Principal motor da agricultura brasileira, o cultivo da soja movimentou R$ 342 bilhões em Valor Bruto da Produção (VBP), segundo levantamento divulgado em janeiro passado pela Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura.

Isso representa cerca de 38% do VPB estimado nas lavouras do País e um aumento de 4% em relação ao ano anterior, mas que não tem se refletido no bolso dos sojicultores.

Segundo um levantamento feito pelo AgFeed, entre os anos de 2011 e 2025 – excluídos os efeitos atípicos da pandemia e das enchentes no Sul –, os preços obtidos por eles nas vendas de sua produção oscilaram de menos de R$ 50 por saca, nos anos de crise, para quase R$ 200 nos picos de 2021 e 2022.

Mas nos últimos anos, têm perdido valor, enquanto o custo de produção, que girava em torno de R$ 4 mil por hectare na safra 2020/21, aproxima-se hoje de R$ 6 mil a R$ 8 mil por hectare, dependendo da região e do pacote tecnológico utilizado pelo produtor.

Na prática, isso significa que o ponto de equilíbrio subiu. Se há uma década bastavam pouco mais de 40 sacas por hectare para cobrir os custos totais, hoje são necessárias de 55 a 60 sacas — e, em áreas arrendadas ou com maior nível tecnológico, até 65 ou 70 sacas por hectare.

Com produtividade média nacional em torno de 60 sacas, a margem tornou-se estreita – e, em muitos casos, negativa.

Rafael Silveira, economista da Safras & Mercado, calcula que a margem líquida atual esteja próxima de 5% em muitas regiões. Um resultado de 10% já é considerado satisfatório. Para remunerar adequadamente capital e risco, entretanto, o ideal seria acima de 15%.

“É uma atividade de alto investimento e manutenção constante. Se não comercializar bem, perde igual”, resume.

Será um ano atípico ou historicamente os resultados têm sido apertados? A leitura sobre um ciclo mais longo não é consensual entre os analistas.

Para Mauro Osaki, do Cepea/USP, a análise histórica mostra que, no agregado, a atividade foi rentável ao longo da década passada. Entre 2010 e 2020, houve margem real positiva que sustentou expansão patrimonial e tecnológica

Mesmo considerando as oscilações recentes, ele avalia que apenas duas safras, dentro de um recorte de dez anos, não teriam remunerado plenamente o custo econômico total.

Já Carlos Cogo, da Cogo Inteligência em Agronegócio, afirma que, em dez anos, apenas três foram efetivamente negativos e que o Brasil segue como produtor de menor custo global.

Na sua leitura, o problema não é estrutural, mas cíclico. Para 2026, projeta margens próximas de 2% a 3% no Mato Grosso, estado que usa como referência por ser o mais longe dos portos.

“É um patamar baixo, porém ainda positivo”, avalia.

A visão de Maurício Buffon, presidente da Aprosoja Brasil, é mais contundente. Ele afirma que a soja enfrentou mais momentos de aperto do que de bonança confortável e estima que entre 25% e 30% dos produtores estejam financeiramente pressionados.

Segundo Buffon, cerca de 80% dos produtores não fazem gestão financeira estruturada. “O mundo mudou, mas muita gente continua fazendo conta no papel”, afirma.

A divergência revela menos um conflito de dados e mais uma diferença de foco: enquanto os analistas olham a média agregada, lideranças do setor enxergam a dispersão — e, dentro dela, um contingente significativo de produtores vulneráveis.

Efeito manada

Se há um ponto de convergência entre todos, é de que, cada vez mais, ter uma gestão eficiente para tornar o negócio rentável.

Paulo Herrmann, CEO da PH Advisory Group e ex-presidente da John Deere para a América Latina, avalia que o setor evoluiu rapidamente em tecnologia, mas não no mesmo ritmo em planejamento estratégico.

Ele observa que decisões de expansão e aquisição de máquinas foram tomadas em momentos de preços extraordinários, como quando a soja se aproximou de R$ 200 por saca. Muitos financiamentos foram estruturados em prazos de dez anos, sob a suposição implícita de manutenção daquele patamar.

“O produtor precisa olhar histórico de dez anos e não apenas o vizinho”, diz Herrmann. Para ele, a cultura do efeito manada ainda pesa mais que a análise fria de fluxo de caixa – e isso tem custado caro a muita gente.

Eduardo Cairoli, da Privatto Consultoria, reforça que parte do setor aumentou a alavancagem com base na valorização das terras e no acesso ampliado ao crédito estruturado.

Quando a margem aperta, o risco se amplifica. “A agricultura tem ciclo longo. Se sobrou recurso numa safra, é preciso provisionar antes de iniciar a próxima”, afirma.

A crítica mais recorrente recai sobre a comercialização. A prática de travar parte da produção para garantir cobertura de custos ainda não é generalizada. Muitos produtores optam por especular com o preço, esperando alta adicional. Quando o movimento não se concretiza, o caixa sofre.

O negócio soja compensa

Gustavo Carneiro, assessor técnico ligado à Frente Parlamentar da Agropecuária, lembra que agricultura no mundo inteiro opera com margem estreita e alto risco. A diferença está na proteção.

Nos Estados Unidos, aproximadamente 80% a 90% dos produtores contam com seguro agrícola robusto. No Brasil, a cobertura ainda é limitada.

O resultado é que cada quebra climática ou queda abrupta de preço pressiona diretamente o produtor e amplia pedidos de renegociação. Para parte dos entrevistados, o modelo brasileiro criou uma cultura de dependência de refinanciamentos, o que distensiona a pressão por medidas de gestão mais eficiente, por parte dos produtores e distorce decisões de investimento.

Ao longo de 15 anos, a soja se mostrou capaz de gerar rentabilidade expressiva em momentos favoráveis, com margens superiores a 20% em ciclos excepcionais. Mas também evidenciou vulnerabilidade quando preço e custo caminham em direções opostas.

Para quem opera com produtividade acima de 60 sacas por hectare, controla custo por hectare, trava parte da produção, evita alavancagem excessiva, e trabalha com metas de margem realistas, entre 10% e 15%, ao final, o negócio compensa.

Para quem depende de preços extraordinários ou expande área sem planejamento financeiro, é arrendatário, o risco, muitas vezes, supera a margem.

A soja continua sendo uma das commodities mais estratégicas do mundo e mantém fundamentos estruturais de demanda ligados ao consumo global de proteína. Mas o ciclo recente sugere que o tempo da margem automática acabou.

O que define se vale a pena plantar não é apenas o mercado — é o modelo de gestão adotado dentro da porteira.

Resumo

  • Soja lidera o agro com R$ 342 bi, mas custos elevados reduziram margens e aumentaram o ponto de equilíbrio
  • Custo de produção fica entre R$ 6 mil e R$ 8 mil por hectares e rentabilidade é baixa, com produtores sob pressão financeira.
  • Gestão, comercialização e controle de custos são decisivos para tornar o cultivo viável