esses elementos de novo, o mercado volta a crescer”, pontuou.
Na visão do executivo, o agricultor deve investir mais dentro da área que ele já tem, com menos ênfase em arrendar mais terra ou abrir mais áreas.
Savino conversou com o AgFeed no estande da Syngenta na Expodireto Cotrijal e disse ter sentido, no próprio evento, um interesse “muito alto” por novas tecnologias de ponta.
“A gente está fazendo um balcão de negócios aqui, com uma boa adesão”.
Perspectivas
Mesmo com o “ajuste” em curso, Savino disse que há alguns sinais positivos no mercado. “A gente já vê empresas com menos inventário, você já começa a ver empresas que renegociaram suas dívidas ou alongaram o seu endividamento para se fortalecer financeiramente, fizeram a lição de casa, entre 2024 e 2025”.
“Tem ainda um cenário macroeconômico um pouco estressado, mas com muitas empresas fazendo sua lição de casa, a gente vai se preparando aí para o próximo ciclo, eu acredito, 2026/2027, bastante positivo”, avaliou.
Os pontos a favor são os conhecidos fundamentos de oferta e demanda. O crescimento da população mundial e a demanda crescente não só por alimentos, mas também por energia limpa, continua sendo, na visão do CEO da Syngenta, fator importante para “fazer essa curva ficar mais favorável”.
Investimentos recentes em etanol de milho – e até de trigo, no Rio Grande do Sul – são exemplos de notícias que favorecem a demanda pelas commodities agrícolas.
Para 2026, a Syngenta prevê “crescimento com qualidade”, disse o executivo, evitando citar números ou percentuais.
“Em proteção de cultivos, segmento que eu lidero, a gente é líder de mercado, estamos seis pontos acima do segundo colocado e o nosso foco é manter essa liderança, com foco no crescimento de qualidade”, afirmou.
A estratégia, segundo ele, é baseada em mais investimentos em biológicos e também na oferta de novas tecnologias.
“O agricultor não vai aumentar o patamar de produtividade dele operando no mercado tropical, consumindo os produtos comoditizados, produtos que estão por muitas décadas no País”, ressalta.
O comentário dele ocorre num cenário em que crescem as vendas de empresas com foco no chamado “pós-patente”, com produtos antigos, que apenas renovam suas licenças em formulações levemente modificadas.
Ele diz que o aumento da venda de genéricos não trouxe redução de custo para o agricultor, por isso acredita que o cliente agora tende a ter foco em resultado.
“São novas moléculas que vão trazer esse maior retorno sobre investimento e, como consequência, maximizar o financeiro do agricultor. É um pouco nessa linha que a gente vai investir, crescimento com qualidade, não a qualquer custo”.
Efeitos da guerra
Se não bastasse o cenário que já era desafiador, as empresas do agro também analisam, diariamente, de que forma a guerra entre EUA e Irã impactará nos negócios daqui para a frente.
André Savino disse ao AgFeed que, ao analisar gráficos recentes, percebeu que a relação de troca da soja com insumos agrícolas em geral está no campo positivo ou pelo menos em linha com patamares históricos.
Ele admite, porém, que o fertilizante “descolou por causa da guerra, especialmente a ureia que subiu muito”. Savino destaca que acompanha os outros mercados como agricultor – é produtor de café em Minas Gerais.
“Eu não vejo defensivos ou sementes sendo os estressores de margem do agricultor para a próxima safra, mas talvez os fertilizantes”.
De qualquer forma, Savino afirma que há muita incerteza por causa da guerra, que podem impactar o setor em que atua Syngenta.
“Há dois tipos de impacto. Tem o impacto direto, é o custo do frete, tanto de oceano, tanto logístico internacional, quanto interno. A hora que o produto chega aqui é caminhão que vai rodar, então você já vê o impacto direto dos custos”, explicou.
O impacto indireto, ele diz, seria um eventual efeito no fluxo dos ingredientes ativos da indústria de defensivos.
“Se ficarem muitos navios parados pelo estreito de Ormuz e isso impactar a logística de contêineres ou outras logísticas marítimas, esse desdobramento foi o que aconteceu pós-Covid aqui no Brasil, onde você teve um atraso da entrega de materiais, porque você teve uma logística mundial de contêineres em colapso”.
O executivo garante que esse impacto “não é visível ainda”, neste episódio do Oriente Médio.
“Tudo depende de quanto tempo vai durar esse conflito. Mas o custo do diesel, ele já tem um certo impacto”, afirmou, sinalizando que poderá haver efeito no custo dos defensivos ao agricultor, se o problema se prolongar.
Estratégia de revendas
Na entrevista ao AgFeed, André Savino também comentou sobre a estratégia da Syngenta de manter algumas lojas próprias para vender os insumos aos agricultores.
Perguntado se algo muda em função das recuperações judiciais e extrajudiciais recentes de redes como a Lavoro e Belagrícola, ele garantiu que o plano está mantido.
“A gente nunca operou com esses private funds. Uma das nossas estratégias era continuar sempre trabalhando com cooperativas e poucas revendas, altamente fidelizadas”, disse.
“Aí, para defender esse modelo, a gente via a ameaça desses fundos de investimento lá atrás, a gente fez um investimento e adquiriu algumas lojas próprias, com a Synap, rede de distribuição da Syngenta. Esse investimento foi muito mais de defesa do que de ataque”, ressaltou.
Ele explicou que a estratégia “foi acertada e permanece”, já que a Syngenta nunca investiu em nada que não tivesse um princípio de longevidade.
“A gente nunca acreditou que esse modelo ia decolar. Um investidor dessa natureza, ele entra, compra, faz choque de gestão e vende. A gente não quis estabelecer relações com pessoas que iriam entrar e sair do negócio”.
Savino admite que houve redução de algumas lojas, “que eram menos funcionais do que outras”, levando em conta questões logísticas. A readequação foi feita por meio de parcerias com a Olfar, no Rio Grande do Sul, e com a Lar Cooperativa, no Paraná.
Resumo
- CEO da Syngenta, André Savino, diz que 2026 será mais um ano de ajuste no agro, com juros altos, crédito restrito e menor expansão de área
- Para ele, produtores devem focar em eficiência e em novas tecnologias com maior retorno sobre investimento
- Savino analisa que guerra no Irã já traz efeitos indiretos ao setor, pressionando custos logísticos e fertilizantes