Mais de 525 anos após o desembarque da esquadra de Pedro Álvares Cabra em Porto Seguro, o espírito português continua a desbravar novas terras na Bahia. Com investimento, até agora, de R$ 70 milhões, o grupo Euroeste – que já esteve entre os grandes produtores de suínos de Portugal e também manteve produção agropecuária na África – trabalha há 10 anos para transformar um enclave localizado entre o Oeste baiano e o vale do rio São Francisco em uma nova fronteira produtiva no estado.
Ali, em 7 mil hectares adquiridos em 2016 pelo empresário português Pedro Garcia de Matos, a empresa vem transformando a paisagem antes hostil em uma propriedade que combina pecuária intensiva e produção de grãos, com produtividades crescentes.
“Estamos em uma ilha”, resume Manuel Maria Coimeiro, CEO da Euroeste Bahia Agronegócios, a empresa estabelecida por Garcia de Matos no município de Barra, situado bem na confluência dos rios Grande com o São Francisco.
Trata-se, na verdade, de um triângulo, limitado pelos dois cursos d’água e uma serra, que o separa do cerrado onde estão instalados Barreira e Luís Eduardo Magalhães, os atuais motores do agronegócio baiano.
Desde o final da década passada, a companhia tem instalado pivôs de irrigação e investido na transformação do solo arenoso da Fazenda Saudável.
“Tivemos grandes desafios para o nosso crescimento, mas hoje jpa estamos com uma estrutura aceitável para conseguir gerar riqueza e mostrar que a região é forte e que consegue produzir”, afirma Coimeiro, também português, mas agora radicado em Barra.
O projeto da Euroeste avança em fases, com passos bem calculados. Hoje conta com pecuária de recria e engorda em um confinamento com capacidade estática ara 3 mil animais, além de 200 hectares consolidados para a produção de grãos.
O gado Nelore, de genética apurada, é rotacionado entre 250 hectares de pastos sob pivô e outros 850 de pastagens de sequeiro.
A produção agrícola, com milho e soja, acontece sobretudo onde foi instalado, em 2019, o primeiro pivô e a matéria orgânica produzida com a presença do gado e de braquiária durante seus anos ajudou no melhoramento da terra.
“Colhemos a nossa primeira soja”, conta o produtor. Antes dela, a safra de milho rendeu 228 sacas por hectare e mais 57 toneladas de silagem. Tudo que é colhido permanece na fazenda, para nutrir o rebanho;
“Agora é que estamos a entrar na parte em que a produção é o caminho”, diz Coimeiro. Ao longo dos primeiros anos do projeto, segundo ele, muito do trabalho da empresa foi dedicado ao desenvolvimento de condições para que essa produção acontecesse.
A região, explica, era carente sobretudo de energia, insumo indispensável para a instalação dos pivôs, o que fez com que o avanço fosse mais lento.
Segundo ele, gestões feitas pelo Sindicato dos Produtores Rurais da Barra conseguiram fazer com que fosse iniciada a instalação de uma subestação no município, que deve criar as condições para que o ritmo seja acelerado – e não apenas pela Euroeste.
Além disso, havia insegurança fundiária na região, equacionada com um melhore acompanhamento dos registros das propriedades rurais, o que, para Coimeiro, deve tornar aquelas terras mais atrativas a i investidores.
“Muito em breve, a Barra terá outra forma de pensar e outra forma de investir daquela que tem hoje e que tinha na altura que nós chegamos”, avalia.
Do ponto de vista específico da propriedade do grupo, os primeoros anos foram dedicados sobretudo às questões ambientais, com a obtenção de licenças para a supressão vegetal e outorgas de água.
A primeira fase de implantação começou em 2019, com a instalação do pivô central que abriu a área para a recria intensiva do gado. Coimeiro conta que os objetivo inicial eram entender se a produção era viável naquele solo pobre.
“Fomos aqui dando passo devagarinho numa região que poucos sabiam o que é que dava para fazer”, diz.
A escolha da pecuária doi pragmática. “Era o melhor negócio para, se corresse mal, a gente ter um ativo para vender, em vez de não ter milho ou não ter soja”.
