De olho em concentrar suas atividades nos segmentos de beleza, cuidados pessoais e bem estar, a Unilever, dona de um vasto portfólio de mais de 400 marcas, reunindo nomes como Hellmann's e Knorr, está negociando a venda de sua divisão de alimentos à americana McCormick & Company.

Em comunicado divulgado nesta sexta-feira, dia 20 de março, a companhia confirmou que recebeu uma oferta da McCormick, mas não garantiu que a transação será concretizada.

De acordo com informações da Bloomberg, as empresas estão trabalhando para fechar o acordo até o fim de março.

Se a transação se concretizar, a McCormick, que tem sede no estado americano de Maryland, vai levar um negócio avaliado em US$ 33 bilhões, de acordo com dados da Bloomberg Intelligence, e um vasto portfólio de marcas bastante conhecidas por consumidores de todo o mundo.

Assim, também terá acesso a mercados onde praticamente hoje não tem presença, como o Brasil, um dos principais consumidores da maionese Hellman's, fabricada pela Unilever.

No mercado americano, a McCormick é conhecida principalmente por suas marcas de especiarias e temperos, e vem ampliando sua atuação nos últimos anos.

Em 2017, a companhia comprou a divisão de alimentos da Reckitt Benckiser, a RB Foods, por US$ 4,2 bilhões, levando para casa marcas como a mostarda French’s, e o molho de pimenta Frank’s RedHot.

Ainda assim, é uma empresa muito menor que a Unilever, com valor de mercado de US$ 14,5 bilhões, cifra nove vezes menor que os cerca de US$ 135 bilhões de market cap da companhia anglo-holandesa.

Já no lado da Unilever, a venda total da divisão de alimentos é a continuidade de um processo que já vinha acontecendo nos últimos anos. A empresa costuma fazer uma revisão contínua de portfólio, como é comum em conglomerados de grandes portes, mas, no segmento alimentício, fez movimentos relevantes na última década, que denotam mudanças além de meras modificações pontuais em seus ativos.

Em 2010, por exemplo, a companhia vendeu para a Cargill seu negócio de atomatados no Brasil, incluindo as marcas Elefante, Pomarola, Tarantella e Extratomate, parte delas ainda hoje no mercado, sob controle da empresa americana.

Também na década passada, em 2018, vendeu seu negócio de margarinas e produtos para massas para a gestora KKR, que formou a empresa Flora.

Mais recentemente, já no ano passado, a Unilever resolveu cindir a Magnum Ice Cream, seu negócio de sorvetes, em uma empresa independente, mantendo uma participação de 20% no negócio. A companhia é dona da brasileira Kibon e de marcas conhecidas do público como Ben & Jerry's, Magnum e Cornetto.

Antes da negociação com a McComick, a Unilever teria conversado com a concorrente americana Kraft Heinz, segundo informações do jornal britânico Financial Times, para fundir o negócio de alimentos da companhia anglo-holandesa à divisão de condimentos da empresa americana.

Na prática, isso faria com que o ketchup Heinz e a maionese Hellmann's estivessem no mesmo portfólio. As negociações, no entanto, não avançaram e já foram encerradas.

No ano passado, a divisão de alimentos da Unilever faturou 12,9 bilhões de euros, 3,2% a menos que em 2024. O faturamento da Unilever como um todo, somando 50,5 bilhões de euros, retração de 3,8% na comparação com o ano anterior.

Daqui em diante, a Unilever pretende se concentrar no segmento de beleza e cuidado pessoal. “Estamos realmente mudando nosso portfólio para focar mais em beleza, bem-estar e cuidados pessoais”, disse o CEO da companhia, Fernando Fernandez em um evento em Nova York no início deste ano.

Dona de marcas como os sabonetes Dove e Lux, os desodorante Rexona e Axe, o amaciante Comfort e a pasta de dente Closeup, a companhia vê esse segmento como mais atrativo, uma vez que os consumidores estão cada vez mais dispostos a gastar com esse tipo de produto.

“Urbanização, expansão de riqueza, entrada maciça do gênero feminino no mercado de trabalho, baixas taxas de natalidade, adoção em massa de estilos de vida saudáveis ​​- tudo isso favorece essas categorias", analisou Fernandez.

Em contrapartida, o segmento alimentício traz perspectivas menos vantajosas, com a combinação de inflação de alimentos pressionada em muitos países e o aumento cada vez mais evidente do uso de canetas emagrecedoras, levando os consumidores a buscarem alimentos mais saudáveis e menos processados.

No Brasil, a Unilever é uma importante compradora de soja dos produtores locais e mantém programas de compra de grão sustentável certificada pela RTRS (Round Table for Responsible Soy) para a produção da maionese Hellmann's.

No ano passado, a companhia inclusive anunciou a criação de um programa, em parceria com a CJ Selecta, para incentivar a adoção de práticas de agricultura regenerativa por produtores de soja do Cerrado brasileiro, com a meta de alcançar até 45 mil hectares até 2030.

A Unilever é listada na Bolsa de Londres e na Euronext, a bolsa de Amsterdã. Em Londres, 11h25 (horário de Brasília), suas ações subiam 0,67%, cotadas a 4.604 pences britânicos cada. Em Amsterdã, o desempenho era semelhante no mesmo horário: os papeis registravam alta de 0,66%, a 53,66 euros cada.

Resumo

  • A Unilever negocia vender sua divisão de alimentos para a americana McCormick & Company, embora ainda sem garantia de conclusão
  • A potencial aquisição ampliaria a presença global da McCormick, inclusive no Brasil, onde marcas como Hellmann's têm forte mercado, e reforçaria sua estratégia de expansão da empresa
  • A venda faz parte da reestruturação da Unilever para focar em beleza e cuidados pessoais, após anos se desfazendo de ativos de alimentos, diante de margens mais atrativas e mudanças no consumo global