O solo sob o pivô foi corrigido com um “investimento pesado”, conforme ele diz, em calcário e fósforo, fizemos aqui um investimento pesado no solo. E o capim cresceu bem, mostrando que o projeto era viável.
Até 2022 o grupo operou com esses primeiros 200 hectares, mas já com a montagem, em 2021, do primeiro bloco de mil animais no confinamento.
Então, a área irrigada foi incrementada em mais de 100%, passando a 460 hectares. E, então, o confinamento também foi ampliado. No ano passado, entregou 5,6 mil animais para o abate em frigoríficos da região.
“Hoje nós produzimos um gado de excelência e toda a gente quer o nosso gado, nossos animais não dão menos de 56% de rendimento,
estão bem acabados, estão bem terminados”.
Segundo Coimeiro, “a Barra é um ótimo sítio para fazer a recria e a engorda”, porque o clima seco ajuda a reduzir o índice de problemas respiratórios no rebanho.
Com a implantação mais recente da agricultura, a Euroeste estuda agora o comportamento da produção em áreas que não foram antes ocupadas pela pecuária. Um novo pivô está sendo testado em uma área em que o solo ainda não recebeu a matéria orgânica dos animais e da braquiária, de forma que a empresa possa entender os custos e o tempo necessário para melhorar esse trecho da fazenda.
“Estamos aqui a utilizar tudo aquilo que a tecnologia nos pode dar para desenvolver aquela que, na ótica aqui até grandes produtores, é uma área de grande potencial”, ele diz.
Coimeiro citar ter ouvido de Antonio Franciosi, um dos pioneiros do Oeste baiano, que as condições de estrutura, clima e de disponibilidade hídrica ali naquele triângulo baiano são melhores do que as que ele encontrou quando cegou a Luís Eduardo Malaglhães há 40 anos.
A expansão já está planejada. A empresa já tem um projeto para fazer a supressão vegetal e aguarda sinal verde dos órgãos reguladores para continuar o investimento e aumentarmos a nossa área.
Este ano, com uma sobra de energia que foi conseguida, será possível instalar mais dois pivôs, acrescentando 100 hectares.
Com energia, Coimeiro afirma que poderia ampliar a área irrigada com pivôs em mais 500 hectares de pivô. “Aquilo que hoje nos está a travar é a energia, mas é por um horizonte curto”, diz.
A geografia favorável na região tem estimulado empresas de energia a estudar a implantação de projetos de energia eólica no alto das serras vizinhas e a alta radiação solar é favorável ao sistema fotovoltaico.
Além disso, o regime de chuvas por ali também é melhor, para a agricultura, do que o do vizinho Oeste baiano. A média da região, segundo Coimeiro, é de cerca de 700 milímetros ao ano. Nos últimos três anos, superaram os 1 mil milímetros.
Para a Euroeste, uma maior atenção sobre a região é um bom negócio em todos os sentidos. Hoje, a empresa compra praticamente todo o milho comercializado no município de Barra como insumo para a nutrição animal. E ainda precisa buscar mais um tanto em outras regiões;
“Temos poucos produtores e por isso é que eu quero que haja mais produtores, que venha mais gente a ajudar a desenvolver”.
No ano passado, pela primeira vez ele conseguiu, por alguns meses, abastecer a fazenda apenas com milho proveniente da Barra, o que gera economia importante no frete. Essa economia, garante, é dividida com os produtores locais, pagando um prêmio pelo produto.
“Dividimos o ganho. É tudo rachado e é assim que nós trabalhamos. E se for falar aqui com os nossos vizinhos com quem nós fazemos negócios, nós vivemos todos assim aqui na ótica de ajudar a desenvolver e vamos construir juntos”.
Resumo
- Grupo português Euroeste investiu R$ 70 milhões para desenvolver pecuária intensiva e produção de grãos em Barra, na Bahia
- Fazenda combina confinamento de gado, pastagens irrigadas e cultivo de soja e milho, com melhorias graduais do solo arenoso
- Novos pivôs e aumento da área irrigada estão planejados, mas o avanço ainda depende da ampliação da infraestrutura energética na região